Chamava-se Guilherme; um
nome pouco vulgar para mim, na época em que eu era ainda menina. Um nome que eu
pronunciei poucas vezes, apenas quando me perguntavam o nome do meu pai -
Guilherme Carneiro Marado -, dizia eu à espera dos sorrisos enviesados que às
vezes deixavam entrever os inquiridores. Eu sorria para dentro e pensava
comigo: tomaras tu ter um pai Guilherme como o meu, um pai doce que me dá
mimos, beijos, abraços. Um pai que me protege da minha mãe que não me perdoa
uma. Na verdade, embora ela me amasse muito também, cabia-lhe o menos bom:
mandar-me estudar, não me deixar brincar o dia todo, mandar-me ir para a cama
cedo, etc., etc.
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| ... o seu jeito doce de lidar comigo, o seu modo de me amar. |
Mas voltemos ao meu pai,
pois é dele que vou continuar a falar, sobretudo daquele seu jeito doce de lidar
comigo, do seu modo de me amar. Enquanto pequena, os seus braços eram os mais
acolhedores do mundo e os seus beijos os que estavam sempre cheios de
promessas.Com que alegria o recebia quando ele chegava a
casa, à noite! Rita Joana, perguntava-me, como correu o dia? Portaste-te bem?
Obedeceste à mãe? Eu atirava-me a ele e os meus olhos diziam tudo…Depois, vinha
a recompensa ou a desilusão. E como eu sofria quando o via triste comigo! E
dizia de lágrimas nos olhos: amanhã vou ser mais obediente, pai. E isto era o
suficiente para o ver de novo feliz e sentir os seus afagos.



