© Albertina Vaz
Encontrei uma lágrima e
toldei-me de espanto. Uma lágrima ali, perdida, no meio do nada e atulhada de
tanto. Olhei-a a medo e tremi por dentro. Nem sei a que sabia – se era salgada,
se era fria, se era amarga ou se devia prová-la e desfazê-la na boca, lenta e
devagarinho.
Encontrei uma lágrima e quis
afagá-la na minha mão mas, ao tocar-lhe, quase se desfez, em gotículas tão
pequeninas que rolaram para o chão: eram gotas de dor, de amargura, de
sofrimento, de tortura, de tormento. Eram só gotas mas sabiam a tanto.
E vi que havia mais lágrimas
que se espalhavam pela calçada e inundavam o chão. Nem sei donde vinham nem
para onde iam mas rolavam, sem destino, na calçada lamacenta que cheirava a
calor e se alongava como quem rola, em círculos desfeitos, num mar de pranto.
Mas eram também gotas de receio,
de inquietação, de medo, de susto, de alvoroço e de revolta, que se desenvolvem
e se diluem, numa paragem de vida, onde tudo parece que começa e nada decide
avançar.
E eram também sonhos de
sonhos que deixam de ser sonhos e aparecem como realizações de realidades
concretas que se corporizam num gesto, numa caricia, num afago, num mimo, num
sorriso que se intensifica e se dilui quando, no horizonte, o sol nasce e as
aves o circundam, em voo aglutinado, manchando de sombra a luz imensa que dele
se evola.
E fiquei para ali a pensar
nos milhões de lágrimas que volteiam como pássaros alados, rodopiando em voos
de ida que voltam sempre ao local de partida e forçam o ramo da árvore, onde um
ninho recorda o último verão e as canções de embalar sempre anunciadas.
Subi a ladeira, devagarinho,
dobrada sob aquele peso daquela lágrima que recolhera na minha mão. E
encontrei, sentada na beira da estrada, uma rapariga, de olhar vazio,
enfrentando o nada. Em silêncio. Na sua face, apenas o silêncio, mudo e
petrificado, de quem nada tem ou nada já quer ter.




















