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quinta-feira, 9 de abril de 2015

VIDA SULCADA

Fernanda Reigota


Eu sei que vou!
Minha vida sulcada tem a aurora na lembrança.
Eu sei que fico!
A teia da minha vida foi urdida com fios de esperança.
Eu sei que quero
Em cada esquina uma alvorada futura!
Eu sei que tenho
Dos meus príncipes o quente abraço da ternura!
Nesta vida, em que não há longe nem perto, 
Como quem colhe flores
Alenta-me minha incerteza.
Nesta vida, que é sol encoberto,
As aves riscam o céu azul
E estou tranquilamente inquieta, sem tristeza.
Fernanda Reigota ©2015,Aveiro,Portugal

terça-feira, 3 de março de 2015

Na amplidão do meu ser

Fernanda Reigota

Regresso ao mar: simplesmente o mar!
Na amplidão do meu ser,
ser eu por inteiro,
ver-me acontecer!
No mar e na sua vastidão
o meu reflexo
transgride-me
revolve-se
insurge-se
despedaça-se
não conhece submissão.
Já exausta
uma onda calma banha meus ímpetos:
e a maré cheia de silêncio apazígua-me.
Bendigo
cada partícula de ar que respiro,
cada sorriso que recebo,
cada abraço que desejo,
cada flor prometida,
cada canto de pássaro,
cada tom quente da alvorada,
cada salpico de sal que me atinge…

Olho para além do meu reflexo
e fixo a casa do meu ser no campo de mim:
vida com balizas, vida demarcada, vida com estações,
vida com opções, simplesmente a vida.
Regresso ao mar: simplesmente o mar!

Fernanda Reigota ©2015,Aveiro,Portugal

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Mar Nosso

Fernanda Reigota 

O vosso dissipar da bruma cerrada

MAR!
Vieste silencioso insinuares-te a nossos pés.
Estremecemos, mas acorremos a outras marés.
Deste luta e, com trevas no coração,
Agarrámos as pepitas de água e luz.
Era a nossa criação:
Vislumbrámos-te as entranhas.

E teus areais suspensos e tuas terras odorosas e gentes estranhas.
Com as mãos crispadas muitos enfrentaram os temporais,
Com a vida outros pagaram nosso arrojo.
E nas praias sorviam o horizonte as mulheres incorporais!

ESTRELAS!
O vosso murmurar dos pontos cardeais
O vosso desvendar do mistério 
O vosso dissipar da bruma cerrada
Transpareceram
As ligações universais
As claras horas do planisfério
A necessária exaltação da TERRA REVELADA!

Fernanda Reigota ©2015,Aveiro,Portugal

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Sentia-se ferida de luz por dentro.

Fernanda Reigota


A hora de abandonar o local de trabalho provocava sempre em Alexandra um estado de lassidão. A sua mente aproveitava-o para processar e armazenar tudo o que era importante. Sabia que rapidamente mergulharia noutro estado de vigília em que era necessário coordenar os horários e os apoios logísticos que as atividades pessoais dos filhos exigiam.
...um precioso minuto de encontro
consigo própria
Na alternância do estado de tensão e atenção ao trabalho para o estado de vigília que as atividades dos filhos requeriam ao de fim do dia, Alexandra guardava para si um precioso minuto de encontro consigo própria. Conseguiria uns minutos para prosseguir a leitura que a estava a entusiasmar? Precisava de falar com o filho mais velho para compreender a súbita mudança de atitude em relação aos estudos. Há muitos dias que não tinham uns momentos em que o único objetivo fosse estar em família e viver. Viver como quem se deixa aquecer por um raio de sol de outono. Viver como quem se extasia com o abraço que o Céu e a Terra dão no início da primavera e depois se encanta com a pujante criação que vai surgindo cheia de cores e de cheiros. Viver como quem se deixa refrescar por uma chuva miudinha de verão. Viver como quem saboreia o som do crepitar do lume no inverno.
Neste minuto de encontro consigo própria, e enquanto os filhos encestavam umas bolas antes de abalarem todos, Alexandra ia adiantando pequenas tarefas rotineiras. Quando chegasse definitivamente a casa outras tarefas ocupariam a família.
Sem explicação explícita, Alexandra  entalou um dedo. Os gritos  espontâneos  que deu 
Não sei para que aprendemos
estas coisas na escola.
atraíram os filhos. Apesar das dores intensas, conseguiu fixar a perplexidade, a ansiedade e a surpresa com que os filhos a fixavam. O mais novo, o João, tomou o comando das operações e mandou o irmão, o Pedro, ligar para o 112. Mãe, ligo? Não é preciso, meus queridos. Liga! Não, não é preciso! Não sei para que aprendemos estas coisas na escola.
Passados os grandes minutos de dores mais intensas, Alexandra falou com os filhos. Era natural que o João quisesse aplicar o que tinha aprendido há tão poucos dias, mas precisava de saber avaliar as situações e ele ainda era muito novo. O Pedro intuiu que a mãe estava plenamente capaz de decidir. Explicou aos dois, mas principalmente ao João, que a dor tinha sido muito forte, mas tinha estado sempre consciente, não tinha sangrado, respirava bem… Assim, não era necessário chamar o 112.

domingo, 19 de outubro de 2014

As portas da vida

Fernanda Reigota

Tentava perceber o que se estava a passar. O leito paradisíaco que desde sempre conhecera, transformava-se. O amortecedor de líquido em que costumava saltitar nas horas de atividade esvaziara-se, mas a temperatura, a maciez e a sensação de satisfação continuavam. Apenas o aconchego ficara um pouco mais aconchegado. Pouco a pouco começou a sentir-se verdadeiramente apertado, sendo mesmo expulso do seu leito primordial.
Olhou para aquela porta que tinha sido obrigado a transpor, mas depressa novas
...a porta que tinha sido obrigado a transpor...
sensações prenderam a sua atenção: gritou e assustou-se com o seu próprio grito, respirou e espantou-se com aquele vento ligeiro que ia lá dentro refrescá-lo e depois saía quentinho, abriu os olhos e, por causa daquela luz forte, fechou-os imediatamente, quis sentir o seu corpo e a pele não era a mesma. Uma voz conhecida falava em roupinha. Era melhor descansar, dormir, logo compreenderia o que lhe tinha acontecido.
Tal como aquela criança, naquela maternidade já tinham nascido muitas outras naquele dia. Todas tinham passado por sensações idênticas, todas haviam transposto a porta da vida. Branca, com algumas marcas genéticas, esta porta fora a primeira de muitas outras que pautam todas as vidas.
À volta daquela criança projetava-se e movimentava-se em espiral um feixe de luz em contínuo movimento circulatório: este rasto de luz ia construindo a estrada do seu tempo e o tempo da sua estrada. Inexoravelmente a criança acompanhava esse traçado desde a porta de entrada para a vida.
Aquele feixe de luz encobria muito mais do que aquilo que mostrava. Se olhava para a esquerda perdia, para sempre, a oportunidade de conhecer o que o tempo tinha acabado de levar. Neste espaço de tudo e de nada, a criança não podia falhar a escolha ou a recusa da próxima porta que cruzasse o seu caminho. Recusou a porta da ignorância e
...a porta da curiosidade...
rapidamente teve de decidir: é que, mesmo pegada a ela, vinha a porta da curiosidade. Atravessou-a e, já do lado de dentro, reparou que estava decorada com as conquistas mais significativas que tinham nascido do sonho humano. Intuiu a importância do sonho e do conhecimento para a vivência da estrada do Tempo e do tempo da estrada, enquanto observava as sugestivas pinturas de belos monumentos, sinfonias reveladoras do som cósmico, teatro, dança, globalização, aventura, magia científica, tecnologia, velocidade... Então, sentiu-se a saborear o cheiro inebriante da felicidade possível. Foi assim que enxergou uma mancha que servia de base a toda aquela maravilha: era uma amálgama de poluição que arrastava a vida do planeta Terra para a não sustentabilidade.
Tinha companheiros, mas a maior parte do tempo a viagem era feita em silêncio, embora todos fossem falando, maravilhando-se com as suas próprias palavras. Apesar disso, conseguiu sintonizar-se com algumas outras crianças para brincarem. E um arco-íris de sonho e descobertas desenhava-se sobre as suas estradas.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

VIVÊNCIAS DE ESCRITA

Fernanda Reigota

Quatro duplas vivências de escrita nas suas vertentes antagónicas: TEMPO, ESPAÇO, PERSONAGEM, AÇÃO. Foram estes os elementos que deram corpo ao psicodrama que em mim se desenrolou: o som da ave da imagem que fotografei muito impulsionou esse psicodrama.

PRIMEIRA
Tempo sem tempo

Corria aquele mês em que o tempo é lento.
De tempos a tempos uma ave deslizava,
Mas os olhos sem tempo não colhiam o momento.

O céu, no seu tempo, continuava azul.
Dar tempo ao tempo e ele aí estaria, o mês perfeito.
Mas os olhos queriam o Norte e o tempo deslizava para Sul.

Sem rumo, sem norte, que apareça a Estrela Polar.
A noite dos tempos envolveu os mares, a terra e a vida,
Mas o Sol, no céu cristalino, continuou a brilhar.

Tempo com tempo

Corria aquele mês em que o tempo é leve.
De tempos a tempos uma ave deslizava,
E os olhos com tempo colhiam o momento.

O céu, no seu tempo, continuava azul.
Dar tempo ao tempo! Eis o mês perfeito.
E os olhos deslizavam de Norte a Sul.

Com rumo e com norte apareceu a Estrela Polar.
A noite dos tempos desvendou os mares, a terra e a vida,
E o Sol, no céu cristalino, continuou a brilhar.

SEGUNDA


Espaço sem espaço

Curva de estrada
Nuvem parada
Janela fechada
Rosa muralhada

Barcos sem cais
Ilhas infernais
Casas transversais
Sentimentos superficiais.                                    

Afetos nevoentos
Abraços cinzentos
Seres pardacentos.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A descoberta de uma paixão

Fernanda Reigota


Ficara estranha e subitamente amante de fotografia. E quantas vezes partia para a caça de imagens e só noite feita regressava!
Uma bela manhã, ainda o Sol se não erguera, partiu com outros fervorosos adeptos da caça de imagens únicas. Encaminharam-se para o cimo da serra, por uma cerrada mata e por um caminho de poucos conhecido. Pararam uns momentos para degustarem a música de uma cascata que se adivinhava. A frescura que os salpicos lançavam em redor acariciava a pele sofrida pela subida. Mais que uma vez, dobrada a encosta, tinham conseguido surpreender o encanto de testemunharem o beijo da noite a despedir-se do dia que começaria o seu reinado de luz clarificadora. Uma vez tinham até estacado perante a hipótese de fixarem a imagem daquele veado que quase se deixara surpreender a matar a sede, numa alvorada já quente do mês de maio. João tinha em casa esse troféu. Fora o único a conseguir a composição perfeita e a luz excelente. Ainda hoje se interrogava sobre a expressão do olhar do animal apanhado no momento de iniciar a fuga.
O sol nascera enfim. Ao longe, o mar era um reflexo único de um dia que se adivinhava esplendoroso. Mas no fundo dos vales que iam dar à costa, grandes rolos de nevoa ainda preguiçavam o doce aroma que a noite lançara sobre a terra. Duas boas horas já haviam passado e nem um enquadramento especial, nem um ângulo para realçar uma copa perfeita de árvore, nem uma pedra evocadora de uma figura…
Aquele grupo de caçadores de imagens porfiava serra acima. Em breve apontariam as objetivas ao trajeto ascendente do Sol, ao contraste dos variados verdes da serra ponteados por pequenos lagos tão brilhantes que simulavam os olhos da serra espantando-se com a magnificência de mais um esplendoroso dia de maio. Não faltavam manchas de alfazema, caminhos ladeados pelo amarelo da giesta, verdes mimosos dos rebentos novos dos pinheiros, árvores a vestirem-se de folhas macias para se juntarem à festa da renovação da natureza…
Na azáfama da preparação do material, apenas se ouvia a voz esperta e fresca das águas e, ao longe, o marulhar solto da vaga tímida.
Alguém apontara a teleobjetiva para o mar e, emocionado, sussurrava como se não quisesse espantar a caça que tão perto dele parecia estar. No alvoroço do achado, ele imaginava-se já a estender a mão e a tocar o filhote de baleia que nadava atrás da mãe, calmamente, traçando os dois uma linha paralela à costa.
Naquela manhã tinham à sua frente o alvo perfeito: lento, majestoso, raro e enquadrado por um contexto que a todos seduz, o mar!

A retina tinha a festa da imagem, o ouvido tinha o estralejar de múltiplos e constantes disparos.

Ficara estranha e subitamente amante de fotografia.


Fernanda Reigota ©2014,Aveiro,Portugal

domingo, 6 de julho de 2014

Pai, ouve-me!

Kramer contra Kramer - Sinopse

Para Ted Kramer, o trabalho vem antes da família e Joanna, sua mulher, descontente com a situação, sai de casa, deixando Billy, o filho do casal, com o pai. Ted, então, tem de se preocupar com o filho, dividindo-se entre o trabalho, o cuidado com ele e as tarefas domésticas. Quando consegue ajustar-se a estas novas responsabilidades, Joanna reaparece exigindo a guarda da criança. Ted, porém recusa-se e os dois vão para o tribunal lutar pela custódia de Billy que é entregue a Joanna. No dia marcado para ir buscar Billy a casa de Ted, e já à porta do prédio, decide não sujeitar o filho a uma nova etapa de instabilidade. Entra para comunicar a sua decisão e todos ficam a ganhar.


Pai, ouve-me!

Personagens

CAIO, homem jovem, alegre e feliz, aguarda, numa sala de partos, o nascimento do seu primeiro filho. Sente-se absolutamente preparado para o receber.
HUGO, o filho, coração e mente cheios de sabedoria, tem urgência em ter uma conversa com o pai antes de nascer.
Ato Único
O ventre que acolhe Hugo, por pouco mais tempo, irradia uma luz quente e intensa. Um foco potente ilumina Caio, que agarra carinhosamente a mão da mulher.

HUGO
(Em tom perentório)
Pai, não te assustes, eu quero falar contigo.
(Caio levanta-se e olha admirado para a barriga da mulher, notando uma forma repentinamente diferente. Sorri perplexo.)

HUGO
Pai, eu quero falar contigo.
(Decidido a fazer-se ouvir)
Não falta muito para eu nascer e eu preciso de te ensinar umas coisas. Quando nos olharmos olhos nos olhos, passarei a ser por muito tempo uma criatura desprotegida. Agora, ainda tenho a sabedoria primordial deste paraíso em que me encontro.

CAIO
(Puxando a mão da mulher ao peito.)
O que se passa, Guida?

HUGO
Pai, deixa a mãe. Ela precisa de estar tranquila para que a naturalidade deste ato não se desvaneça.

CAIO
Seja, filho. Mas não te preocupes, eu e a tua mãe fomo-nos preparando muito bem para sermos pais conscientes…

HUGO
Sim. Eu sei que me vais dar banho, vestir, mudar a fralda e essas coisas…

CAIO
Claro…

HUGO
Mas, olha, se um dia eu quiser ser um cachorrinho, tu fazes de cão grande para brincarmos? Se eu quiser pintar com as mãos, tu depois tiras-me a tinta toda? Vais ser capaz de fazeres de pai natal na escola e em casa? Vais ter paciência para brincares às escondidas no nosso pequeno apartamento? Vamos poder fazer piqueniques com muita aventura e apenas a comida suficiente?...

domingo, 11 de maio de 2014

Isabel, a perfeita

No regresso a casa parara numa chocolataria para saborear o bolo de chocolate especial que tanto lhe agradava. Apesar da chuva que persistia em cair continuamente há uma semana, Isabel sentia-se iluminada por dentro. Tudo indicava que a sua vida seria finalmente uma viagem na autoestrada da fama com muitos sorrisos de reconhecimento, muitas manifestações de apreço. 
Sempre lutara por uma oportunidade. Como técnica com formação superior, não desejava apenas trabalhar de forma gratificante e profissional para si e para a empresa. Sentia que era
Sempre lutara por uma
oportunidade
um ser superior e um verdadeiro destaque era-lhe devido. Afável e carinhosa com todos os colegas, principalmente com os do seu departamento, ouvia muitas vezes os seus problemas, os seus desabafos… E como ela sabia ouvir! Sabia como ninguém dizer o que mais animava no momento, como ninguém, também se prontificava a sacrificar a hora do almoço para ajudar um colega a ir resolver um problema a um banco, ou a uma repartição pública. Algumas vezes chegava a acompanhar colegas ou amigos a consultas médicas para não se sentirem sós, especialmente se havia suspeitas clínicas de poder ser um caso mais grave.
Se a empresa necessitava de ir a uma feira internacional para auscultar o mercado para lançar um novo produto, naturalmente Isabel integrava o grupo. Reservada no agir profissional, chegava às reuniões de avaliação das viagens, na empresa, com observações muito pertinentes, com dados que só ela tinha observado. Brilhava perante os chefes.
Auto-estrada da fama
Aquela bondade espontânea, aquela competência profissional, aquela dedicação à empresa já lhe tinham conseguido alguns destaques: naturalmente fora ela a escolhida para ir para os Estados Unidos fazer uma especialização académica na área de gestão financeira; agora, tudo indicava, e ela tinha fontes credíveis, que seria ela a integrar o conselho de administração para substituir um membro incapacitado.
Finalmente iria trabalhar ao lado dos representantes diretos dos acionistas, iria trabalhar com pessoas que dominavam no mundo da política e da finança.
Por isso, permitiu-se aquela pausa tão íntima para saborear aquele chocolate celeste, ver em todos os espelhos do salão o reflexo do brilho interior que sentia emanar, antever o espanto e os aplausos com que a sua família sempre recebia as suas vitórias tão naturais e as suas conquistas tão merecidas.

domingo, 13 de abril de 2014

Ficara estranha e subitamente amante de fotografia.

E quantas vezes partia para a caça de imagens e só noite feita regressava!
Uma bela manhã, ainda o Sol se não erguera, partiu com outros fervorosos adeptos da caça de imagens únicas. Encaminharam-se para o cimo da serra, por uma cerrada mata e por um caminho de poucos conhecido.
Pararam uns momentos para degustarem a música de uma cascata que se adivinhava. A frescura que os salpicos lançavam em redor acariciava a pele sofrida pela subida. Mais que uma vez, dobrada a encosta, tinham conseguido surpreender o encanto de testemunharem o beijo da noite a despedir-se do dia que começaria o seu reinado de luz clarificadora. Uma vez tinham até estacado perante a hipótese de fixarem a imagem daquele veado que quase se deixara surpreender a matar a sede, numa alvorada já quente do mês de maio. João tinha em casa esse troféu. Fora o único a conseguir a composição perfeita e a luz excelente. Ainda hoje se interrogava sobre a expressão do olhar do animal apanhado no momento de iniciar a fuga.
O sol nascera, enfim. Ao longe, o mar era um reflexo único de um dia que se adivinhava esplendoroso. Mas no fundo dos vales que iam dar à costa, grandes rolos de nevoa ainda preguiçavam o doce aroma que a noite lançara sobre a terra. Duas boas horas já haviam passado e nem um enquadramento especial, nem um ângulo para realçar uma copa perfeita de árvore, nem uma pedra evocadora de uma figura…
Aquele grupo de caçadores de imagens porfiava serra acima. Em breve apontariam as objetivas ao trajeto ascendente do Sol, ao contraste dos variados verdes da serra ponteados por pequenos lagos tão brilhantes que simulavam os olhos da serra, espantando-se com a magnificência de mais um esplendoroso dia de maio. Não faltavam manchas de alfazema, caminhos ladeados pelo amarelo da giesta, verdes mimosos dos rebentos novos dos pinheiros, árvores a vestirem-se de folhas macias para se juntarem à festa da renovação da natureza…

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Livre como os pássaros que me habitam

Vamos hoje dar inicio a um ciclo de publicações que denominámos - Relação entre o homem e o animal. Aproveitamos para convidar todos os que queiram colaborar para o fazerem, na medida em que ainda estão a tempo de remeter os vossos trabalhos para os contactos do Evoluir que aparecem na página do blogue.


Olhos castanhos profundos, pele muito bronzeada, contrastando com os seus cabelos muito louros, postura descontraída de quem observa: menino quase homem, homem ainda menino a interrogar o sentido da vida que já pressente muito diferente de todos os seus sonhos de criança.
Rui estava a passar o fim daquele dia de verão, que queria ficar lembrado pelo calor excessivo, à beira da piscina. O vento fora sempre quente, parecendo soprado de uma enorme fornalha. Tinha sido um dia de muitos mergulhos, muita conversa com os amigos, com desconhecidos e família. Dentro de água, as pessoas riem sem saber bem de quê, conversam como se todos se conhecessem, irmanam-se como se tivessem de vencer num só mergulho toda a timidez a que a rotina de um ano de trabalho obriga.
Ao longe, estendiam-se campos, onde pontuavam algumas manchas verdes de árvores de copas largas e folhas abundantes.
Os pássaros tinham ali um refúgio natural. Não tardaria, começariam a esvoaçar para se refrescarem numa pouca de água, procurarem alguma comida e ficarem tranquilos para passarem a noite.
Ele reconhecia o canto de todas as espécies da região. E os seus olhos expressivos iam pousando nas pessoas que se haviam aquietado: o regresso a casa estava iminente. Naquele silêncio conjugador de efabulações, naquela dormência gostosa de fim de tarde, Rui fixava uma pessoa e logo ela se punha a esvoaçar… A determinada altura, o recinto da piscina era um tumulto de sons dissonantes: o entorpecimento, em que se aquietara, fizera-o transformar a piscina num riacho onde as pessoas passaram a ser pássaros que se refrescavam alegremente depois daquele dia de calor intenso.
Quando ouviu a voz da mãe, abriu os olhos e sorriu. Muitas pessoas já tinham partido. Em casa esperava-o uma tarefa rotineira: ele e o pai tinham de cuidar dos muitos pássaros que possuíam.
O Rouxinol do Japão
Havia o viveiro dos pequenotes, assim chamado por nele habitarem pássaros de pequeno porte, como o Pintassilgo, o Dom Fafe, o Verdilhão, o Rouxinol do Japão, ou o Canário Arlequim Português.
A Catatua de Crista Amarela estava bem representada noutro viveiro: aves com um grande sentido gregário entre si, estabelecem também relacionamento rápido com os seres humanos, deixando-se domesticar.
Por ouvir o pai e por investigação autónoma, o Rui era já um conhecedor de aves, pelo menos esclarecido.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

André e Raquel

Dia Internacional pela Eliminação da Violência


Simbolicamente iniciamos hoje a publicação de uma série de textos que retratam a violência sobre o ser humano nos seus múltiplos aspetos. Convidamos todos os que queiram participar nesta reflexão de molde a enriquecer  sempre este local de troca de saberes e partilhas.

Abstraído das pessoas e olhando pela janela, André ia relaxando do treino de duas horas que acabara há pouco. Faltava um jogo para a equipa assegurar o primeiro lugar na competição regional: a esta preocupação de que, no que dependesse de si, a equipa não falhasse, acrescia alguma tensão com a aproximação dos exames. Até àquele seu 9º ano, já fizera outros exames e várias provas intermédias. Os resultados não iam ser decisivos, era apenas o brio próprio que estava em causa: queria tirar boas notas como acontecia a maior parte das vezes ao longo dos anos de estudo que já percorrera.
O som de fundo do motor do autocarro e a luz exterior, que deliberadamente absorvia, fizeram-lhe sentir uma distensão de todo o seu ser. A menos de um mês do início do verão, os reflexos do cair da tarde chamavam a luz mágica do aproximar da noite.
As casas já festejavam a chegadas das pessoas que as humanizavam. Era o alvoroço das crianças que tudo querem contar sobre o longo dia passado fora, era a alegria do reencontro dos que nelas partilham cumplicidades, era o bem-estar por um dia de trabalho responsável, era! Era também o jogo das incertezas e das surpresas que a vida a cada momento nos propõe.
Mais uma paragem. E, naturalmente, despertou um pouco. Fixou o movimento
Que estaria Raquel a fazer
naquele lugar?
compassado das pessoas a entrarem, um ou outro atropelo de quem muito quer um lugar sentado, uma ou outra hesitação de quem já não sente toda a firmeza da juventude e os seus olhos fixaram um vulto feminino que, de costas, permanecia sentado no banco da paragem. Não fazia sentido: naquela rua só passava aquela carreira e o vulto tinha qualquer coisa de familiar…Que estaria Raquel a fazer naquele lugar? Ela vivia noutra zona da cidade…
Saiu na paragem seguinte e correu até à amiga. Quando os seus olhares se cruzaram, Raquel não conseguiu disfarçar as lágrimas e as tremuras que a sacudiam a espaços. André agarrou-lhe as mãos. Conheciam-se desde o jardim de infância. Sempre foram amigos inseparáveis até terminarem o 6º ano e amigos continuaram depois, mas em escolas diferentes. Quis saber o que lhe tinha acontecido. Raquel olhava à sua volta como animal ferido que tem medo de ser descoberto. Fixou o sol que aspergia os últimos pontos luminosos daquele dia sobre a Terra com a mensagem “Amanhã será um novo dia”. Reviu em filme algumas gargalhadas infantis dadas em conjunto com André e sacudiu a cabeça em sinal de assentimento.
– André, estou aqui apenas para me acalmar e poder ir para casa sem levantar suspeitas. Confio em ti para manteres em segredo o que te vou dizer. Estou a passar uma fase de namoro menos boa. Eu sei que vai passar!
Eu quero saber o que se passou.
– Eu quero saber é o que se passou. Tu não consegues deixar de olhar à tua volta e continuas a tremer.
André abraçou-a para ver se conseguia acalmá-la. A resposta foi um longo grito de dor, enquanto afastava André.
– O que tens?


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Branca de neve e os três anões

Fernanda Reigota

Quando os sete anões chegaram a casa, cansados do trabalho, estacaram o passo, perante a visão da Branca de Neve. Como eram cultos, sabiam muito bem quem ela era. Por educação, perguntaram-lhe o que fazia ali.
– Sabemos que é sobejamente conhecida na Europa, depois que os irmãos Grimm
Não entendemos o que faz
em nossa casa
fixaram em livro a sua história da tradição oral alemã. Mas não entendemos o que faz em nossa casa, embora pareça muito mais arrumada.
– Descansem que não me enganei. Antes de entrar, li os vossos nomes: Sabichão, Feliz, Zangado, Soneca, Dunga, Atchim e Dengoso. Venho dar-vos aulas, ou pensam que o programa é para andar a esticar uma eternidade? Claro que só preciso de três alunos. Amanhã, o Pê Feliz, o Gás Sabichão e o Pau Zangado não vão trabalhar para os mineirostérios. Mas tu, Gás Sabichão, não tragas a Luisinha Discípula! Ela serve muito bem é para decorar mesas de conferências de imprensa. Tu depois lá lhe passas as ordens.
Soneca Limas Pato, Dunga Cristas,
Aguinar Mota, Atchim Paulo....
E continuou, acrescentando que, para começar a poupar, o Soneca Limas Prato, o Dunga Cristas Aguinar Mota, o Atchim Paulo Cruz Marques e o Dengoso Miguelito Poisares iriam trabalhar num único mineirostério. Caso os assessores nomeados não tenham lugar, que fiquem em casa. Sempre se poupa alguma coisa pagando-lhes só o magro ordenado.
Branca de Neve tinha umas chamadas em linha e foi sentar-se na cama que havia preparado, juntando três camas dos anõezinhos. Recostou-se e passeou o olhar pela mais recente autoestrada de tráfego digital rodoviário, que passava mesmo ao lado da casa dos sete anões. Observou que não havia trânsito. A PPP que a havia construído, sabiamente decidira que, sem carros, a manutenção ficava a custo zero. E tudo o que fosse a custo zero para a PPP era negócio. E aquele sossego oferecia-lhe segurança absoluta de não ser perturbada nem encontrada. A sua missão era secreta, à semelhança de outras que já desenvolvera nalguns países despesistas.

sábado, 6 de julho de 2013

Abraços aos meus amigos

Fechamos com este texto a temática AMIGOS e AMIZADE, agradecendo a todos os que connosco quiseram colaborar.  


Fernanda Reigota
Meus amigos:
Neste final do verão da minha vida, todos vós sois imagens recorrentes no meu pensamento.
Meus amigos!

Não sei explicar o motivo destas visões: surgem, umas vezes sorridentes, outras contando episódios de que já nem me lembrava…
Ao longo da vida vamos alterando a perspetiva pela qual entendemos o que é um amigo. Hoje, é minha convicção que um amigo nunca pode constranger a liberdade do outro, nunca pode ser conscientemente constrangido na sua liberdade. Acredito que ser amigo é participar numa relação de inteira liberdade e diferença. Entendo a amizade como sendo sempre espontânea, havendo sempre apreço recíproco, dando cada um, nesse contrato tácito entre duas pessoas, apenas o que pode e quer dar.
Amigo não é a pessoa com quem trabalhamos confortavelmente, mas aquela que escolhemos, no intervalo para um café, e a quem perguntamos, como estás?
Amigo não é um companheiro de paródia, porque esses têm um objetivo comum que é divertir-se.
Amigo não se encontra obrigatoriamente nas relações familiares: estas não nascem de um entendimento tácito e espontâneo, é o nascimento que lhes dá consistência.
Designarei a amizade como o prolongamento do encontro de dois indivíduos continuando, cada um, igual ao que era. Simplesmente, existe, para eles, um elemento mais a contribuir para que a vida se mostre em plenitude.
A amizade é um sinal de inteligência emocional e adaptação do homem, que, assim, vai obstando à infelicidade da solidão.
Não me alongo mais, pois o mais importante é dirigir-me a cada um e dizer ao que vim. A cada um falarei. O nosso estatuto é de uma realidade meio ficcionada. Cada um não é uma pessoa particular, mas sois todos importantes, e, por isso, nomear-vos-ei por ordem alfabética.

...és uma mulher forte, de ideais, de trabalho
Ana, lembras-te como começou a nossa amizade? Há tanto tempo que não falamos, mas tenho a certeza de que, quando nos reencontrarmos, reataremos a conversa no ponto em que a deixámos. Melhor, o nosso olhar dirá numa fração de segundo tudo o que vivemos. Dir-te-ei, és uma mulher forte, de ideais, de trabalho…mas, tão nova, já o eras! Dir-te-ei, lembro-me sempre que és uma mulher de afetos, de atenção aos outros… Mandaste-me o livro onde publicaste a fotografia de circunstância que, na juventude, tirámos juntas… O meu silêncio é recusa de falar sem ser de viva voz. A nossa amizade assim o exige. Estas férias, está decidido, minha amiga!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Uma história de amigos

Estamos a publicar textos subordinados à temática AMIGOS e AMIZADE. Colabore e remeta-nos o seu texto ou poema inédito para publicação. Ouse! A diversidade fortalece a amizade.  


Fernanda Reigota

Ter amigos é ter com quem brincar, é ter a certeza de poder partilhar com alguém aquela
Ter amigos é ter com quem brincar
ideia que nos perturba ou persegue, aquela ideia que temos medo de ser considerada louca. Ser amigo é compreender sem questionar, é ter a certeza de que aquele olhar nos transmitiu cumplicidade, é ter afeição muito para além de qualquer retribuição, é sentir a simpatia como bafo em dia gélido, é entender sem explicação, é acorrer quando se pressente um chamamento, é encantarmo-nos com a felicidade do outro…
Sim, ter amigos e ser amigo são duas realidades que se irão definindo e redefinindo enquanto o homem for homem. Cada um escolhe a definição que mais se afeiçoa à sua idade, cada um escolhe a perspetiva que mais preenche a sua visão do mundo e dos outros.
Cumplicidades de qualquer ocasião
Semelhanças de qualquer nível, ideais de qualquer esfera, cumplicidades de qualquer ocasião, tudo pode irmanar na amizade enquanto esta perdurar. Os sábios ficariam aqui a conjeturar defesas e subtilezas para sustentar suas posições. Eu passarei, neste texto, a dedicar-me àquela amizade que nasceu e perdura. Da outra, não sei o endereço, esfumou-se, porque, no lugar de um amigo que foi, fica sempre um vazio, um vazio que nem cresce, nem diminui, um vazio-amigo-saudade, quase sem rosto, nunca um inimigo de rosto a abater.
Então, uma história de amigos!

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