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terça-feira, 23 de maio de 2017

E SE FOSSE AMANHÃ?

 © Graciete Manangão

PORQUÊ?

E se amanhã tudo terminasse?
E se, na verdade, fosse já amanhã?
Estou preparado para essa hora?
Valeu a pena ter vivido?
Se não, porquê?
Se sim, porquê?
Então, porque não dei todos os abraços que eram necessários?
Porque escondi os meus tesouros?
Porque me escondi, apavorado, tantas vezes ?
Porque não te escutei?
Porque me calei, torturado, quando queria gritar bem alto?
Porque não procurei todos os recantos do mundo?
Porque não dei abrigo?
Porque não construí?
Porque não criei nada?
Porque não resisti?
Porque, apavorado, tenho  medo de chegar ao fim da estrada?
Porque ainda não me libertei.
Olho, longamente, para trás.
E, depois, sigo em frente, corajosamente.
Creio que chegou a hora da verdadeira liberdade.
Sim, agora, sinto que fui libertado.

Finalmente, sou livre!

Graciete Manangão ©2017,Aveiro,Portugal

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O Manuel Sortudo - uma história quase verídica...

Graciete Manangão


O Manel era um jovem e dinâmico agricultor. Lavrava e cultivava quase todas as terras disponíveis, na sua aldeia, quer fossem suas ou não. Tinha investido em modernas máquinas agrícolas. Era muito requisitado para fazer todo o tipo de trabalhos de lavoura por quem o não podia fazer. Além disso, tinha uma ordenha mecânica que lhe dava um
um "empresário agrícola"
rendimento mensal razoável. Constava-se até que recebia subsídios do Estado para manter toda a sua actividade agrícola. Era o que se poderia dizer um “empresário agrícola”.
Estava casado, desde os 22 anos, com Bina, uma bonita e vivaça feirante. Sempre bem disposta e incansável, “fazia” mensalmente, durante todo o ano, fizesse chuva, sol ou vento, as feiras dos 7, dos 10, dos 12, dos 13, dos 21, dos 28, dos 29 e dos 30. Levantava-se de madrugada, em dias de feira, para preparar a carrinha fechada com todo o arsenal da tenda, incluindo os sacos de plástico enormes, carregados de mercadorias diversas.
Com toda esta azáfama diária, e porque ainda estavam no princípio da luta pela vida, Bina e o Manel resolveram adiar a chegada de um filho.
Sobrava muito pouco tempo para distrações ou passeios. Bina, aos domingos à tarde, desde que não fosse dia de feira, gostava de ir ver o mar, fazer algumas compras para casa e lanchar na pastelaria da dona Mariazinha.
O Manel, sempre que podia, ia ao “Café do Zé” beber uma cerveja ou um café e bagaço, com os seus amigos ou vizinhos. Às vezes, também jogava às cartas.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

OS HOMENS DE DANIELA - UMA HISTÓRIA QUASE REAL

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação



Daniela, jovem brasileira, morena e de cabeleira leonina, fora casada com Jair, durante 10 anos.
Natural de S. Paulo, era filha de portugueses, emigrados há vários anos no Brasil.
Daniela tinha conhecido Jair numa mercearia de bairro, perto de sua casa. Ele era o filho
onde vendiam bacalhau seco e salgado
único dos donos da loja onde vendiam, entre muitas coisas, produtos importados genuinamente portugueses, como o bacalhau seco e salgado, a morcela, o azeite,  o queijo da Serra e o vinho fino do Douro…
Sendo oriunda de uma modesta família, aos 18 anos, terminados os estudos liceais, Daniela pensou em começar a trabalhar, pois queria ter alguma autonomia financeira. Sonhava ser “balconista” ou “secretária”. Toda entusiasmada, começou a procurar trabalho em diversas lojas, escritórios e restaurantes. Não foi fácil. Mas foi na mercearia do Sr. Santos, pai de Jair, que conseguiu emprego como balconista, pois a anterior empregada tinha sido despedida. E o Sr. Santos, o patrão que entretanto enviuvara, já sentia alguma dificuldade  em tomar conta de tudo, apesar da ajuda do filho, que não quisera ser “engenheiro” ou “doutor” como o pai sonhava.
Daniela sentia medo
O Sr. Santos gostou dos modos cativantes da menina Daniela. Pensou que seria uma boa aposta contratá-la para ajudar no atendimento ao balcão. E Daniela aceitou as condições oferecidas. Jair, o filho, ocupar-se-ia da “escrita” e dos contactos com os fornecedores.
Passado pouco tempo, o patrão começou a assediar a nova empregada com propostas inconvenientes. Daniela, que ainda não conhecera homem, sentia medo. Medo, por várias razões. Principalmente por perder o emprego, pois considerava-se bem paga para aquilo que fazia. Já tinha sentido na pele a dificuldade em arranjar trabalho. E, além disso, gostava daquele contacto diário com a clientela. Alguns clientes tratavam-na carinhosamente por “Minina”.
Daniela, sempre afável, solícita e risonha para com toda a gente, já tinha feito aumentar a clientela e os rendimentos da mercearia.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

LINHAS DISPERSAS

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação






Ah, velho pescador,
de barba sem cor
Se tu me pudesses dizer
O que a vida me reserva…
Águas mansas, onduladas
Sem fim
Estais tão longe
E tão perto de mim!
Estais próximas
Mas tão inacessíveis às minhas mãos…
Sois como a felicidade
Que, estando sempre à nossa volta
É tão difícil alcançá-la!
Que linda gaivota
Graciosa  e esguia
Está à minha frente!
Activo vem até mim
o odor fresco da maresia.
E os iates balouçando docemente
Dir-se-iam berços  que o mar dolente
Embala e afaga…
Ah, pescador,
Se tu pudesses adivinhar
O meu destino
E acabar com este desatino!

15-3-1967

Graciete Manangão ©2014,Aveiro,Portugal

domingo, 19 de maio de 2013

O JOÃO E A MARIA - UMA HISTÓRIA QUASE REAL


EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação


A partir da publicação do Texto I, aos domingos, e com periocidade semanal, seguir-se-ão outros integrados numa reflexão sobre CICLOS DE VIDA. Pretende-se uma reflexão dialogante e que abra horizontes.
Caro leitor, enriqueça este diálogo, participando com um texto! 

Obrigada. O trabalho poderá ser enviado para o endereço evoluircriativa@gmail.com ou para qualquer outro dos autores do blogue.

TEXTO VI

Graciete Manangão

O João era viúvo, reformado dos Caminhos de Ferro (CP), ainda escorreito e de boa aparência, apesar dos 75 anos. Tinha nascido em Cacia, mas após ter perdido a sua mulher, passou a viver com um dos seus filhos, na Gafanha da Nazaré, pois a casa, terras e  parte do dinheiro amealhado, ao longo dos vários anos,  foram distribuídos pelos seus três filhos.
Começou a ir à pesca
quase todos os dias
Passado algum tempo de luto, e de atribulada adaptação à nova situação, João pensa em refazer a sua vida. Começou a ir à pesca, quase todos os dias, de manhã junto ao paredão da Barra,  e à tarde, ia ao café do senhor Hilário, para conversar ou assistir aos jogos da Sport TV.
Por vezes, ao domingo, ia almoçar fora com o filho, a nora e o neto adolescente. E, claro, era sempre o João  que pagava o almoço.
Até que um dia se cruzou com a Maria. Era uma mulher madura, bem constituída, ainda bonita, de cabelo dourado, tisnada por muito sol da beira-mar. Parecia não ter mais de 45 ou 50 anos, quando se conheceram.
Veio a saber que ela era “marisqueira”, pois vivia da apanha de bivalves e de isco para a pesca, na ria de Aveiro. De inverno, dedicava-se mais a vender peixe e legumes, no mercado da Costa Nova.
Maria não saia da cabeça de João
Maria não saía da cabeça e do coração de João. Até que um dia encheu-se de coragem e propôs-lhe que se juntassem, para conforto de um e de outro. Mas  Maria  queria muito mais. Desejava ter uma casa, maior e melhor do que aquela onde vivia. Vivia numa casa arrendada há já vários anos e sonhava vir a ter, um dia, uma casa em seu nome.
João fez-lhe várias promessas, na secreta esperança que ela não o abandonasse, na derradeira hora. Pressentindo os anseios dele, Maria exigiu-lhe que se casasse com ela e, logo que fosse possível, mudassem para uma casa mais moderna e arejada.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O MEU POEMA


EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação


Graciete Manangão

Quero devorar
A vida
Não quero
Que a morte me devore
Não quero viver
Morrendo…
Quero devorar
A vida
Antes que a morte
Sempre mais forte
Me devore
Quero vencer o tempo
Não quero
Queimar  horas
Num tempo vazio
Quero vencer o tempo                          
E viver, viver!
Quero devorar
Os tempos
Do meu viver.
Saboreando rosas e rochas
Calcando montes e pontes
Semeando beijos e desejos
E mais, muito mais,
Cada vez mais
em cada hora que passa
Sem eu saber…

E antes que o tempo
Devore a minha vida
Quero vencer
o tempo
Feito de terra e de pó.
Sim, quero viver!


terça-feira, 12 de março de 2013

O PARTO

EVOLUIR agradece este texto para publicação
Graciete Manangão

Maria estava prenhe de palavras.

Há vários meses, não sabe bem desde quando, o pensamento e a realidade andavam enredados. Enlaçados e em luta.
As palavras revolviam-se nas entranhas, sem nexo ou forma definida. Por vezes, não conseguia articular uma simples frase.
Mas não queria desistir de criar.                                                                             
Maria estava prenhe de palavras
Aos poucos, de dia para dia, algo ia ganhando corpo e sentido.
Os sonhos sobrepunham-se à realidade. E cresciam, cresciam, até fazer doer a alma.
Maria desejava sentir os batimentos daquele estranho coraçãozinho.
As noites e os dias foram correndo.
Maria queria muito que o sonho se tornasse realidade. Queria ser a protagonista do acto de criar. Desejava construir, materializar uma vida. Dar forma definida a algo quase indefinido, mas avassalador.
Até que numa noite de lua cheia, fecunda e inspiradora, após algumas horas de maior sofrimento, deu à luz a personagem toda inteirinha, que alimentara dentro de si.
Uma história, uma vida repleta de sentidos e de sentimentos acabara de nascer.
Tinha conseguido.
Que felicidade, Maria!


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

CASAS MORTAS

EVOLUIR agradece este texto para publicação

Graciete Manangão



Na minha aldeia há mais casas mortas do que casas vivas.
Numa casa “viva”, há vida durante 24 horas. Em todos os segundos que compõem o dia de quem nela habita.
Vida fervilhando, construindo ou destruindo, amando ou odiando, ora latente ora activa, vida projectada ou adiada.
Casa vazias, silenciosas, fechadas a sete chaves são casas mortas.
É urgente abrir portas, abrir caminhos, desvendar corpos e almas.
É urgente viver, abrigar corpos e almas.
Não quero ver mais casas mortas.
Quero adiar a morte.

Queremos ressuscitar as casas mortas.







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