segunda-feira, 20 de março de 2017

SER POETA

© Maria Celeste Salgueiro




Ser poeta é de todos ser dif´rente,
Ver para além das coisas a beleza;
Sentir o coração da natureza
Pulsar dentro de si intensamente! 

É sem poder voar ir sempre em frente,
Nas mais pequenas coisas ver grandeza;
É cantar, versejar como quem reza,
Querer atingir na vida o transcendente!

É amar sem limites, sem ter freio,
Sentir que nada acalma o seu anseio,
Dentro de si mil sonhos a florir!

É ver em cada estrela o infinito,
Lançar pela amplidão imenso grito
Para que todo o mundo o possa ouvir!...  




Maria Celeste Salgueiro ©2017,Aveiro,Portugal        

domingo, 5 de março de 2017

De lágrima na mão

 © Albertina Vaz

Encontrei uma lágrima e toldei-me de espanto. Uma lágrima ali, perdida, no meio do nada e atulhada de tanto. Olhei-a a medo e tremi por dentro. Nem sei a que sabia – se era salgada, se era fria, se era amarga ou se devia prová-la e desfazê-la na boca, lenta e devagarinho.

Encontrei uma lágrima e quis afagá-la na minha mão mas, ao tocar-lhe, quase se desfez, em gotículas tão pequeninas que rolaram para o chão: eram gotas de dor, de amargura, de sofrimento, de tortura, de tormento. Eram só gotas mas sabiam a tanto.

E vi que havia mais lágrimas que se espalhavam pela calçada e inundavam o chão. Nem sei donde vinham nem para onde iam mas rolavam, sem destino, na calçada lamacenta que cheirava a calor e se alongava como quem rola, em círculos desfeitos, num mar de pranto.

Mas eram também gotas de receio, de inquietação, de medo, de susto, de alvoroço e de revolta, que se desenvolvem e se diluem, numa paragem de vida, onde tudo parece que começa e nada decide avançar.

E eram também sonhos de sonhos que deixam de ser sonhos e aparecem como realizações de realidades concretas que se corporizam num gesto, numa caricia, num afago, num mimo, num sorriso que se intensifica e se dilui quando, no horizonte, o sol nasce e as aves o circundam, em voo aglutinado, manchando de sombra a luz imensa que dele se evola.

E fiquei para ali a pensar nos milhões de lágrimas que volteiam como pássaros alados, rodopiando em voos de ida que voltam sempre ao local de partida e forçam o ramo da árvore, onde um ninho recorda o último verão e as canções de embalar sempre anunciadas.

Subi a ladeira, devagarinho, dobrada sob aquele peso daquela lágrima que recolhera na minha mão. E encontrei, sentada na beira da estrada, uma rapariga, de olhar vazio, enfrentando o nada. Em silêncio. Na sua face, apenas o silêncio, mudo e petrificado, de quem nada tem ou nada já quer ter.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

História de uma Margarida

© José Carreto Lages 

Margarida era uma rapariga linda, esculturalmente bela e insinuante. Quem a visse lembrar-se-ia, no mínimo, de um figo pingo de mel. Expedita e dada a enleios, frequentava o colégio das irmãs Doroteias, onde trazia em sobressalto os elementos diretivos. A sua beleza era unanimemente conversada entre os jovens.Tornou conhecida a rua e a casa da tia, onde a sua presença enfeitava e valorizava a habitação.

À hora da saída das aulas, era habitual juntar-se um grupo de estudantes mais atrevidos, para observá-la, dirigir-lhe piropos, acompanhar-lhe os gestos e os apelativos movimentos que a moldura da perfeição do corpo desenhava com generosa exuberância. Ela, sobranceira aos olhares, não se incomodava nada de ser  modelo da lúdica observação dos jovens que lhe dirigiam elogiosos galanteios  que lhe assentavam como luva na esteira concupiscente do funcionamento das suas virginais hormonas. O ajustamento das blusas que vestia sugeriam com evidência o contorno abonado da perfeição arredondada de dois seios bem firmes. Com o rosto ligeiramente ovalado, respirava  a exuberância e a perfeita saúde de um corpo perfeito, bem ataviado.

Tinha completado os dezoito anos e entre o aroma das tílias do parque aceitou a insistência do Lourenço em lhe permitir que a acompanhasse no caminho de acesso às aulas, com a condição de que a companhia cessaria antes da curva da rua que abria vista ao edifício do colégio. 

domingo, 29 de janeiro de 2017

Oiço a tua voz

© Isabel Maria

Oiço a tua voz
Porque vieste?
Não chamei por ti!
Tua voz…
Oiço a tua voz!
Tão perto, tão longe
tão dentro de nós!...

Uma parte de mim
vive longe…
É fogo, é luz
rosa do meu jardim
presa ao meu coração
Chamo tua voz                                   
mas, não regresses mais
Assim!...

Embora a dor me fira,
De tal modo
Que só tuas mãos saibam
Curar-me…
Ou ninguém, se não tu,
possa entender
o meu contentamento,
sem que tua voz me faça estremecer!...


Isabel Maria ©2017,Aveiro,Portugal

domingo, 22 de janeiro de 2017

Alabastro


© Vitor Sousa


Opaco, persistente, frágil, compulsivo no descrédito dos valores mundanos, o João soava a Alabastro.
Nascido para carregar penitências, era a personificação das noites revoltas, da febre, das maleitas e de um vómito cáustico oriundo de um qualquer manifesto de repúdio aos deuses ou às contrariedades de bom comportamento.
Opaco,persistente, frágil, o João soava a Alabastro
O seu universo tinha de ser retocado, amarfanhado e reinventado por ele, como se ele fosse o princípio e o fim de todas as coisas na plenitude desordenada do instinto.
A perspectiva da observância era antagónica na captação pictórica do mundo, sempre pautada pelo confronto às verdades absolutas e à força absurda das razões que enjaulam os caminhos.
Era um artesão da alma.
A vista da imensidão, ou a mão pousada no sossego da muralha castelã imprimiam um derrube do temporal, onde todo o rasto histórico é agora. A relação com o outro era fácil, espontânea, afável e curta.
A vivência humana na sua complexidade, imprimia-lhe sempre uma impressão de transacção comercial submersa movida por vómicas cumplicidades sarapintadas a custo por retalhos necrófagos de aparência isenta e sadia.
Até a caridade, supostamente nobre e altruísta era castrada pela contrapartida do amanhã desconhecido, pelo dilema medonho de fazer o bem para garantir o bem-estar sem vir a precisar do pão alheio ou de estender a mão à vergonha do pedir.
Valiam-lhe os bichos, para lhe nortear as contendas e harmonizar a existência.

domingo, 15 de janeiro de 2017

O homem que contava as estrelas

 © Albertina Vaz 


Era uma vez um homem que contava as estrelas. Ficava muito tempo a olhar para elas e a vê-las tremelicar. O homem não era nem velho, nem novo. Era apenas um homem. A contar estrelas: aquela, lá mesmo ao fundo, era a estrela do João, a outra, mesmo ao seu lado, era a da Maria; no meio, lá estava a estrela do sol nascente e, mais abaixo, a estrela da boa vontade. O homem dava nome a todas as estrelas. E todas as estrelas o conheciam por homem. Nenhuma das estrelas sabia o nome do homem, mas todas o chamavam pelo nome.

Olha, lá em cima, tantas estrelas!
Algumas vezes, quando o céu se enfrascava de chuva, as estrelas gritavam: vai para casa, homem, olha que vai chover muito. Mas o homem não ouvia as estrelas. Vi-as a brilhar ou a escurecerem. E, quando as estrelas ficavam escuras, o homem dizia: é a vida! Foram-se. Talvez voltem amanhã.

No dia seguinte, o homem voltava para contar as estrelas. E elas lá estavam, brilhantes, como se o sol estivesse por perto e a noite não tivesse descido. Vai ali a Francisca – dizia o homem. Do lado esquerdo, deve ser o Pedro. Um dia ainda os hei-de juntar – pensava o homem. Mas o homem acabava sempre a noite a contar as estrelas. A ver se faltava alguma, ou se alguma estava fora do seu lugar.

sábado, 31 de dezembro de 2016

PRESENTE DE NATAL


©José Teixeira


Antes de dar ou receber presentes de Natal,
Eu quero ser Presente de Natal,
Junto das pessoas do meu Mundo.

Presente nos afetos que abrem corações.
Presente nos sorrisos que dão vida à alma.       
Presente na dor para dar consolo.
Presente na vida dos que mais precisam.
Presente no combate à solidão que mata
Presente nos abraços que transmitem calor.
Presente em ti meu irmão.

Este “Ser Presente” não têm custo monetário.
Não se gasta nem desgasta
E pode usar-se todos os dias do ano.

Faz de mim uma pessoa feliz
Porque recebo sorrisos gratuitos de felicidade.

José Teixeira ©2016,Aveiro,Portugal

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Fazedores de sonhos


                                                                                                                                 ©  Albertina Vaz    


Encontraram-se num vão de escada, disputando o espaço e meia dúzia de cartões que lhes serviam de abrigo. Naquela noite, cada um dormiu de costas voltadas. Não apareceu ninguém com sopa quente e as meninas das carrinhas deviam estar muito ocupadas com outros sem abrigo de outra rua. De noite, a fome apertava tanto que se enroscaram sobre si mesmos até adormecerem.

De manhã, acordaram abraçados e sorriram. Ela tinha uma cara rosada, bem queimada pela aragem fria, e um dente a menos que lhe conferia um ar extravagante e original. Ele vestia todas as camisolas que conseguira encontrar nos caixotes de lixo que, invariavelmente, rebuscava todas as noites. O cabelo espesso e desgrenhado e uns olhos azuis, qual mar pardacento num fim de tarde, tornavam-no um pequeno gigante que se gostava e se amava.

Foram dias e dias de descobertas sem fim – ruas insondáveis, caminhos sem saída e regressos ao ponto de partida, sempre que a noite chegava e o sol se punha. Falavam do presente e guardavam, numa cela fechada, um passado que não queriam partilhar. E sorriam, pedalando pela calçada deserta, num jogo de esconde e de descoberta.

À noite imaginavam presentes para se darem.

- Tenho aqui uma casa branquinha, com lareira acesa e uma estrela na porta da entrada – e desenhava, no ar, os contornos dum sonho que queria materializar.

- Olha, eu tenho aqui uma panela, cheia de sopa, e um café quentinho que vamos beber juntos. Chschschs … Está tão docinho!

- Pois eu quero dar-te um bolo, com passas e nozes, e um cálice de licor – e continuava desenhando no ar, presentes imagináveis que acariciavam a noite fria.

- Para ti tenho aqui os sonhos que a minha avó fazia e o cheirinho da canela no arroz doce que escorre da panela. Cuidado, não te queimes.

Era a noite a seguir ao natal.Do outro lado da rua, uma criança de colo sugava sofregamente o peito de uma mãe que se deixava escorregar da parede ao chão. Um som vazio e um choro chocante marcaram a realidade e destruíram a magia.

- Anda, vamos lá ver se encontramos alguma coisa para ela comer. O menino, se ela não come, também não tem leite e ele já está tão fraquinho. Ontem é que foi natal, hoje temos mas e que ir à vida e mudar este mundo.

Ontem foi a noite dos sonhos e as estrelas no céu anunciaram um caminho de luz. No mundo dos mendigos, partilhou-se a fome e, com um pouco de nada, construiu-se o Natal de todos os dias.


Albertina Vaz ©2016,Aveiro,Portugal

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Ser PRESENTE no Natal

© José Teixeira e Albertina Vaz   
                                                                                                                                        

Pela frincha da janela, olhava a rua e a chuva que caía insistente. As palavras iam e vinham e não se quedavam. Um vazio imenso apoderou-se do espaço. Desde que ela partira tudo se enublara. Até a luz do sol parecia ter-se diluído. Olhou-se no tempo e sentiu-se perdido. Só, e sem nada a que se agarrar.   

Caminhava ligeiro pela ingreme rua. Não entendia porque tinha tomado tal atitude, ao cair da noite. Sentia necessidade de partir. Talvez ver as luzes da cidade. Caminhar…esquecer…porque afinal era véspera de Natal, no seu mundo de solidão.  

Tiveram apenas um filho e há muito que não recebia notícias dele. Aquela terra, lá longe, para onde partira, roubara-lhe os dias para ver crescer os netos. Nunca foi com eles ver o mar nem ouvir os trinados das gaivotas, espraiando as asas em dunas de areia.  

Até ao momento nada o tem afastado da sua casinha, onde se dedica a cultivar leguminosas e hortícolas que reparte com os vizinhos. Foi construída com o seu suor e o da Ermelinda, a sua eleita e amada. Ali viu nascer o filho. Dali o viu partir, em busca dum futuro melhor. Criou família e deu-lhe dois netinhos. Ao princípio, vinha passar férias. Até construiu uma casa e o seu sonho era regressar um dia. Porém, as voltas que a vida foi dando, afastaram-no da terra mãe.

- Que estranho! – pensou – este ano nem o meu cunhado me convidou para comer uma rabanada, - e sentiu-se sozinho. Ele e os seus velhos, lá, naquele lar, aonde não tinha coragem de voltar.  

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O Credo

©Vitor Sousa 



Creio o credo que há em mim.
Na morte do um deus sem fim.
Na blasfémia.
No tormento.
No lucifer do momento
Em sítios de assombramento.
Quero crer que haja esperança
Entre as mortes de uma vida
Rasgada, biltre, perdida.
Creio nas ânsias da guerra
Nascidas da inquietação
Do comércio da razão.
Por um punhado de terra.
Por um punhado de deus,
Entre crentes e ateus
Há um mar de afogamento
De cadáveres ao relento.
De crianças que não choram.
Entre as mortes de uma vida
Rasgada, biltre, perdida.
Tragam o sangue inocente
Desta justiça demente
Onde uma mão suja a outra.
Este abismo bolorento,
Vestido das cores do pranto.
Disfarce de raiva leda,
Mascarada de beleza
E cores fortes de alegria.
Entre as mortes de uma vida
Rasgada, biltre, perdida.
Creio o ódio e a vaidade.
Orgulho, horror, vingança.
Na loucura da verdade.
No apogeu da descrença.
Entre as mortes de uma vida
Quero crer que haja esperança…

Vitor Sousa ©2016,Aveiro,Portugal

domingo, 3 de julho de 2016

Lembras-te da história da gaivota?

   ©  Albertina Vaz



A lua desenhava-se, como uma bola redonda, no centro do universo. Aquele era o dia em que o sonho se tornava realidade: o menino acabara de chegar. Queria vê-lo crescer, queria crescer com ele. Queria partilhar os sonhos que sonhava, os voos que imaginava e a vida que lhe restava.

Quando ele fizesse vinte anos só a sua memória estaria com ele. Mas a vida seria uma rota feita de descobertas e de dádivas que iam partilhar no tempo.

Deixou que as palavras o fizessem regressar ao futuro e colocou, no papel, o que gostaria de lhe dizer, no dia em que a saudade falasse mais forte. E começou assim:

Lembras-te da história da gaivota?




Uma luz estranha invadiu a minha vida – chegaste. E dei por mim a convidar a esperança para me despertar desta letargia em que me tenho gradeado. Tenho de ir contigo ver o mar. Tenho de te mostrar as ondas a desfazerem-se na areia ondulada da praia deserta. Tenho de te contar a história da gaivota.

Chovia tanto, tanto que a bruma tinha invadido os céus e não se via nada, no curto espaço que se estendia ao redor das dunas. Por entre a areia molhada, eu caminhava sem rumo nem norte. Foi então que encontrei uma gaivota, acabada de nascer. Tinha uma perna partida e uma asa ferida.

Era tão pequenina e tão delicada que até a luz da bruma parecia quebrar-lhe o ténue fio que a prendia à vida. Mal enchia a minha mão. Aconcheguei-a contra o meu peito e levei-a comigo. Cuidei dela, como quem afaga o vento ou acalma a tempestade. E, quase por milagre, começou a erguer a cabecita e a piar.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Sophia

Helena Maltez



Segundo um desenho a crayon de Carlos Bottelho

Como se um qualquer mistério serenamente fulgisse nos seus olhos
E em seus lábios sussurrasse a folhagem de bosques e jardins

Como se uma alvorada de pássaros voando livremente fora do sonho
Lhe soltasse os cabelos, lhe iluminasse as feições

Como se no interior das coisas ela tocasse a nudez da verdade
E um silêncio aguardasse a voz do poema

Como se cada verso seu fosse raiz e fosse asa.



Helena Maltez ©2016,Aveiro,Portugal

quinta-feira, 2 de junho de 2016

O SOL NA MÃO

©Maria Celeste Salgueiro


Um dia fui contigo passear.
Era um dia de verão ameno e quente.
À nossa volta apenas céu e mar...
O Sol era no alto um facho ardente!

Começaste a correr e a brincar.
De te ver tão feliz fiquei contente.
- Avó , olha estes peixes a saltar,
Olha esta estrada de oiro à tua frente!

Mergulhaste nas ondas sem dizer.
Deixei por um instante de te ver,
Depois, de mãos em concha, tu surgiste!

- Avó,trouxe p´ra ti o mar dourado!
E teu olhar brilhava de encantado...
Tive o Sol na mão, quando me sorriste!

Maria Celeste Salgueiro ©2016,Aveiro,Portugal

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Ia chegar atrasada

©Albertina Vaz 

Tinha saído a horas mas uma turbulência inopinada obrigara o piloto a esperar nova oportunidade de aterragem. E ali estávamos, em voo planado, a circundar a cidade cujas luzes se começavam a divisar. Tremia de impaciência. Isto era tudo o que não queria e aí estava a realidade: não havia qualquer hipótese – ia chegar atrasada.
Ía chegar atrasada
Atravessei, em passo de corrida, os corredores intermináveis do aeroporto e aguardei, outra vez, numa impaciência sem medida, a bagagem que persistia em aparecer depois de todas as outras. Quase me apetecia sair sem ela mas aquele sentimento de pertença impediu-me de sair dali. Finalmente: lá estava ela.
Só dei por mim quando me vi de novo numa fila interminável. Desta vez era o táxi e todas as pessoas que, à minha frente, faziam questão de chegar, elas também, a horas. Martelava-me na cabeça a certeza de que o avô estava sozinho em casa e lhe tinha prometido que jantaria com ele. Chegas sempre tarde, não vale de nada pedir-te para respeitares as minhas horas. Não tens sequer horas. Nem para mim, nem para ti, nem para ninguém. Vida de viajante não dá felicidade a ninguém.
Esta corrida em que a minha vida se transformara estava a doer-me cada vez mais. Deixei de ter os meus silêncios, as minhas leituras, as palavras que gostava de escrever. Até deixei para trás os olhares, os gostos, os sorrisos.
Estava a chegar e uma chuva miudinha chegava comigo. Como se nada mais bastasse para me desesperar. Até aquela chuva irritante vinha festejar o meu atraso. Meti a chave na fechadura e entrei. A medo e em sofrimento.
Apressei-me nas desculpas: o voo que atrasara, a bagagem que não chegava, muitas
Alva, como a neve
pessoas e poucos táxis e até a chuva. Um turbilhão de palavras. E de desculpas. Só então reparei que o avô, imponentemente, estava sentado no topo da mesa, com um sorriso no rosto, imperturbável. Nem me ouvira sequer. Olhava para um e outro lado e ia distribuindo sorrisos e abraços. Amigos imaginários? Ou simplesmente a doença a avançar?
Olhei à sua volta e percebi que a toalha de renda, bordada pela avó, se espalhava pela mesa. Alva, como a neve. Linda como nenhuma. Tudo estava meticulosamente pensado: o serviço de jantar dos dias de festa, o talher de prata, os copos de cristal. No centro, um arranjo de flores vermelhas pendia de um arabesco, como se de uma cascata se tratasse. Dois candelabros de velas acesas deixavam cair, em gotículas pendentes, a cera que se acumulava num prato que as circundava. O cheiro a cera queimada dava ao ambiente um certo ar de mistério que se tornava envolvente.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Noite Velha

Isabel Maria ©

Lentamente o manto
De seda azul
Vai dando lugar
A um manto diáfano
Escuro de cetim…
Mais uma vez
A noite venceu o dia!                       
Agarro o tempo
A lua encantada
Renova de brilho
O meu quarto é todo luz
Dou voltas no sono
Que deixo subitamente
Fugir…
Vagueio na noite acordada
Espreito a lua
Sonho com olhos ávidos de sono
Que vou ser feliz.
Agarro o tempo
Olhando um fio de luz
P’ra me guiar…
Noite
Noite de sonhos e medos
Noite etérea e vadia
De perfumes a levitar
Velha noite dos meus sítios
Onde os mistérios da lua
São meus segredos e ilusões
E se confundem com sons
Na minha voz
Que na tua voz flutua!...


Isabel Maria ©2016,Aveiro,Portugal

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Carta à minha mãe

 ©Idalinda Pereira

(A ser entregue no dia do meu nascimento)


Ainda não sabias que estavas grávida, mas eu já existia.
Eu sabia que era fruto do amor, de uma paixão, e não do acaso ou de um descuido.
Eu vivia em silêncio, dentro de ti, e tu continuavas a ignorar-me. Foi necessário haver uma explosão hormonal para te provocar tonturas, enjoos e mau estar - eureka! Aí fez-se luz!
Então, pela quinta vez, segredaste ao ouvido do meu pai: estou grávida. Fiquei mais tranquila porque ia ser reconhecida.
Quando se deu a minha divisão celular, senti-me muito aflita e tive que te roubar muita energia, porque precisava de oxigénio para a formação do meu cérebro, ossos, vasos sanguíneos, músculos e todos os meus órgãos, o que te causou um grande stresse e muito nervosismo. Eu chamava por ti, mas mesmo sabendo que eu já existia, continuavas indiferente até mesmo ignorando-me!.. Só passados sessenta dias, é que tomaste plena consciência de que, nas tuas entranhas, havia um novo ser e que eras a pessoa mais importante para ele! Então começaste a ajudar-me.
Tiveste cuidado com a tua alimentação, mais horas de descanso, pediste ajuda especializada para que nada me faltasse, sabias que só assim eu viria a nascer saudável, perfeita e escorreita, como é o desejo de todas as mães.
Gostei muito de me aninhar no teu ventre e permanecer nele durante as várias fases do meu crescimento e desenvolvimento: ovo, embrião e feto.
Através da placenta, deste-me tudo o que eu precisava. Sei que sofreste, o teu stresse aumentava, mas não eras a única. Eu. por vezes, também ficava muito irrequieta com falta de oxigénio; tu não respiravas corretamente e eu tinha que aguentar com o meu stresse e com o teu! Mas depois passavas a mão na tua barriga e eu acalmava, sentia-me bem.

domingo, 1 de maio de 2016

AMOR DE MÃE

 ©Maria Celeste Salgueiro 




Deste-me, minha Mãe, a vida, o ser.
Foste na minha infância o sol, o guia;
Ensinaste-me a andar, a escrever,
A ver, além das coisas, a poesia!

Foste a amiga que todos sonham ter,
Pronta para ajudar em cada dia;
Foste o meu lenitivo no sofrer,
Comigo te alegraste na alegria!

Tu deste-me um amor ilimitado
Que nada pede em troca, dá sómente,
Como outro assim não há desinteressado.

Hoje o pranto é um rio que inda corre...
Mas, minha Mãe, tu estás sempre presente,
Quem é sempre lembrada, nunca morre.


Maria Celeste Salgueiro ©2016,Aveiro,Portugal

segunda-feira, 25 de abril de 2016

A Sinceridade na política existe? Uma palavra que parecia ser mágica

 ©Gil Gilardino

A palavra “SINCERIDADE”, por muito paradoxal que possa parecer, nasceu de uma mentira.

Os estudiosos da semântica contam, segundo reza a lenda, que no tempo do antigo Império Romano se vendiam estátuas com mármore rachadas.Para disfarçar as feridas destas infelizes estátuas, enchiam-se as rachas de cera e, assim, os escandalosos mercantes eram tão prósperos como pouco honestos.Os comerciantes honestos alertavam os seus clientes de que as suas estátuas eram “sem-cera” … e a palavra nasceu.

As diferentes palavras tais como sinceridade, verdade e mentira possuem um forte significado simbólico.Na actual sociedade a simbologia das palavras perdeu o seu peso, criando um vazio pouco confortável para quem todos os dias deve confiar na ética assimilada ao papel da honestidade.

Cada vez com menos transparência social se aumenta a opacidade nas nebulosas dos relacionamentos, no lugar de proporcionar espaços cristalinos do verbo, procurando equidade nos valores da sinceridade ou na verdade.

Em tempos que já foram, existiam nas diferentes sociedades certas tendências espirituais com diferentes filosofias, ateias ou religiosas, garantindo valores sociais, proporcionando uma certa ordem cívica.

Actualmente assistimos a uma verdadeira apoteose da palavra sinceridade da parte dos políticos actuais, horas de comentário nos canais de televisões com eminentes constitucionalistas a analisar todas as versões da importância da palavra DEMOCRACIA. O mesmo consiste na palavra desportivismo - parece que já ninguém sabe interpretar o compreender a expressão delas.Um famoso concílio no século 1101 D.C. deliberou o celibato dos padres, mas, paradoxalmente, os primeiros discípulos do nosso Jesus Cristo eram quase todos casados.
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