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domingo, 5 de março de 2017

De lágrima na mão

 © Albertina Vaz

Encontrei uma lágrima e toldei-me de espanto. Uma lágrima ali, perdida, no meio do nada e atulhada de tanto. Olhei-a a medo e tremi por dentro. Nem sei a que sabia – se era salgada, se era fria, se era amarga ou se devia prová-la e desfazê-la na boca, lenta e devagarinho.

Encontrei uma lágrima e quis afagá-la na minha mão mas, ao tocar-lhe, quase se desfez, em gotículas tão pequeninas que rolaram para o chão: eram gotas de dor, de amargura, de sofrimento, de tortura, de tormento. Eram só gotas mas sabiam a tanto.

E vi que havia mais lágrimas que se espalhavam pela calçada e inundavam o chão. Nem sei donde vinham nem para onde iam mas rolavam, sem destino, na calçada lamacenta que cheirava a calor e se alongava como quem rola, em círculos desfeitos, num mar de pranto.

Mas eram também gotas de receio, de inquietação, de medo, de susto, de alvoroço e de revolta, que se desenvolvem e se diluem, numa paragem de vida, onde tudo parece que começa e nada decide avançar.

E eram também sonhos de sonhos que deixam de ser sonhos e aparecem como realizações de realidades concretas que se corporizam num gesto, numa caricia, num afago, num mimo, num sorriso que se intensifica e se dilui quando, no horizonte, o sol nasce e as aves o circundam, em voo aglutinado, manchando de sombra a luz imensa que dele se evola.

E fiquei para ali a pensar nos milhões de lágrimas que volteiam como pássaros alados, rodopiando em voos de ida que voltam sempre ao local de partida e forçam o ramo da árvore, onde um ninho recorda o último verão e as canções de embalar sempre anunciadas.

Subi a ladeira, devagarinho, dobrada sob aquele peso daquela lágrima que recolhera na minha mão. E encontrei, sentada na beira da estrada, uma rapariga, de olhar vazio, enfrentando o nada. Em silêncio. Na sua face, apenas o silêncio, mudo e petrificado, de quem nada tem ou nada já quer ter.

domingo, 15 de janeiro de 2017

O homem que contava as estrelas

 © Albertina Vaz 


Era uma vez um homem que contava as estrelas. Ficava muito tempo a olhar para elas e a vê-las tremelicar. O homem não era nem velho, nem novo. Era apenas um homem. A contar estrelas: aquela, lá mesmo ao fundo, era a estrela do João, a outra, mesmo ao seu lado, era a da Maria; no meio, lá estava a estrela do sol nascente e, mais abaixo, a estrela da boa vontade. O homem dava nome a todas as estrelas. E todas as estrelas o conheciam por homem. Nenhuma das estrelas sabia o nome do homem, mas todas o chamavam pelo nome.

Olha, lá em cima, tantas estrelas!
Algumas vezes, quando o céu se enfrascava de chuva, as estrelas gritavam: vai para casa, homem, olha que vai chover muito. Mas o homem não ouvia as estrelas. Vi-as a brilhar ou a escurecerem. E, quando as estrelas ficavam escuras, o homem dizia: é a vida! Foram-se. Talvez voltem amanhã.

No dia seguinte, o homem voltava para contar as estrelas. E elas lá estavam, brilhantes, como se o sol estivesse por perto e a noite não tivesse descido. Vai ali a Francisca – dizia o homem. Do lado esquerdo, deve ser o Pedro. Um dia ainda os hei-de juntar – pensava o homem. Mas o homem acabava sempre a noite a contar as estrelas. A ver se faltava alguma, ou se alguma estava fora do seu lugar.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Fazedores de sonhos


                                                                                                                                 ©  Albertina Vaz    


Encontraram-se num vão de escada, disputando o espaço e meia dúzia de cartões que lhes serviam de abrigo. Naquela noite, cada um dormiu de costas voltadas. Não apareceu ninguém com sopa quente e as meninas das carrinhas deviam estar muito ocupadas com outros sem abrigo de outra rua. De noite, a fome apertava tanto que se enroscaram sobre si mesmos até adormecerem.

De manhã, acordaram abraçados e sorriram. Ela tinha uma cara rosada, bem queimada pela aragem fria, e um dente a menos que lhe conferia um ar extravagante e original. Ele vestia todas as camisolas que conseguira encontrar nos caixotes de lixo que, invariavelmente, rebuscava todas as noites. O cabelo espesso e desgrenhado e uns olhos azuis, qual mar pardacento num fim de tarde, tornavam-no um pequeno gigante que se gostava e se amava.

Foram dias e dias de descobertas sem fim – ruas insondáveis, caminhos sem saída e regressos ao ponto de partida, sempre que a noite chegava e o sol se punha. Falavam do presente e guardavam, numa cela fechada, um passado que não queriam partilhar. E sorriam, pedalando pela calçada deserta, num jogo de esconde e de descoberta.

À noite imaginavam presentes para se darem.

- Tenho aqui uma casa branquinha, com lareira acesa e uma estrela na porta da entrada – e desenhava, no ar, os contornos dum sonho que queria materializar.

- Olha, eu tenho aqui uma panela, cheia de sopa, e um café quentinho que vamos beber juntos. Chschschs … Está tão docinho!

- Pois eu quero dar-te um bolo, com passas e nozes, e um cálice de licor – e continuava desenhando no ar, presentes imagináveis que acariciavam a noite fria.

- Para ti tenho aqui os sonhos que a minha avó fazia e o cheirinho da canela no arroz doce que escorre da panela. Cuidado, não te queimes.

Era a noite a seguir ao natal.Do outro lado da rua, uma criança de colo sugava sofregamente o peito de uma mãe que se deixava escorregar da parede ao chão. Um som vazio e um choro chocante marcaram a realidade e destruíram a magia.

- Anda, vamos lá ver se encontramos alguma coisa para ela comer. O menino, se ela não come, também não tem leite e ele já está tão fraquinho. Ontem é que foi natal, hoje temos mas e que ir à vida e mudar este mundo.

Ontem foi a noite dos sonhos e as estrelas no céu anunciaram um caminho de luz. No mundo dos mendigos, partilhou-se a fome e, com um pouco de nada, construiu-se o Natal de todos os dias.


Albertina Vaz ©2016,Aveiro,Portugal

domingo, 3 de julho de 2016

Lembras-te da história da gaivota?

   ©  Albertina Vaz



A lua desenhava-se, como uma bola redonda, no centro do universo. Aquele era o dia em que o sonho se tornava realidade: o menino acabara de chegar. Queria vê-lo crescer, queria crescer com ele. Queria partilhar os sonhos que sonhava, os voos que imaginava e a vida que lhe restava.

Quando ele fizesse vinte anos só a sua memória estaria com ele. Mas a vida seria uma rota feita de descobertas e de dádivas que iam partilhar no tempo.

Deixou que as palavras o fizessem regressar ao futuro e colocou, no papel, o que gostaria de lhe dizer, no dia em que a saudade falasse mais forte. E começou assim:

Lembras-te da história da gaivota?




Uma luz estranha invadiu a minha vida – chegaste. E dei por mim a convidar a esperança para me despertar desta letargia em que me tenho gradeado. Tenho de ir contigo ver o mar. Tenho de te mostrar as ondas a desfazerem-se na areia ondulada da praia deserta. Tenho de te contar a história da gaivota.

Chovia tanto, tanto que a bruma tinha invadido os céus e não se via nada, no curto espaço que se estendia ao redor das dunas. Por entre a areia molhada, eu caminhava sem rumo nem norte. Foi então que encontrei uma gaivota, acabada de nascer. Tinha uma perna partida e uma asa ferida.

Era tão pequenina e tão delicada que até a luz da bruma parecia quebrar-lhe o ténue fio que a prendia à vida. Mal enchia a minha mão. Aconcheguei-a contra o meu peito e levei-a comigo. Cuidei dela, como quem afaga o vento ou acalma a tempestade. E, quase por milagre, começou a erguer a cabecita e a piar.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Ia chegar atrasada

©Albertina Vaz 

Tinha saído a horas mas uma turbulência inopinada obrigara o piloto a esperar nova oportunidade de aterragem. E ali estávamos, em voo planado, a circundar a cidade cujas luzes se começavam a divisar. Tremia de impaciência. Isto era tudo o que não queria e aí estava a realidade: não havia qualquer hipótese – ia chegar atrasada.
Ía chegar atrasada
Atravessei, em passo de corrida, os corredores intermináveis do aeroporto e aguardei, outra vez, numa impaciência sem medida, a bagagem que persistia em aparecer depois de todas as outras. Quase me apetecia sair sem ela mas aquele sentimento de pertença impediu-me de sair dali. Finalmente: lá estava ela.
Só dei por mim quando me vi de novo numa fila interminável. Desta vez era o táxi e todas as pessoas que, à minha frente, faziam questão de chegar, elas também, a horas. Martelava-me na cabeça a certeza de que o avô estava sozinho em casa e lhe tinha prometido que jantaria com ele. Chegas sempre tarde, não vale de nada pedir-te para respeitares as minhas horas. Não tens sequer horas. Nem para mim, nem para ti, nem para ninguém. Vida de viajante não dá felicidade a ninguém.
Esta corrida em que a minha vida se transformara estava a doer-me cada vez mais. Deixei de ter os meus silêncios, as minhas leituras, as palavras que gostava de escrever. Até deixei para trás os olhares, os gostos, os sorrisos.
Estava a chegar e uma chuva miudinha chegava comigo. Como se nada mais bastasse para me desesperar. Até aquela chuva irritante vinha festejar o meu atraso. Meti a chave na fechadura e entrei. A medo e em sofrimento.
Apressei-me nas desculpas: o voo que atrasara, a bagagem que não chegava, muitas
Alva, como a neve
pessoas e poucos táxis e até a chuva. Um turbilhão de palavras. E de desculpas. Só então reparei que o avô, imponentemente, estava sentado no topo da mesa, com um sorriso no rosto, imperturbável. Nem me ouvira sequer. Olhava para um e outro lado e ia distribuindo sorrisos e abraços. Amigos imaginários? Ou simplesmente a doença a avançar?
Olhei à sua volta e percebi que a toalha de renda, bordada pela avó, se espalhava pela mesa. Alva, como a neve. Linda como nenhuma. Tudo estava meticulosamente pensado: o serviço de jantar dos dias de festa, o talher de prata, os copos de cristal. No centro, um arranjo de flores vermelhas pendia de um arabesco, como se de uma cascata se tratasse. Dois candelabros de velas acesas deixavam cair, em gotículas pendentes, a cera que se acumulava num prato que as circundava. O cheiro a cera queimada dava ao ambiente um certo ar de mistério que se tornava envolvente.

sábado, 19 de março de 2016

Não sei que te diga, nem sei se te diga

Albertina Vaz 


Não sei que te diga, nem sei se te diga.
Não sei se sou capaz de falar das palavras, dos dias que corremos juntos, que passeámos de mão dada junto ao rio, que te ouvi e me ouvi, em que te confessei segredos, em que partilhámos sonhos, em que seguraste a minha mão e me levaste a transpor um degrau difícil, um obstáculo penoso.
aquela mão que me segurava
Não sei se sou capaz de recordar aquele sorriso dos teus olhos, aquela mão que me segurava, ou a tua voz grave que me prevenia dos caminhos tortuosos e serenava as minhas dúvidas quando o desconhecido me assustava ou o ignoto me atraía. 
Não sei se vou conseguir esquecer aquelas manhãs de sol, as gaivotas a circularem à nossa volta e os patos em fila a fugirem perseguidos pelo gato e tu e eu a rirmos até cairmos numa alegria feita esperança e sol nascente.
Não sei se ainda me lembro daqueles dias em que as nossas vozes se cruzavam e se digladiavam discordando e discutindo como se o mundo fosse acabar no dia seguinte, ou mesmo naquele dia. Não sei se me recordo dos dias em que nos deitámos de costas voltadas e de testa enrugada como se nunca mais houvesse possibilidade de voltarmos a apertar as nossas mãos.
Não sei se vou esquecer aquele circo repleto de animais e palhaços e acrobatas a que assistíamos juntos saboreando a magia de que tanto gostávamos e o feitiço duma noite diferente em que a tua mão prendia a minha e eu vivia o sonho de estar contigo e estarmos juntos.
Não sei se ainda me lembro da primeira vez que me levaste a ver um filme com uma história de fantasia em que a quimera se transformava em devaneio e a utopia se instalava sem receio, como se a vida de cada um de nós se esgotasse ali, naquele segundo, naquele instante.

segunda-feira, 7 de março de 2016

De flor se escreve Mulher

Albertina Vaz 

Um dia vou sair por aí, bem de madrugada, a colher as flores que brotam da terra esventrada, onde um pingo de chuva fez nascer uma pétala florida. E vou ficar espantada ao desvendar a menina, feita margarida (flor da inocência), que surge do nada e cresce sem dar por isso. E vou perceber que, um dia, ela se veste de anis e acredita numa promessa que caiu do céu, em dia de bonança. Depois, na asa de um pensamento, vou colher um amor-perfeito e a menina será mulher. Aí, vou correr, a pé, pela estrada deserta e descobrir que cada mulher se traja de açucenas, numa angústia de fim de tarde, quando a calma tem cheiros a alfazema e a vida a obriga a colher flores de alecrim que lhe asseguram a coragem premente, num tempo em que o trabalho faz escravos sem direitos nem leis.

Mulher romance, numa amurada, olhando a onda que se desfaz num quase nada, numa campânula feita admiração dos que a vêem e não perdoam o ciúme dum ciclâmen ou o poder duma coroa imperial. E vou cantar a felicidade e passear por entre as flores do campo que quebram a brisa e adoçam a mulher que corre, corre, sem dar por nada ou sem o querer.

Depois, agarra um gladíolo, como um encontro desejado e ergue-se orgulhosa num girassol que se alteia diante da desgraça e se renega quando a rosa branca, menina inocência, vagueia por aí vestindo-se de simplicidade e denudando-se diante da sua irmã a rosa vermelha, senhora paixão.

E lá vai, feita dente de leão, flor da vida, com uma dália ao peito, flor da delicadeza, e um amor ardente dum cravo branco, bem dentro do seu coração. Mulher desejo, mulher beleza, mulher música, mulher certeza e multidão. É nas esquinas, nos becos, no escuro da noite, à beira da estrada que vende o seu corpo e chora aterrada, feita flor de laranjeira, em dia cinzento, que o nevoeiro esmagou na mão. E aquela mágoa vai com ela, pela estrada fora, vai a correr e de mansinho, vai devagar, passa o caminho.

E de mulher se renova em mãe e aceita ser jasmim, flor da bondade sem fim. Colhe um crisântemo branco, flor da verdade e cobre-se com uma dália rosa, cheia de delicadeza. E dias há em que a tristeza a invade e corre a esconder-se num jacinto que se admira num riacho, ou num junquilho que se entrelaça sobre si mesmo e fica para ali a balbuciar violetas e a querer lealdades.

E mulher é mudança e medo e melancolia e mentira e verdade e acaso e afeição. E mulher é amante e rosa vermelha, paixão que germina numa angústia, numa ansiedade, numa ausência dum caminho que se cruza e se trança numa multidão feita criança, num coração ou numa crença duma felicidade que o futuro apetece ou quer.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O PODER NÃO TEM ASAS

Albertina Vaz 


Vagueava pelas ruas da cidade admirando-se por não se cruzar com ninguém. Está cada vez mais só e mais cinzenta a cidade dos homens. Dos homens? Ou dos animais feitos homens? Ou dos homens que parecem animais?
Gostava de admirar uma narceja
Lá estava ele – sempre filosofando como se as narcejas não estivessem ali. E estavam, bem visíveis e bem altivas. Gostava de admirar uma narceja, no seu esplendor recatado, de quem sabe que o é e não aceita que lho digam. Era assim que avistava aquela ave, quando, de manhã, abria a janela do quarto e abraçava mais um dia.
Travava os olhos devagarinho e, pelas frinchas semicerradas, perscrutava o horizonte e descia do longe até junto de si – era aí que encontrava sempre a narceja residente que, queiramos ou não, teimava em não sair dali.
Conjeturara muitas vezes porque é que aquela ave permanecia ali. Às vezes pensava que era o mar que a prendia, outras, imaginava algum macho furtivo que viria de noite, quando todos dormiam, fazer-lhe a corte e desafia-la para voos de terras distantes e mares de paragens longínquas. Mas não – ela ali ficava envelhecendo como tudo à sua volta.
Nem sei mesmo se se dava conta de que o tempo ia passando porque se mantinha,
Valia a pena continuar a esperar?
estática e serena, de olhar parado e ouvido à escuta de alguma coisa ou de alguém que havia de já ter chegado. Mas ainda cá não está. Será que virá algum dia?
Ali à volta tudo parara no tempo e mesmo que alguém resolvesse chorar, doendo de tanto sofrer, ninguém daria conta nem ninguém correria a saber de que se tratava – era como naquelas cidades grandes, onde o barulho camuflava os sentimentos e os pássaros emigravam para longe.
Valeria a pena continuar a esperar? A narceja esperava calmamente cada dia que voltava sempre mesmo depois de uma longa noite, quando a lua se não via e no céu as estrelas deixavam de tremelicar. A narceja estava ali como dantes, quando as ruas tinham cravos e as portadas das janelas se iluminavam cada dia com um tumulto de corridas de roda e risos de crianças, que iam e vinham, apertando num abraço a cidade, num laço que se prende e que não se solta sem dor.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Lamento muito, mas soubeste-me a pouco

Albertina Vaz 

Encontrei-a num tempo frágil, quando a vida parecia ter quebrado todas as cordas e amarras que a prendiam a um ciclo que quis terminar. Falava-me de penas, de sonhos perdidos, de aves sem asas e de imagens sem cor. Falava-me de um espaço em que se sentira presa e de asas que batiam sem voar. Contava-me, minuto a minuto, a caminhada que não fizera no dia em que se prendera – sem o desejar – a uma estrada que não andava e a imobilizara entre o novo e o sol nascente.

Queria ser escutada – e falava como se eu não estivesse ali. Ouvia-a sofregamente como se o deserto – ali tão perto – paralisasse uma nuvem de sombras que não sabia ou não queria tornar reais. Sentíamos o esvoaçar da passarada à nossa volta. Quis apoiar aquela mulher que sentia a chuva a molhar-lhe o rosto e o sol a tisnar-lhe a pele. Outra vez.
Quis vê-la a voar e amei o silêncio da minha voz.

Pediu-me uma mão, um ombro para chorar, uma canção para recordar. E fizemos longas caminhadas ao nascer do sol, quando a brisa chegava e as confidências se enredavam num mar de luz e cor, quando tudo parecia ter parado e o mar se desmanchava em ondas de areia. Fui uma voz que escutava, um livro que se abria, um som que se irmanava. E percebia-a a renascer. Dei-lhe tempo e respeitei o seu desassossego. Quis vê-la a voar e amei o silêncio da minha voz.

O tempo, que tudo sara e tudo esquece, fez com que, um dia, me sentisse a mais e dei-lhe espaço para se revelar – aos outros e a mim.

Foi então que desvendei uma face escondida e alguém que realmente desconhecia – senti que uma flor se desfolhava e as pétalas caiam, como lágrimas colhidas em pingos de sal. Vi uma imagem encoberta, feita de raiva e ambição, espezinhando quem, ao seu lado, lhe estendia a mão. Deixou de sorrir – ria-se dos outros. Já não amava – fechava-se, num turbilhão de corridas e amores. Já não se ouvia, nem ouvia ninguém. Usava os sentimentos como quem amarrota uma folha de papel.

Voltei a encontrá-la, num redopio de fama, procurando auditório e público. Ouviam-na sem a escutarem, lisonjeavam-na sem a apreciar. Tinha olvidado o passado e sabia-se bem.  

Eu é que nunca percebi quanta falsidade lhe cabia no olhar e quanta desilusão semeara por entre as pétalas que espalhei pelo mar.

Albertina Vaz ©2015,Aveiro,Portugal

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Cumplicidades

Albertina Vaz 


Uma poça de água no chão espelha as pontas esguias das árvores onde as folhas começam a rebentar. Há flores por toda a planície e sabe bem pressentir o renascimento que se aproxima. Quem dera que o sol apareça! Faz-nos falta sorrir ou fazer sorrir uma criança…
Vamos chapinhar num
charco de água
Anda, vem comigo, anda daí: vamos chapinhar num charco de água e rir quando nos molharmos e os pingos da lama nos sujarem o vestido que já não vestíamos desde o ano passado. Está frio, eu sei! Mas vamos lá, saborear a água, como quando eu era menina e saía de casa a correr – porque eu podia correr na rua, sabes – e vamos sujar os sapatos e pegar na lama e pintar a cara e fazer asneiras… Só hoje que a mãe não vê!
Anda, vem daí: vamos correr pela praia e atirar areia ao ar e sentir o cheiro a maresia e os pingos das ondas que rodopiam no mar. Vamos senti-las e lamber os braços que sabem a sal e correr, correr – espera por mim, que me dói… eu vou já! Espera aí! Que bom sentir a tua mão na minha e a outra a limpar-me o sal da água e os salpicos das ondas.
Vamos construir um castelo de areia
Vamos construir um castelo de areia: vamos fazer um grande monte e depois dar forma às ameias e fazer um fosso a toda a volta – eu sei, eu sei – uma ponte para a princesa sair ou para o príncipe entrar. Sim, vamos pôr uma bandeira lá na torre mais alta: isso, traz esse pauzito da duna e vamos fazer um desenho neste lenço. Que lindo: esvoaça com o vento. Vamos apanhar conchinhas e fazer uma muralha de rendas à volta das janelas. Olha a bandeira, parece uma nuvem branquinha a descer, a descer e a desfalecer-se lá longe no horizonte, perto do mar…
Deitarmo-nos na areia húmida? Mas depois ficamos todas ensopadas… Vamos lá, tens razão: vamos fazer tudo o que é proibido, hoje! Que lindo o céu – está cheio de nuvens! A correrem dum lado para o outro: aquela parece que sopra nas outras todas. O quê? Achas que sim? Estarão mesmo a brincar às escondidas? És capaz de ter razão…Aquela é um urso? Será? Dizes que vai a correr atrás da menina? Mas eu não vejo menina nenhuma… pois é, já não vejo muito bem! Gosto que vejas por mim: ensinas-me o que eu já não consigo ver.

domingo, 27 de setembro de 2015

Uma tela em branco

Albertina Vaz 


Peguei numa folha – em branco. Dolorosamente branca. Sem um risco, um traço, uma letra.

Era uma folha como outra qualquer. Nem grande, nem pequena. Nem lisa, nem machucada. Uma folha em branco à espera de palavras, ou de traços, ou de cores. E nela falava o silêncio e o silêncio não tinha cor.

Então pintalguei-a de azul e inundei-a de mar. E o mar era uma paz sem limites e uma mancha azul que se alastrava no horizonte. Depois colori-a de verde e fiz nascer um campo de erva fresca, onde duas crianças saltitavam correndo em direção ao infinito.

E fiquei feliz com a minha folha. Já não era uma folha em branco.

Depois procurei os sons e enchia-a de cantos e de poesia, Dois bancos de jardim. Um casal de mãos dadas e as promessas de amor acarinhadas pela esperança duma vida diferente.

A seguir fui procurar os cheiros e soube-me a erva cidreira e a rosmaninho e fiz uma canção de roda com as crianças que me ajudavam a caminhar e soltavam gargalhadas estilhaçando o silêncio e quebrando as barreiras.

E nela falava o silêncio.
Era naquele momento uma folha perfeita – havia o mar, um campo verdinho, duas crianças a brincar, um casal a sonhar e uma avó a reviver. Não faltava lá nada. Era uma folha cheia de vida que se soltara do branco e se enchera de cor.

Um dia porém vieram uns senhores que sabiam de tudo e ditavam as leis. Foram eles que escreveram as palavras e foram apagando as cores. O campo deixou de ser verde porque eles não queriam que fosse cultivado. Os jovens disseram-se adeus, num abraço profundo, e partiram cada um em direções diferentes. E as lágrimas que se soltaram foram inundando os campos e salgando os rios e secando as fontes. As canções já não falavam de esperança e as crianças deixaram de cantar.

Fiquei a olhar a minha folha e quis pintar os pés da avó mas só consegui seguir-lhe os passos, quis descobrir o seu olhar mas só descortinava a sua mente, só e envelhecida, quis pentear-lhe os cabelos mas apenas consegui ler-lhe o  pensamento, quis abrir a sua boca mas só calei as suas palavras, quis pegar nas suas mãos e apenas encontrei o seu destino, quis beijar o seu olhar mas já não ouvia as palavras.

Lavei meu rosto numa gota de orvalho – voltei ao início. Tenho de começar tudo outra vez. 

Albertina Vaz ©2015,Aveiro,Portugal

sábado, 29 de agosto de 2015

Filhos de pais sem filhos

Albertina Vaz 


Encontrei-o num estado deplorável: triste, acabrunhado, deprimido. Mal me olhou, as lágrimas soltaram-se numa torrente infinita. Nem sabia o que lhe havia de dizer. Aquelas palavras de circunstância, aquelas frases que não dizem nada desprenderam-se-me, sem grande convicção. Afinal o que se passara? Seria tão grave assim? Não haveria nenhuma solução?
...do primeiro sorriso, do primeiro
dentinho, dos primeiros passos
Sentei-me a seu lado tentando consolar-lhe uma dor que não sabia donde provinha mas que pressentia ser de uma dimensão sem medida.
Lentamente, soluçando, foi-me falando das suas recordações, do primeiro sorriso, do primeiro dentinho, dos primeiros passos. Dos passeios intermináveis que davam juntos, das conversas que mantinham ao nascer do sol quando se levantavam cedinho e caminhavam à beira mar escutando o barulho das ondas e o silvo das sereias. Das mágoas que desabafavam e das alegrias que partilhavam.
Dos dias em que o ia buscar à cama e o destapava para o acordar, das vezes que rebolavam misturando-se na areia da praia, das gargalhadas que trocavam juntos, das corridas que o obrigava a fazer e até daquela queda quando um dia o atirara – sem querer, claro – contra um carro à beira do passeio. Dessa vez quase ia partindo a cabeça mas até isso se tornara uma diversão. Atiravam-se um por cima do outro, faziam-se intermináveis cócegas e riam – riam muito.
De quem falava afinal?
Estava eu própria a ficar perturbada – falava-me de certeza de alguém muito próximo com quem convivia todos os dias e partilhava muitos segredos. Mas eu sabia que ele nunca tivera uma companheira, namorada ou amiga. Sabia que uma infância difícil e uma juventude perturbada o afastaram da família e quebrara as pontes que o haviam ligado ao outro lado. Sabia-o muito introspetivo, senhor de si mesmo, metido no seu canto, com grandes dificuldades de comunicação, sem grandes amigos e poucos conhecidos.
De quem falava afinal?

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Vermelha, esguia, fora de uso

Albertina Vaz

Queira ou não queira, caí em desuso. Já tive nas minhas mãos os segredos de tantos e de todos. Era vê-los, em fila indiana, aguardando a sua vez, desesperados com o tempo de espera, ali, à minha volta, como se eu pudesse resolver todos os problemas do mundo.

E eu escutava-os com muita atenção, permanecendo em silêncio porque me era exigido o silêncio, guardando segredos, escutando anseios – grandes e pequenos, palavras sem nexo, angústias urgentes.

Vermelha, esguia, fora de uso
Podia contar-vos mil e uma histórias de gente que me procurava para comunicar. A do jovem a quem faltara a mesada que os pais não tinham podido enviar, a da mãe que tinha saudades da filha que já não via há muito, a da filha que só queria ouvir a voz dum amigo, a do amigo que pretendia partilhar sentimentos.

Eram tantos que precisavam de mim para encontrarem quem queriam e ouvir quem não estava ali e de quem sentiam falta. Sentia-me útil e desejada, sentia que tinha uma função importante e necessária. Até que um dia fui ultrapassada por esse instrumento indesejável que passou a fazer parte da vida deles. Deram-me até outro formato mais moderno, mais apelativo – deixei de ser fechada, de ter porta e janelas pequeninas. Passei a ser arejada, apenas com o indispensável para um recado rápido, sem sentimentos nem anseios.

E fomos sendo afastadas dos espaços públicos. Dos milhares que se espalhavam pela cidade restam meia dúzia de outras iguais a mim, sem préstimo e sem jeito. Brevemente virão retirar-me daqui e passarei a ser mais um lixo, no monte de lixo das coisas inúteis. Eu, que já fui a cabine telefónica mais frequentada desta cidade.

                                                                                          Albertina Vaz ©2015,Aveiro,Portugal

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Ontem tive um sonho


Albertina Vaz


Ontem tive um sonho. Mas um sonho é um sonho. Apenas isso. Este era um sonho verde, onde as cores apareciam muito nítidas e mergulhantes. Numa cidade como a nossa é fácil imaginar o azul da ria e o verde que a envolve. É fácil sonhar com a realidade quando ela se interioriza e se incorpora dentro do nosso imaginário.

Sonhei enquanto dormia!
Sonhei que tínhamos uma avenida cheia de árvores frondosas, cobertas de flores brancas e rosadas que da estação nos convidavam para descer à ria e espraiar o olhar até um horizonte sem fim onde o céu se confunde com o mar.

Sonhei que, no Alboi, ainda lá estavam aquelas árvores velhinhas, todas muito bem podadas e que um mágico, envolto em bruma, havia tratado com tanto carinho e sabedoria que floresciam orgulhosamente procurando o azul do nosso céu. Sonhei que o Parque da Cidade voltava a ter crianças, patos e gaivotas douradas e as máquinas tinham desaparecido de vez.

Sonhei que havia verde, muito verde, na nossa cidade e que até o céu espelhava o verde das árvores e o azul da água a correr para o mar.

Sonhei enquanto dormia! E o sono é realmente o espaço em que o imaginário parece real. 

Albertina Vaz ©2015,Aveiro,Portugal

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Retrato do menino enquanto gente


Albertina Vaz


Por aqui! Por aqui. Vire tudo à direita. Um bocadinho mais. Agora para trás, para trás. Mais um bocadinho. Tudo para a frente. Já está. Perfeito! Uma moedinha, por favor.
Aspeto descuidado mas ágil no andar, ele ali está, diariamente, como se dirigir o trânsito
O meu menino é d'oiro...
e, mais concretamente, arranjar um lugar para arrumar um carro, fosse o trabalho mais importante do mundo. E afinal era. Para ele, claro. Era a forma de arranjar uns trocos. E uns trocos representavam uma sandes, uma sopa, um copo. Noutros tempos não lhe chegavam uns trocos. Precisava de muito mais do que trocos para vencer o vício. Mas deixara-se disso. A muito custo, mas deixara. Foram tempos difíceis esses em que tivera de lutar contra um desejo desmedido que nada saciava e tudo exigia. Valeram-lhe, nesse época, aqueles senhores de todas as noites que apareciam com sopa quentinha, um pão e às vezes qualquer coisita mais.
O meu menino é d’oiro/ é d’oiro fino/ Não façam caso/ Que é pequenino.” – cantava lá longe uma voz que não queria ouvir.
Por que começara a drogar-se? Isso era uma longa história com raízes tão longínquas que não sabia se conseguia recordar com clareza. Um dia experimentara, para não se envergonhar perante os amigos. No dia seguinte, quis voltar a viver as sensações do dia anterior. Era só para saber como era aquilo. Não queria ficar dependente. Tinha uma personalidade forte e não era qualquer um ou qualquer coisa que lhe ia destruir a vida. Já nessa época sabia que a dependência era a maior de todas as doenças.
Depois, sem saber como, foi experienciando tudo. E, para poder comprar, foi levando de casa dos pais tudo o que pudesse trocar por aquele pó branco que o arrastava vertiginosamente. Foi há muitos anos: o pai ameaçou tirar-lhe as chaves de casa. Não quis saber e foi então que começou a viver na rua. De expedientes, de pequenos furtos, de assaltos ligeiros. Foi preso. Só são presos os pobres – afirmava. No fundo sabia que não podia continuar a destruir-se e a destruir os que à sua volta circulavam.
O meu menino é d'oiro/D'oiro fagueiro/Hei-de levá-lo no meu veleiro” – era a voz da canção a persegui-lo na noite escura.

domingo, 22 de março de 2015

Utilizando palavras

Albertina Vaz


Era aquela a casa. Não havia dúvida nenhuma. Recortava-se, silenciosa, no horizonte.
...revolvendo páginas e acontecendo
contos 
Há anos que ali não vinha, mas ela lá continuava – mais degradada mas sempre apaziguadora.
Olhei em frente e vi o mar – em tons vermelho acinzentados, assemelhava-se a um vulcão em plena ebulição.
À minha memória regressaram vontades antigas de transgredir – virar as costas e embrenhar-me espuma adentro, sem rumo e sem horas. Do outro lado um campo imenso de papoilas gigantes emergia tingindo de vermelho as ondas salpicadas de sal.

Deixei-me teimosamente ficar ali, revolvendo páginas e acontecendo contos. Estava a escrever de novo e contemplava aquela folha em branco que se enchia de sons e símbolos. Na bruma da tarde a calma instalava-se serenamente.

Albertina Vaz ©2015,Aveiro,Portugal

sexta-feira, 6 de março de 2015

“A obediência está escrita na curva das suas costas” – Mia Couto

Albertina Vaz

Passou a vida no corredor. À espera.
Menina de olhos tristes e ar sereno. Intranquila. Senhora da sua vontade e dona da sua
Menina de olhos tristes e
olhar sereno
vida. Ao lado dos outros meninos era pequenina e saltitante, como uma bola de sabão a deslisar ao sabor do vento. Teve, em tempos, um irmão que lhe pregava rasteiras e a fazia estatelar-se no chão. Um irmão mais velho, mais forte e homem.
Naturalmente tomava a dianteira, como todos os homens lá em casa. Quando saía ele acompanhava o pai, ela, obedientemente, caminhava atrás, com a mãe e as outras mulheres da casa. A obediência nunca fora a dominante da sua personalidade. Mas ia, ou tinha de ir. Aproveitava para pontapear uma pedra ou saltar um charco onde a luz se espalhava. E ouvia sempre alguém chamar-lhe rebelde. Por vezes excedia-se e sujava tudo à volta.
E, de castigo, ficava de pé, no corredor. Até que a ira lhe passasse, até pedir desculpas.
O pai preocupava-se - criança rebelde que não faz o que lhe mandam, tem de ser dobrada!
obedientemente, continuava à
espera, no corredor...
A vida ensinou-a a crescer e a rodopiar por entre as curvas do sol, enganando os pingos de chuva que se mesclavam com a vontade de ter vontade própria. A juventude abriu-lhe horizontes e mostrou-lhe caminhos diversos - aprendeu nos livros que havia gentes que pensavam e que sabiam o que queriam. Ela sabia o que queria também, mas, obedientemente, continuava à espera, no corredor, que a sua vez chegasse.
Um dia deixou de ser menina e achou-se mulher. Puseram-lhe um véu na cabeça, vestiram-na de branco e achou-se bonita. E veio um homem, um outro homem que lhe falou de sonhos e de desempacotar a vida. Pegou-lhe na mão. Fez-lhe promessas, criou-lhe desejos e jurou-lhe uma submissão diferente. Ainda tentou resistir mas voltou a deixar-se ir, a obedecer, a subir a escada depois do homem que lhe falava da cor e da esperança. Na sua cabeça martelava a voz do pai: a mulher tem se submeter à vontade do marido, aceitando e suportando tudo em nome da família.
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