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domingo, 20 de outubro de 2013

À procura de Nemo

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação

JORGE SANTOS

... o sorriso pintado na cara
          Marlin era um palhaço. Não no significado depreciativo, mas profissional: era um palhaço, que deixara de trabalhar no circo e agora aparecia em festas de crianças, com o seu fato largo de várias cores, o nariz vermelho e o sorriso pintado na cara. Gostava do que fazia e esforçava-se para estar sempre bem disposto e brincalhão, mesmo que, ultimamente, o sorriso fosse meramente um adorno. Por dentro, Marlin perdera a vontade de sorrir desde que a mulher, Coral, chegara a casa com os resultados dos exames médicos. As palavras leucemia, radioterapia e quimioterapia entraram naquela casa como se fosse uma tempestade. Apenas o pequeno Nemo, na altura com dois anos, estava alheio às possíveis implicações da doença da mãe.
Marlin esforçou-se o mais possível para se manter junto da esposa, vendo-a a definhar e a ter de se mostrar sempre bem disposto e alegre. Por dentro estava com o ego estraçalhado, apenas um fragmento do Marlin que antes fora, um fragmento de homem que, um dia, recebeu a notícia, cuja esperança de não receber alimentara nos últimos dois anos: Coral já não voltaria a casa. Marlin chegou a casa e agarrou-se ao filho, a chorar. Agora eram só os dois.

Nemo tinha o sonho de ser jogador
de futebol
          Dez anos passados, Marlin trabalha agora num supermercado. Nemo tornara-se um rapaz esperto com a mania da bola, como qualquer outro rapaz de 14 anos, independentemente do seu grau de esperteza. Tinha o sonho de ser jogador de futebol numa grande equipa, mas o pai tinha receio: aos 7 anos, o Nemo chegara a casa com dificuldade em respirar. O médico dera as más notícias - naquela casa, eram sempre os médicos que davam as más notícias, e o Marlin já estava a ficar farto: Nemo tinha asma. Durante os anos que se seguiram, o rapaz foi parar às urgências do hospital quase todos os meses, até que, recentemente, Marlin o proibira de jogar futebol.
       “Pai, não me podes proibir!”, berrou o Nemo, no seu quarto, agarrado à bola, sem ter consciência de que o estava a fazer exactamente no mesmo sítio onde o pai o abraçara quando a mãe tinha falecido.
          “É para o teu bem, Nemo.”

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Curto, mas não "grosso"...

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação


Estamos a publicar textos subordinados à temática AMIGOS e AMIZADE. Colabore e remeta-nos o seu texto ou poema inédito para publicação. Ouse! A diversidade fortalece a amizade.  


Jorge Santos

Os verdadeiros amigos não existem: co-existem

Os amigos são a família com quem partilhamos tudo, menos o sangue; são os que ficam, quando todos os outros partem; são os que estão lá quando deitamos a primeira lágrima e que fazem de tudo para que deitemos a última. Os amigos não são os que vêm com palavras doces, mas os que insultam quando sabem que precisamos, e os que sempre perdoamos, mesmo que nunca se desculpem. Os verdadeiros amigos não existem: co-existem, misturando o seu ser com o nosso, sem nunca pedir nada em troca. Não queremos que seja de outra forma, não podemos existir sem isso – se pudermos, não seremos, de facto, amigos…


quarta-feira, 1 de maio de 2013

O Jogo

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação


Jorge Santos

Doze peças pretas e
doze peças brancas
Nem frio, nem calor, apenas o sol suficiente para aquecer o corpo no parque e esquecer o longo inverno e uma primavera mais húmida do que me consigo lembrar – mesmo que a memória já não seja a mesma há muitos anos. Nestes dias, a rotina era sempre a mesma, depois do almoço vínhamos para ali, ocupávamos um lugar numa das mesas em cujo tampo alguém teve o discernimento suficiente para pintar um tabuleiro, talvez até tenha sido eu. Não creio. Pego no saco das pedras redondas e coloco-as no tabuleiro. Doze peças pretas e doze peças brancas, todas iguais, de marfinite gasta pelo tempo. Disponho-as para começar uma partida de damas.

Ele chegará, lento e cambaleante, cigarro na boca. O cheiro a tabaco denuncia-o sempre. Senta-se na cadeira da frente e começa a jogar. Não diz uma palavra. Trinta anos de amizade e dez na reforma não deixam muitos assuntos pendentes. Ganha-me frequentemente. Ou deixo-o ganhar, já não sei. O resultado não interessa, apenas o tempo que é passado para que resulte.

Jogo agora sozinho
Ele chegaria, lento e cambaleante, cigarro na boca. O cheiro a tabaco já não o denuncia. Repousa agora na sua última morada. Deixou-me ganhar naquela que era a nossa maior competição: viverei mais tempo do que ele. Essa vitória sabe-me mal, tal como me sabia mal o cheiro do seu tabaco.

Jogo agora sozinho. Imagino-me a jogar com ele. Repetidamente. Ganho-me e perco-me. Não interessa. Dentro de pouco tempo até o calor do sol me deixará de interessar.

Faço o último movimento. Como uma pedra no jogo. Com raiva. A pedra comida desliza para fora da mesa e cai ao chão de erva rala. Inclino-me para a apanhar, uma aventura na minha idade. Sinto todas as articulações do meu corpo a estalar. Estico o braço, a mão esbranquiçada e manchada quase que chega à pedra, mas outra mão mais jovem antecipa-se e apanha-a.

A solidão não era um exclusivo
da velhice 
O rapaz não tinha mais de nove anos. Já o tinha visto por ali, sempre na companhia da irmã mais velha que se sentava a ler num dos bancos mais afastados. Na mão trazia uma consola de jogos, uma daquelas coisas que lhe ocupavam sempre a atenção, em vez de estar a jogar à bola com os amigos. Talvez, como eu, não tivesse amigos. A solidão não era um exclusivo da velhice.

“Acabou a bateria”, queixou-se ele. Eu sorrio: “O meu jogo não precisa de pilhas. Queres que te ensine?”

O rapaz olhou com estranheza para as pedras durante algum tempo e depois aceita, sentando-se no banco que era do meu amigo. Apetece-me avisá-lo dos malefícios do tabaco, mas ainda é muito cedo para isso…


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Mais uma página em BRANCO



EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação


Jorge Santos


Bolas, mais uma página em BRANCO, e agora? É do caraças. Toca a inventar uma personagem - branca, como a página. Mas também poderia ser negra, azul ou às pintinhas. No dia em que o milímetro de epiderme definir a pessoa pelo seu todo, as galinhas terão dentes, e pelo mesmo motivo: o da estupidez, pura e dura. Mas adiante. 
A minha personagem chamar-se-à Pedro
A minha personagem chamar-se-à Pedro. Tem um pequeno escritório de contabilidade, vive sozinho num apartamento normalíssimo. Aliás, toda a sua vida é absolutamente normal, tão normal que ele tem a impressão de não ter vida. Talvez seja essa a razão dele não conseguir ter um relacionamento mais estável: a sua insustentável normalidade de pessoa normal, heterossexual assumido, algo quadrado nas atitudes. Gosta de música dos anos 70 e 80, abomina o que é tocado nas discotecas e bares. Por essa e por outras, Pedro sente-se sozinho e tem tendências para a depressão. Até brinca com isso: “Mais deprimido do que eu, só mesmo a situação económica do país”, matuta ele, enquanto termina mais um modelo 22. Mas ainda mais adiante: Pedro está apaixonado. Descobriu há pouco tempo, e mudou completamente o seu mundo cinzento. A culpada chama-se Céu Vermelho. Não, não é brincadeira. 
Céu Vermelho
Ele está apaixonado por um perfil anónimo que habita no seu Facebook. Nunca viu sequer uma fotografia dela, mas todas as conversas que tiveram deu-lhe essa certeza, a certeza de ter conhecido a sua alma gémea. Não se trata apenas da concordância de gostos, mas também a concordância nos maus gostos, ainda mais importantes. Os dois gostavam das mesmas coisas, coisas essas que as outras pessoas pensavam não ter valor absolutamente nenhum. Foi com espanto, por exemplo, que Pedro descobriu que Céu Vermelho tinha, como ele próprio, um fascínio pelos filmes pornográficos do início dos anos 80. Nunca tinha conhecido uma mulher que gostasse daquilo, mas Céu Vermelho gostava, e isso tinha feito o clique: Pedro passou o seu estado civil para SOLTEIRO, MAS APAIXONADO. 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Origami


EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação

Jorge Santos
Um boneco feito de papel
Ele colocou o boneco feito de papel em cima do banco de jardim. Estava sentado, olhando para o pequeno lago. Depois, José deu dois passos para trás para admirar melhor a sua obra. Satisfeito, continuou o seu passeio.
Mais à frente, pegou numa folha do seu caderno de Origamis (faltavam poucas, não tinha dinheiro para comprar mais), dobrou-a com toda a paciência habitual de quem tinha esse vício desde adolescente e colocou o resultado final - uma flor de papel - no chão. 

Estava a semear origamis
Estava a semear Origamis pelo jardim público, como se fosse o novelo que Teseu desenrolou para conseguir saber o caminho de saída do labirinto do Minotauro – mas José desconhecia a lenda grega: sentira necessidade de deixar o seu rasto no jardim (ou no mundo?), por alguma razão estranha. Aquele seu hábito dava com a mulher em doida: por toda a casa tinha pequenas miniaturas de papel dobrado. Desde que a empresa o tinha dispensado, não fazia outra coisa. Estava tantos anos num emprego de que não gostava, mas quando se viu sem ele, ficou admirado com a falta que sentia. Antes um emprego de que não gostava, do que nenhum emprego para não gostar.
Andou mais uns passos e tirou mais uma folha. Dobrou-a para formar uma criança pequena. Depois colocou-a no chão. Representava o filho pequeno, a quem José ensinara a fazer pequenas dobras, para alegria do petiz (que no entanto preferia as longas horas a torrar o seu pequeno cérebro à frente de uma televisão – José ficava louco por isto).
Atirou para o lixo o caderno, agora vazio de folhas, e foi-se sentar no banco de jardim. Tirou um papel do bolso, uma carta que indicava o fim do pagamento do subsídio de desemprego. Releu-a pela décima vez: precisava de uma luz para voltar a ter esperança. Tinha piada que um papel lhe tivesse terminado a vida, quando tinha passado a vida a dobrar papéis.

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