Mostrar mensagens com a etiqueta Maria Cacilda Marado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maria Cacilda Marado. Mostrar todas as mensagens

domingo, 12 de abril de 2015

O Pai Guilherme

 Maria Cacilda Marado 


Chamava-se Guilherme; um nome pouco vulgar para mim, na época em que eu era ainda menina. Um nome que eu pronunciei poucas vezes, apenas quando me perguntavam o nome do meu pai - Guilherme Carneiro Marado -, dizia eu à espera dos sorrisos enviesados que às vezes deixavam entrever os inquiridores. Eu sorria para dentro e pensava comigo: tomaras tu ter um pai Guilherme como o meu, um pai doce que me dá mimos, beijos, abraços. Um pai que me protege da minha mãe que não me perdoa uma. Na verdade, embora ela me amasse muito também, cabia-lhe o menos bom: mandar-me estudar, não me deixar brincar o dia todo, mandar-me ir para a cama cedo, etc., etc.

... o seu jeito doce de lidar comigo, o seu modo de me amar.
Mas voltemos ao meu pai, pois é dele que vou continuar a falar, sobretudo daquele seu jeito doce de lidar comigo, do seu modo de me amar. Enquanto pequena, os seus braços eram os mais acolhedores do mundo e os seus beijos os que estavam sempre cheios de promessas.Com que alegria o recebia quando ele chegava a casa, à noite! Rita Joana, perguntava-me, como correu o dia? Portaste-te bem? Obedeceste à mãe? Eu atirava-me a ele e os meus olhos diziam tudo…Depois, vinha a recompensa ou a desilusão. E como eu sofria quando o via triste comigo! E dizia de lágrimas nos olhos: amanhã vou ser mais obediente, pai. E isto era o suficiente para o ver de novo feliz e sentir os seus afagos.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Por cá e por além-mar em Africa

                                                                                                             Maria Cacilda Marado

Já não é muito nova, quarenta e um anos ninguém lhos tira, mas mantém-se de pé e com firmeza sempre que a requisitam para cumprir a sua missão. Tenho visto companheiras suas mais jovens desengonçarem-se todas ao mais pequeno desajeitar das mãos de quem as usa. Realmente, o utensílio de que vos estou a falar tem uma história notável. Com apenas seis anos de idade, transpôs o oceano Atlântico com garbo e valentia.
Uma vez deu-me cabo de um pé...
Arrumadinha num contentor, nunca deu sinal de si até que, quase um mês depois, a pus novamente ao serviço da família. Sim, ela esteve em terras de África, onde, durante dois anos e meio, desempenhou bem a missão para que foi criada. E permitiu muitas descargas de adrenalina enquanto se deixava usar para o fim a que se destina. Foi utilizada por mim e por outros sempre que era necessário mimar quem se queria alindar. Uma vez, deu-me cabo de um pé quando fui desajeitada ao pô-la sobre as suas duas firmes sustentações. No entanto, eu tenho por ela uma estima tão grande que, dois anos e meio depois de ela ter ido para Angola comigo, quando regressei, não quis deixá-la numa terra de desassossego, no pós-25 de Abril, época bem conturbada pelos movimentos de independência.

E lá a trouxe de novo, no fundo de um outro contentor que mais tarde se transformou numa bela estante. Mas, voltando ao meu utensílio de estimação, hoje, tanto tempo já passado, ainda me alivia as tensões quando corro em cima dela com o meu bólide de corridas, quando aprimoro os tecidos, quando liberto as tensões, quando faço conjecturas e elaboro projectos. Para a guardar, escolho sempre um cantinho para não me perturbar as correrias de última hora. Mas não sou só eu que lhe quero bem; a minha filha tem por ela uma estima especial, pois liberta-a de algumas tarefas que teria de fazer na casa dela.

Maria Cacilda Marado ©2015,Aveiro,Portugal

domingo, 2 de março de 2014

O Palhacinho

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação


Era um cão doce, muito doce. Tinha o pelo preto, em novelos de algodão que se ofereciam para receber carícias. Segurava-se em pé, nas patinhas detrás, e percorria as distâncias que o separavam daqueles que ele amava. Eu tive a sorte de ser querida por ele e, quando o chamava, os dentes do Palhacinho entreabriam-se num sorriso cativante. Depois, deitava-se em rodilha à espera de mimos que o faziam alongar as patinhas e estender a língua em carícias. Quando veio para minha casa, já era velhinho pois vivera com outro dono que o
Quando nos vimos pela primeira vez ficámos
logo amigos
recolhera do canil. Quando nos vimos pela primeira vez, não nos estranhámos e ficámos logo amigos. Escolhemos juntos o seu canto para descansar e o seu espaço para deambular. Quando eu saía de casa, despedia-se de mim com os seus caninos em festa e ia para o seu cestinho dormir. Quando estava calor, quase derretia ao sol, junto à porta da cozinha, sempre à espera de um olá. Nessa altura, saltava na pontinha das patas e dançava ao sabor dos meus chamados, elogios e ternuras. E assim vivemos meses e anos. Nas férias, quando me ausentava por algum tempo, ficava ao cuidado dos meus filhos que o consideravam também como seu. Numa dessas ocasiões, uma amiga da minha filha levou-o com ela para uma quinta, no Douro. Eu estava, na altura, nos Açores. Todos os dias perguntava por ele à minha filha que me punha ao corrente do que se ia passando com o Palhacinho. E assim foram passando os dias, longe do meu doce amigo, é certo, mas descansada por saber que ele estava bem.
Um dia, recebi um telefonema estranho. Perguntei pelo Palhacinho e do outro lado do oceano disseram-me que ele não aguentara o calor tórrido daquele verão. Como devem imaginar, o meu coração ficou muito triste; não reencontraria o meu querido e doce amigo quando regressasse.

Ainda tentei encontrar outro cãozinho que me ajudasse a superar o meu desgosto, mas não consegui. O Palhacinho, ainda hoje, passados muitos anos, continua no meu coração.

Maria Cacilda Marado ©2014,Aveiro,Portugal

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Enfrentar as marés

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação



Viver ao sabor dos ventos, deixar-se levar pela maré, não ter os pés assentes na terra, pensar com a cabeça dos outros são atitudes que podem trazer algumas surpresas e desencantos ao longo da vida. A este respeito, variadíssimos autores têm feito correr muita tinta sobre a importância de se ter objectivos. A experiência de cada um tem-se encarregado de comprovar estas máximas. Recordo, a propósito, Orson Welles que afirmava ser a falta de objectivos mais importante do que a consumação deles. Possivelmente, já todos experimentaram como é efémero o prazer da realização pessoal, e, em contrapartida, como é desafiador o tempo em que nos entregamos à realização dos projectos. Conheci um homem, muito simples por sinal, que, até aos oitenta e cinco anos, fez da sua vida um campo de novidades. De tal forma que as últimas palavras que lhe votaram quando ele partiu se traduziram na expressão mais encantadora que ouvi a seu respeito: deixou-nos o homem dos projectos e que nos fique a vontade de o seguirmos.
...lutando com as armas de que se dispõe...
Vem isto a propósito do desespero, da insegurança, do desencanto, da inépcia e da desesperança que tantas vezes nos assolam. E, convenhamos, por mais fortes e resistentes que sejamos, há alturas em que o chão nos foge, como vulgarmente se diz. O momento actual favorece estes estados de alma, sabemos. Não nos faltam estudos que apontam soluções para a crise, as crises, pois de várias se trata – económica, social, cultural e, sobretudo, de valores. Os debates mostram-se na comunicação social, as reflexões deixam pistas e orientações, mas o certo é que, para muitos, as portas já estão fechadas. Para outros, há apenas espaço para a entrada de um pé que, sozinho, se deixa vencer pelo pontapé que assoma à soleira. Todavia, os salões continuam cheios: de oportunistas que impam de ignorância, de imberbes infantes que crescem à sombra de vaidades, de detentores de bolsas que, de tão cheias, rebentam pelo atilho. À porta, desamparados, estão os que esperam as migalhas que caem da mesa dos senhores!

Deambular sem tino em caminhos sem saída? Entregar-se, rendido, ou lutar afincadamente até que a justiça social faça jus do seu mister? Não se deixar levar pela maré, lutando com as armas de que se dispõe, parece-me ser um caminho possível. No meu caso, e neste meio, fazer com as palavras a ressonância do meu sentir. 

15/09/2013

MariaCacilda Marado ©2014,Aveiro,Portugal
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...