Maria
da Conceição Cação
Tiro a venda. Eis-me perante
um lugar de sonho: o jardim. Do rectângulo de relva verdejante, elevam-se, em
surpreendente harmonia, um jacarandá, uma acácia e um abeto. Nos cantos, as
flores exuberantes dos hibiscos oferecem-se aos beija-flores. Ao abrigo do alto
muro, onde um casal de namorados emerge, enlaçado, dum painel de azulejos azul
e branco, tufos de alfazema coroados de anil, impregnam o ar dum perfume
discreto. Num lago, ao centro, ondulando as águas, deslizam, majestosos, dois
cisnes brancos. À esquerda, numa gaiola de ferro rendilhado, assente sobre a
calçada, um papagaio palrador acolhe-me com uma saudação. Incrédula, avanço uns
passos. Ao meu olhar, deslumbrado, apresentam-se a piscina, as cadeiras, as
tendas, o cantinho de convívio e leitura, onde não faltam os sofás, as mesinhas
de apoio, as prateleiras, os vasos floridos, as lanternas, as velas…
Aproximo-me da cancela de madeira. Do lado de lá, mais recatados, a horta e o
pomar. Uma mistura de aromas, ainda há pouco tão subtil, insinua-se agora aos
meus sentidos. Inebriada, alongo a vista. Alinhadas ao longo do passadiço,
frondosas árvores exóticas ostentam garbosamente os seus frutos.
Sinto-me perplexa. Como foi possível aliar
tanta beleza, harmonia, conforto? Que fada teria derramado aqui tão
generosamente a sua magia? Aquele era o espaço perfeito, muito mais do eu
ousara desejar! E, no entanto, sinto-me constrangida. Não consigo retribuir a
simpatia que me circunda. Esboço expressões de entusiasmo, de contentamento,
que logo esmorecem na garganta. É como se me encontrasse de visita a um belo
parque da cidade. O meu coração permanece distante. Sinto-me como uma criança a
quem fosse, de súbito, retirada a modesta mãe e visse, no seu lugar, uma
madrasta coberta de jóias.


























