© José Teixeira e Albertina Vaz
Pela frincha
da janela, olhava a rua e a chuva que caía insistente. As palavras iam e vinham
e não se quedavam. Um vazio imenso apoderou-se do espaço. Desde que ela partira
tudo se enublara. Até a luz do sol parecia ter-se diluído. Olhou-se no tempo e
sentiu-se perdido. Só, e sem nada a que se agarrar.
Caminhava ligeiro pela ingreme rua. Não entendia porque tinha
tomado tal atitude, ao cair da noite. Sentia necessidade de partir. Talvez ver
as luzes da cidade. Caminhar…esquecer…porque afinal era véspera de Natal, no
seu mundo de solidão.
Tiveram
apenas um filho e há muito que não recebia notícias dele. Aquela terra, lá
longe, para onde partira, roubara-lhe os dias para ver crescer os netos. Nunca
foi com eles ver o mar nem ouvir os trinados das gaivotas, espraiando as asas em
dunas de areia.
Até ao momento nada o tem afastado da sua casinha, onde se dedica
a cultivar leguminosas e hortícolas que reparte com os vizinhos. Foi construída
com o seu suor e o da Ermelinda, a sua eleita e amada. Ali viu nascer o filho.
Dali o viu partir, em busca dum futuro melhor. Criou família e deu-lhe dois
netinhos. Ao princípio, vinha passar férias. Até construiu uma casa e o seu
sonho era regressar um dia. Porém, as voltas que a vida foi dando, afastaram-no
da terra mãe.
- Que
estranho! – pensou – este ano nem o meu cunhado me convidou para comer uma
rabanada, - e sentiu-se
sozinho. Ele e os seus velhos, lá, naquele lar, aonde não tinha coragem de
voltar.
