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domingo, 12 de janeiro de 2014

NA MINHA TERRA HÁ UM LARGO… ou (A cidadania dos Velhos)

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação


Os bancos estavam deveras molhados e a chuva continuava a cair em tempo de Outono. Por isso os velhos não ousaram sair de casa e, assim, naquela tarde, o Largo do Bispo estava tristemente deserto.
...tristemente deserto
Só esta circunstância permitia que pardais, gentilmente, expugnassem, àquela hora, o empedrado do largo na sua luta pela sobrevivência, misturando-se com eles folhas caducas das tílias do jardim que se colavam no pavimento em decorações de tristeza. Ou que um cão vadio, andarilho da cidade, ali viesse alçar a perna contra uma floreira uma vez, e outra contra o pedestal da estátua do bispo, para logo se pôr a caminho em passo corrido com destino incerto.
O relógio da torre da igreja bateu as três da tarde e toda a cidade ouviu. Então, em uma qualquer casa, num qualquer beco, uma mulher estaria a dizer ao seu homem:
- Já são três horas e está a chover. Hoje não te governas porque não vai haver “Bispo” para ninguém!
Mas ele não desistia de espreitar pela nesga da janela na esperança de ver, no céu, uma réstia de azul.
...um vulto parado
Se o largo estava morto, o mesmo não se podia dizer da estrada e avenidas contíguas e também dos passeios que o ladeiam. Automóveis deslizavam velozes ou arrancavam ruidosamente à ordem de sinais verdes, incessantes, num sufoco de mau cheiro. E às portas das lojas envolventes fechavam-se e abriam-se guarda-chuvas que, em andamento pelos passeios, produziam uma movimentação ofegante e tristonha.
Misturado neste vaivém, um vulto parado tornava-se uma evidência. Era um homem velho, muito velho, de pé sobre o lancil do passeio no outro lado da estrada oposto ao largo, curvado sobre a bengala e os anos. Na outra mão o guarda-chuva aberto, ao invés de lhe pesar parecia querer suspendê-lo para que se endireitasse um pouco.
Via-se que não era ali que queria ficar por serem frequentes as tentativas de fixar no asfalto da estrada a ponta da bengala.

sábado, 21 de dezembro de 2013

ELE, O NATAL… E EU

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação.


Não fosse uma ou outra gaivota cruzar o ar morno em voo de refúgio da noite e dir-se-ia que a única coisa que mexia, naquele fim de tarde, era o Sol, na sua queda lenta mas perceptível sobre a linha do horizonte, lá para ocidente.
... o dia passaria o testemunho à noite
Dentro em pouco, o dia passaria o testemunho à noite, nessa sucessão de reinados que governam toda a vida na Terra. Mas, antes que isso acontecesse, quiseram as águas da baía de Luanda quedar-se em espelho quase perfeito, parecendo assim que o céu tinha alargado os seus limites para que nele coubessem todas as cores visíveis aos nossos olhos, todas as cores da Natureza, materializadas nas nuvens ricas, profusas, eloquentes…
Em contra-luz, os grandes navios ancorados reflectiam-se nas águas azuis e quedas da baía numa inversão de imagens tão perfeita que suscitaria, num primeiro relance, a visão dramática dum naufrágio colectivo.
Por sua vez, vista dali, a Ilha de Luanda, mais um istmo que uma ilha, estirava-se até à entrada da baía, escondendo dentro de si, como réptil hibernado, traços de vida em formas de silêncio.
Também os guindastes do cais se haviam quedado, adiando as suas evoluções lentas e poderosas. E as pequenas embarcações que sempre animam as águas dos portos no seu vaivém incessante estariam agora, com ou sem os seus homens, amarradas em um qualquer canto do cais.
Tanta quietude assim arrastava consigo um tal silêncio que só não era aterrador porque a Natureza, ela própria, espalhava no ar, em formas de prodígio, um certo odor de santidade.
... seria eu a única forma viva
 daquele cenário?
De pé sobre o tombadilho do meu navio, para além das gaivotas seria eu a única forma viva daquele cenário? Então, uma certa inquietação pôs-me a andar dum lado para o outro, em passos de guerreiro que tomou o campo por abandono, sem conquista…
Na ânsia de ver semelhantes, dei a volta à casaria do navio e espreitei o cais ao qual estávamos atracados. A luz, já um tanto difusa do anoitecer, permitiu-me ainda divisar duas manchas brancas que tamborilavam por sobre, penso eu, grãos de cereal derramado.
Dum contentor para outro, um rato enorme correu, veloz. E um vulto errante, pardo, farejava a borda do cais no desespero do navio perdido.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

FAROL … PRECISA-SE

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação



(tempos de guerra entre irmãos de raça)

É sentado num banco de pedra maltratado por abandonos, junto à praia na Restinga do
Restinga do Lobito
Lobito, Angola, que escrevo para uns amigos.
As águas da baía estão quedas, como sempre, e reflectem de azul com ligeira distorção, as colinas do outro lado. São colinas pardas, moribundas, que só ressuscitam de verde quando caem as raríssimas chuvadas. Aqui, é o deserto do Namibe que se anuncia por perto.
Pelo meio do canal, regressam ao cais, em remadas mais ou menos cadenciadas, algumas chatas de pescadores. Não sei se trazem peixe, mas um deles vem a cantar. Ou a chorar? É que, em Angola o rir e o chorar, muitas vezes, confundem-se.
Uma garça branca
Aqui mesmo à minha frente, uma garça branca de patas mergulhadas no arfar da maré decidiu quedar-se como estátua, esquecida dos céus por algum tempo. Mas não tardará a procurar neles o seu refúgio e o seu destino.
Além, onde o areal se alarga, alguns miúdos brincam em correrias desajeitadas, desengonçados em pernas sem formas porque as suas barrigas andam sempre cheias de pouco ou mesmo de nada.
O sol está nas minhas costas. Não consigo vê-lo devido ao tufo de casuarinas que se interpõem. Mas sei que já está muito baixo no horizonte e adivinho que, neste momento, é uma enorme bola de fogo por entre nuvens de calor.
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