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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

História de uma Margarida

© José Carreto Lages 

Margarida era uma rapariga linda, esculturalmente bela e insinuante. Quem a visse lembrar-se-ia, no mínimo, de um figo pingo de mel. Expedita e dada a enleios, frequentava o colégio das irmãs Doroteias, onde trazia em sobressalto os elementos diretivos. A sua beleza era unanimemente conversada entre os jovens.Tornou conhecida a rua e a casa da tia, onde a sua presença enfeitava e valorizava a habitação.

À hora da saída das aulas, era habitual juntar-se um grupo de estudantes mais atrevidos, para observá-la, dirigir-lhe piropos, acompanhar-lhe os gestos e os apelativos movimentos que a moldura da perfeição do corpo desenhava com generosa exuberância. Ela, sobranceira aos olhares, não se incomodava nada de ser  modelo da lúdica observação dos jovens que lhe dirigiam elogiosos galanteios  que lhe assentavam como luva na esteira concupiscente do funcionamento das suas virginais hormonas. O ajustamento das blusas que vestia sugeriam com evidência o contorno abonado da perfeição arredondada de dois seios bem firmes. Com o rosto ligeiramente ovalado, respirava  a exuberância e a perfeita saúde de um corpo perfeito, bem ataviado.

Tinha completado os dezoito anos e entre o aroma das tílias do parque aceitou a insistência do Lourenço em lhe permitir que a acompanhasse no caminho de acesso às aulas, com a condição de que a companhia cessaria antes da curva da rua que abria vista ao edifício do colégio. 

domingo, 15 de novembro de 2015

A JUSTIFICAÇÃO

José Carreto Lages

Depois da vã procura de estacionamento, isento de taxa, conduziu o carro até ao parque. Entrou num lugar disponível entre duas viaturas. Não viu ninguém em redor. Suspirou ao tempo que atirava o saco na bagageira. Afastou-se para ir dar a aula na Escola onde ouviu o toque da campainha quando, em passo estugado, estava a atravessar o átrio. No parque, dobrado atrás de um carro, saiu um embuçado que, servindo-se dum afeiçoado gancho, abriu a porta e entrou na bagageira do carro. Lá encontrou o triângulo exigido pela norma rodoviária e o saco. No saco só estava um telemóvel e uma carteira de pele com os cartões bancários. Não havia dinheiro, o que ele procurava para a cocaína.
O embuçado
Em menos de uma hora ela reentrou no carro e saindo do parque, tomou a estrada habitual da sua residência.
A circular fora da cidade, o embuçado dobrou o assento traseiro e saiu da bagageira com a navalha espanhola empunhada para o corte.
- Dá-me duzentos euros. Duzentos euros ou corto-te – foi a ordem recomendada pelo fio da navalha encostada ao pescoço.
- Eh…
- Duzentos euros ou corto-te.
- Não tenho esse dinheiro – conseguiu ela dizer.
- Vais direitinha à Caixa Multibanco, invertes a marcha e é como eu mandar, okay? Como eu mandar. Nada de sinais de luzes ou corto-te o “garganil”…
 Sob a pressão de uma mão na cabeça e o fio da navalha acatou a ordem.
- Viras à esquerda, que aí, à frente, há um Multibanco. Vais devagar e paras ao lado do Banco ou vais magoar-te. Aí, aí, para… Vais ao Multibanco e trazes o dinheiro.
Ela sai do carro, como um robot. Não vê ninguém a quem se socorrer. No Multibanco faz o código devagar, e retira 100 euros. Ouve um carro a aproximar-se. Corre, colocando-se na trajectória do carro, sujeita a ser atropelada. Os travões cedem à pressão do pé, e com grande ruído o carro agacha-se e evita o embate. Dele saem, ar aziago, dois homens robustos.
- Mas o que é isto? - a senhora quer matar-se?
Ela agarra-se a um dos homens.
- Ajudem-me… ele mata-me. Ali…- apontando

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

IN MEMORIAM

José Carreto Lages


E se queres saber se doeu
eu dir-te-ei: Manuel, doeu.
Não te deram  tempo nem ocasião
para a despedida que tu merecias.
A eternidade, talvez, para cumprir profecias
te levou. Mas tão formal, sem uma razão?                     
Sem  dos teus amigos um adeus
que os conformasse de arrelias
e evitasse fazer aos céus
justificada reclamação?
Se me perguntarem se a eternidade
foi justa contigo. Eu direi que não.
Que é da liberdade
de cada um viver e ter o que é seu?
Se partiste por tua vontade
E se queres saber se doeu,
eu dir-te-ei: Manuel, doeu.


José Carreto Lages ©2015,Aveiro,Portugal

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Fui ver nascer o Sol

Fui ver nascer o Sol. Tinha decidido: amanhã vou observar o nascer do sol. E ainda as árvores do meu jardim se espreguiçavam no lânguido e pesado escuro, já eu, sorrateiro, me esgueirava pela artesanal porta do quintal. Queria, por inteiro e com todo o detalhe, presenciar o aparecimento do sol, entre a penedia das fráguas, o primeiro contacto da sua luz com a cortina verde dos freixos e amieiros adjacentes às águas do rio e ver a calculada reacção da seara verde das espigas, que ondulavam na ladeira do velho monte. 
Fui ver o nascer do sol.
Antes que a familiar escuridão desse qualquer sinal de se dissipar, assaltou-me uma inconsciente apreensão do que sucederia se o sol não viesse, por se ter enganado no seu percurso, por capricho da sua natureza, por se ter enredado e entretido em amores com alguma estrela jovem, que as deve haver lindas, - fruto das últimas explosões dos buracos negros! – ou, quiçá, por se propor assustar o seu sistema solar, nomeadamente a Terra ou qualquer outro planeta mais reguila ou mais distraído. Mas a razão respondia à minha apreensão imaginária, afirmando-me com o argumento da ostensiva tradição, que, sem GPS, o astro rei, embora já com alguns truques, no seu “curriculum vitae”,- a fazer acreditar milagres, por determinismo ou ordem superior,- sempre foi fiel na sua rota, e, por isso, aceitava que a sua constância na pontualidade virá a ser por muitos milhões de séculos até se tornar insolvente de combustível, e obrigado a desaparecer por inacção ou esgotamento ou a fundir-se em ritos de magia e de esplendorosa luz. Na minha natural limitação cheguei ao cimo da enrugada e velha encosta em menos de meia hora, com passo bem meditado, e por ali fiquei, entre o contemplativo e o ansioso, a aguardar qualquer sinal anunciador da primeira réstia de luz, que testemunhasse a aproximação da força, do poder, e do fausto, do grande astro solar. 
...odor de plantas bravas
A expectativa envolveu-me, em afagos de um perfumado odor de plantas bravas, adoçando-me a derme com anunciados elementos que me pareceram de messiânica novidade de que algo ia acontecer. Ouvi com apreensão, o quebrar do silêncio ainda meio adormecido, o contínuo e manso ressonar do rio, a afirmar e a lembrar, no fundo do vale, a sua presença, com a água, que se adivinhava, a esgueirar-se do açude pela garganta das grandes pedras ali expostas pelas razões da natureza, seguindo o caminho rasgado e ajustado, nos tempos idos, pela tenaz força do caudal. A lua sorrateira já se havia recolhido no seu quarto minguante, vestida de mistérios de penumbra, cumprido o percurso, sem ter deixado qualquer mensagem meteorológica digna de apontamento. Algumas casas da aldeia com fumos enrolados a sair das chaminés, davam sinais de que alguém havia abandonado o aconchego do leito para se fazer ao dia, rente a chegar. A penumbra atenuou a sua densidade em jeito

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Havia que decidir

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação

Havia sido educada com princípios. Decisão tomada era para ser acatada até à sua concretização plena. Os valores morais que a enformavam eram de uma rigidez e pureza marmórea, que apenas admitia o suave retoque, tendo como alvo atingir o cume da perfeição, sem que pudesse colidir com a intrínseca natureza das coisas.
Valores morais 
O que apreendera nos livros do sistema escolar, era uma verdade dogmática. Quem escreveu aqueles textos é porque estava seguro nos princípios definidos e estava autorizado a proclamá-los porque sabia magistralmente do que falava.
As relações cívicas com quaisquer pessoas, conhecidos ou desconhecidos, exigiam sempre dela, ponderada reflexão e escrupuloso prurido, no seu contabilístico exercício de sopesar ou medir os prós e contras.
A frequência nos estudos universitários tinha sido assumida com determinação e rigor, na abertura ao conhecimento, com as conceções, expendidas nos livros, a ajustarem-se ou a acrescerem aos seus juízos de valor. A formação académica aditara-lhe uma sólida cultura, não obstante as filosóficas interrogações do seu ego em relação à sua origem e ao seu futuro.
Aceitava-se como mulher com sorte, o que exibia entre as amigas e companheiras de curso.
Aceitava-se como mulher com sorte
Após o seu mestrado, ao abrigo do programa Erasmus, em terra estrangeira, concorreu e obteve o lugar docente na escola da sua preferência.
A sua juventude despertou e começou a fazer exigências. O coração manifestava-se em desejos de preencher a lacuna que se abria, mas a razão coartava-lhe os impulsos constantes. A razão era como um freio na voracidade do sonho. A luta constante travava-se entre o dever e o ser. Tréguas não havia. Qual venceria?
A jovialidade do Heitor, a sensatez cultural do seu humor e a sua inteligência, enobreciam a boa figura física de um companheiro de escol.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

À BORDA D’ÁGUA

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação



Retiro-me da cama para arrastar o corpo, ainda semiadormecido. A fresta da janela anuncia que ainda não há sol. A persiana confirma. No horizonte, esparsamente esbatido, é a cor  do cinzento que domina.
Mais um dia que amanheceu sem aviso, à mesma hora, com o ósculo da vida.
O pensamento drena-me a ácida repulsa pelo trabalho.
Afasto a hipótese da ida ao escritório.
A tua imagem aparece obsessiva, como uma necessidade sem alternativa.
Vou procurar encontrar-te, decido.
Vou procurar encontrar-te, decido.
Aguardo que não sejas esquiva!
Quero apanhar-te os passos para me induzir na força  com que me  grudei em ti.
Contigo,  de “carava,” iremos onde quiser a tua fantasia, com a promessa de não te martelar a paciência. Mas não abdico de perguntas.
Bem sabes que não costumo nem quero causar-te constrangimentos quando te acompanho.
Será um passeio repetido à procura de uma justificação, ou, antes, de uma confirmação.   Presumo que aguardas que confirme o que tu há muito pensas que sabes. E eu, é exactamente porque sei que pensas que  sabes o que posso dizer-te, sem nada te dizer,  que me contenho em não to dizer.
Mesmo assim, acompanho-te acometido da coragem para decantar  termos que preanunciem o reiterado interesse. Sabes que o modo como repetidamente me olhas quando te gingas nos teus passos me desperta a ousadia das palavras. Sabes que me vences com a magia do gesto com que acompanhas as frases curtas, doces, mastigadas e soletradas.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

NOITE VELHA

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação


A sua vinda é afirmada e repetida, vezes sem conta, nos constantes telejornais de todas as estações televisivas.
Pelas cinco e meia da tarde...
Pintam-lhe o rosto em tudo o que é imprensa diária, com vedetismo, para que ninguém se esqueça: vai chegar a noite. Nos mais simples indícios da aproximação dos grandes centros urbanos, gigantes “outdoors” promovem a sua chegada, com as melhores vestes e sonoras promessas de brindes e magia que deixam adivinhar o encantamento da grande festa. E ela tem o rigor de vir cedo. Pelas cinco e meia da tarde dá sinais que vai descer a cortina festiva para o espetáculo da sua apresentação. Faz acreditar que vem cheia de mistério. Mais e melhor que todas as outras que a precederam. Há bastante tempo que a sua entrada no círculo do espaço é motivo de tagarelice ocasional para uns e de objectivos - que são sonhos - para outros. Com a maquilhagem de luzes para a celebração a preceito, com o toque de borbulhas das taças de champanhe, vai chegar dentro de momentos. É a sua entrada pela primeira vez e que será a única. Antes ninguém tivera o sortilégio de a contactar na sua ronda astral porque ainda não havia lugar para ela na esteira da astronomia. Apesar de infinito não cabia no espaço que, para isso acontecer, tinha que se acrescentar. Astrónomos colocavam a si mesmos a hipótese de ela ter o berço num dos buracos negros do universo, que a ser certo seria parida de um buraco mais negro que todos os outros. Negro, negro, mas mesmo negro. Mas a ser verdade, tal astronómica e estranha ocorrência, o facto não se podia demonstrar, porque se o buraco era todo negro também a noite, que é negra, e, para mais, nova, não se podia  examinar. Ao certo, o que se sabia é que aquela noite, pela primeira e única vez, ia chegar. E não ia faltar, porque até então, embora tenha havido apostas perdidas, que alguns, mais eufóricos e audazes, fizeram, nunca deixara de vir. Nem sequer de se atrasar. À hora calendarizada, no preciso ponto anunciado, ela chegaria nem que fosse só para  dizer estou aqui, reparem bem em mim, só para afirmar a sua grandeza e não deixar mal o oráculo.

sábado, 16 de novembro de 2013

Descobriu que a Terra é redonda

Brincou, e muito, com a roda e também com as palavras. Com estas, quiçá, até já tenha abusado, pelo jeito que, por fás ou por nefas, lhe dava a aprendizagem do emprego das palavras.
...onde se podem criar infinitos
Aconteceu que, ao rodar o pensamento à volta das palavras, a imediata intuição da mente focou-lhe a imagem do círculo da roda da circunferência, que, segundo a geometria, é uma roda perfeita e ao magicar nela, passou a vê-la a construir-se e a avançar, como se fora uma roda, a fechar a roda dos limites que estabelece a linha da figura geométrica.
E o miolo da sua cabeça, que é uma bola, rodava a cena: “circunferência”; que raio de palavra onde, a partir do centro, se podem criar infinitos raios para a linha que define os limites da periferia, que é uma roda que fixa e baliza a bola da circunferência!
E mais. Deu-se conta de que, estabelecida a linha da roda da circunferência, das duas uma: ou ficava estranho a ela, isto é, fora da bola, à volta da roda, e nela não podia entrar, ou entrava na linha da roda da circunferência e mantinha-se no seu seio, e bem pensava: o seu seio é todo ele uma bola, que rola como uma roda e como uma perfeita bola e só dentro dela se pode rodar e circular.
Logo lhe havia de acontecer ficar dentro da circunferência, o mesmo é dizer: ficar sem a roda mas dentro da roda da bola.
Lá dentro, era difícil rodar os raios da bola do raio da circunferência e limitou-se a circular à roda da bola e a mentalmente rodar o que a bola da circunferência lhe podia dar.
Descobriu que na bola da circunferência podia fazer um circo, que habitualmente é uma tenda, em jeito de meia bola, implantada num círculo, à roda de um terreno onde as pessoas vão para rir e voltear.
Foi o grande espectáculo das bolas
Lá dentro, a toda a roda, construiu circunstância, em semi-circunferência, uma rodada de bolas, para a assistência poder rodar as bolas.
Logo que o espectáculo começou a rolar e a rodar, foi o grande espectáculo de bolas, bolas e mais bolas, bolas de todos os tamanhos, bolas de todas as cores, e até lindas bolas de sabão que rolavam e rodavam no ar em carambolas, com o efeito visual que até lhe parecia estar a sonhar.
Mas, às tantas, com tanta bola, sentiu-se enclausurado na bola e enredado nos raios da roda da circunferência. Via as bolas a rolar e tudo à roda sem ninguém estar à sua roda.
Que aflição! Ainda se lá estivesse alguém da alta roda, que, recebendo de volta o preço do espectáculo das bolas, mandasse cortar a linha da roda da circunferência, para sair da bola! Mas não.
Faltou-lhe o ar e desmaiou. Começou a ver tudo a andar à roda dentro da bola da circunferência. E passou a acreditar que, se a roda era uma bola redonda e estava a rodar, tinha descoberto que a terra também seria redonda.

Carreto Lages ©2013,Aveiro,Portugal

quarta-feira, 31 de julho de 2013

CHUVA A SEU TEMPO

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação

  J. Carreto Lages


Algumas nuvens pavoneavam-se bem alto, vindas em turismo, de muito longe, apenas para nos visitar em seu recreio e lazer, e até pareciam acenar promessas de que a chuva ia chegar, o que já não acontecia há muito tempo. O diminuído viço do “renovo” já exibia, em várias culturas, a notória falta da ternura líquida da água para se dessedentar. Os agricultores estavam justificadamente preocupados, inventando várias razões para a anormal escassez da água nos charcos, nas nascentes e nas ribeiras. Tanto cuidado e trabalho na sementeira, na adubação, na monda e a água a minguar em todo o lado, a preanunciar uma má colheita dos produtos das culturas de regadio. A colheita do sequeiro havia sido a habitual, com as geadas a afectarem a produtividade.
Parecia que a natureza se desconcertara, com o rodar dos tempos, talvez por canseira, ou alguma mão, a ela estranha, andava a intervir na essência do seu percurso.
Até as giestas haviam florido mais cedo
Até as giestas, naquele ano, haviam florido, muito mais cedo, coagidas pelo estímulo de uma vaga de calor que viera do deserto africano e que, talvez, enamorada pelas belezas das nossas terras, se deixara agarrar e ameaçava continuar. As giestas negrais já haviam formado a vagem, que ostentavam com vaidade na aridez e secura dos campos.
As aves, durante o dia, refugiavam-se nas árvores das hortas ou nos salgueiros, freixos e amieiros dos terrenos de pastagem, onde a temperatura era mais fresca. E quedavam-se na modorra, escudando-se numa falsa letargia para que se ignorasse a sua presença

terça-feira, 9 de julho de 2013

O TEU POEMA

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste poema para publicação


José Carreto Lages

O teu Poema

Com a força da esperança
que o sol renova,
em cada alvorada,
escreverei um verso
em cada uma das pétalas
das rosas do teu jardim.
E tu, colhendo os versos,
pétala a pétala,
de cada uma das tuas rosas,
farás do puzzle das minhas palavras
o teu poema.

A doçura dos teus lábios húmidos
unirá as pétalas,
uma a uma,
que fixarás com a ponta do ciúme
e o inquebrável fio da saudade.
E terás o poema em livro
onde, ternamente, farás iluminuras
com o teu sorriso, a renascer.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O AMIGO AFONSO HENRIQUES

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação

Estamos a publicar textos subordinados à temática AMIGOS e AMIZADE. Colabore e remeta-nos o seu texto ou poema inédito para publicação. Ouse! A diversidade fortalece a amizade.  

José Carreto Lages

As elevações arredondadas dos velhos maciços de terreno obrigavam a que as casas, na maioria brancas, construídas ao longo do serpentear da velha estrada, em duas fileiras, se arrimassem umas às outras num “chega pra lá” como se da proximidade resultasse incómoda a vizinhança. O Passat, não se lamentava dos seus cinco ocupantes: eu e meu cunhado Zé Amaral, colado ao banco da frente esquerdo e atrás a Sãozinha, minha mulher, a Mila, minha cunhada e a comadre desta, a Tieta que desde que deixámos o aprazível local da boda não se calavam, numa contínua galhofeira, apenas interrompida pelas repetidas sugestões e ordens dadas para o banco da frente, ao condutor. Decidiram que o carro que seguia mais adiante era o dos realizados pais do noivo, o Dr. Francisco Carvalhosa e a sua mulher, Ana Cristina. Só que depois de uma rápida aproximação verificámos que não era o carro deles. E seguimos a estrada, numa vaga esperança de os alcançar. 
A noite estava estrelada e quente
A noite estava estrelada e quente, recortando a sua velada luz  o tamanho das casas, geralmente baixas, de um só piso ou de lojas com um piso superior para habitação, construídas no último meio século, fruto de alguma melhoria de rendimentos advindos do melhor desempenho da economia  e da remessa de divisas obtidas com o último surto da emigração. E a insípida voz metálica da menina do GPS continuava a tartamudear prescrições ao percurso da estrada que devíamos percorrer, em direcção à aldeia da Merceana, ditando ordens, para a direita e para a esquerda, numa confusa e patética indicação contraditória e alienante, o que nos levava a desdenhar e chacotear do seu comando, e a decidir parar na berma da estrada.
Á frente, a luz ténue dos médios de dois faróis denunciavam a estranha presença de alguém só, dentro de uma viatura estacionada, mas prestes a partir. Como se havia lido, uns duzentos metros antes, na placa da JAE, de anúncio e sentinela à entrada da povoação, estávamos em Arneiros, noite dentro, nas primeiras horas de 4 de Julho.
Depois de abrirmos o vidro da janela, adoçando a voz, demos as boas noites em direcção do ocupante da viatura, que nos pareceu um cavalheiro.
Numa efectiva apreensão e com justificado receio de que o carro iniciasse a marcha, saímos da nossa viatura, em posição lateral ao condutor da viatura estacionada, e, embora já adivinhando a resposta, perguntámos se estávamos no caminho correcto para a Merceana.
Não tardou o senhor a inquirir:
Querem ir para Merceana?
- Querem ir para a Merceana?
E logo, categórico, afirmou:
- Bem, estão perdidos e bem perdidos.
Não estranhámos nada a informação, porque dela suspeitávamos já. Queríamos era saber qual a direcção da estrada a seguir para o nosso estabelecido destino onde íamos passar o resto da noite no complexo habitacional e vitícola da Quinta de Arneiros do Sr. Dr. Francisco Carvalhosa.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A MINHA MONTANHA

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação

José Carreto Lages


Imóvel no espaço,
A MINHA MONTANHA
do silêncio se veste para afirmar a majestade
da grandeza de ser rainha do tempo
sem fim e sem idade;
a essência da sua natureza
é o tamanho e a altura, na beleza
de filha natural de mãe casta;
sem ostentação
mostra-se desnuda ou vestida,
do alapado sopé ao cobiçado cume,
toda a roupa aceita, quanto lhe serve e basta.
Aceita quem quer que a procure
para o prazer ou com ânimo de conquista
aceita quem a ame e quem dela guarde azedume
quem a queira como mãe ou como madrasta.
A neve, de frequente visita,
se com manto a superfície ingreme lhe arrefece,
lhe traz a paz e a alma conforta e aquece.
Sabe que a observam e invejam como senhora bela
mas, para que a temam e se ajoelhem a seus pés,
não precisa que lhe erijam altar nem construam capela

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