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segunda-feira, 28 de abril de 2014

As vivências de Deolinda com os animais

Tinha acabado o Verão. Ia começar a escola.Era hora de começar a preparar a mala com tudo o que era preciso. A mala?
Como era a mala? Era uma bolsa feita de pano riscado ou então de cotim azul-escuro, ou de lona, que apertava com um botão e tinha uma alça para pendurar ao pescoço.
O que se punha na mala? O que se podia comprar: uma lousa preta, um ponteiro e um caderno de duas linhas para se fazerem as cópias.
A lousa e os ponteiros
O caixilho da lousa tinha um buraquito para se atar um fio e na ponta deste, uma almofadita para se limpar a lousa, quando se errasse alguma conta, isto, quem tinha uma mãe habilidosa para a fazer, porque se não houvesse almofadinha, a lousa era limpa com cuspo e a manga da camisola.
Tudo isto a Deolinda tinha preparado, mas no momento de ir para a escola recebeu um recado do pai: tens de te preparar, porque não vais para a escola. Chega de malandrice; vais mas é trabalhar, que já está bem na hora.Os teus irmãos são pequenos e tu já podes fazer alguma coisa pela família.
Deolinda tinha o destino traçado pelos pais. Ia servir para a casa de uns lavradores.Era uma criança pequena para a idade; atarracada.
Logo que teve conhecimento do seu destino, não ir para a escola, que era onde ela mais gostava de andar, os seus sonos começaram a ser agitados, cheios de pesadelos, que a deixavam sempre amargurada.
Os dias passaram a ficar negros, de tanta tristeza.
Enfim; chegou o dia de se mudar para a casa dos tais lavradores. Logo pela manhã, foi ao quarto buscar o saco, onde levava a pouca roupa que tinha. Com grande tristeza despediu-se dos pequenos irmãos e da mãe.O pai foi levá-la e esse gesto fez com que nunca mais visse o progenitor com carinho.
Lá ficou entregue como se fosse uma mercadoria. Olhava para as pessoas com tristeza o que não passou despercebido à senhora da casa. Com o seu instinto maternal compreendeu-a e a partir daquele momento, fez dela uma filha. Deolinda ficou feliz.
Depois de lhe terem sido distribuídas as tarefas que tinha de fazer todos dias, ela começou a explorar outras coisas em que tinha prazer. Conheceu uma pequenina bezerra que tinha nascido há poucos dias. Foi como um brinquedo. Todos os dias depois das tarefas feitas, ia visitar a sua amiguinha. O próprio animal, quando a via, já se aproximava. Fazia-lhe muitas festinhas, conversava um pouco e só depois ia deitar-se.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Afeição pelos animais

Numa aldeia, humilde como tantas outras, vivia uma criança, franzina e pequena para a sua idade, de seu nome Lídia.Como os pais eram lavradores pobres, ela não tinha tempo de brincar como as outras crianças.
Foi para a escola, mas pouco tempo; tudo o que aprendeu foi porque tinha mesmo muita
A família vivia com
grandes dificuldades
curiosidade e procurava quem lhe explicasse. E como ela tinha vontade de saber mais e andar mais tempo na escola como os outros meninos!
A família vivia com grandes dificuldades; lavradores, com muitos filhos, comendo só o que a terra produzisse e mesmo assim era pouco.
Tinha oito irmãos mais novos que ela. Ajudava os pais no que podia, mas tão pequenina era, que pouco ajudava.
Como referi, andou pouco tempo na escola e logo teve que se fazer à vida, para ajudar no sustento dos irmãos. Mesmo assim aprendeu a ler e a escrever, não se esquecendo das histórias do livro da terceira classe, porque as achava bonitas e também não teve ninguém que lhe ensinasse .Ensinaram-lhe sim, a fazer os trabalhos dos adultos.
Os pais puseram-na a morar, ou seja, ela foi viver e trabalhar para casa de outros lavradores para se sustentar e angariar mais alguma coisa para os irmãos.
Qual era o trabalho desta criança que tinha apenas dez anos, ou menos?
Ela sonhava ser como as outras crianças que andavam na rua a brincar à macaca, a saltar à corda, enfim, brincadeiras que todos gostavam.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Bullying

Os atos que esta palavra tão esquisita referencia e que só há pouco tempo se tem vindo a ouvir e a falar com frequência, existem desde sempre.
Há muitas maneiras de praticar bullying e nos mais diversos lugares, como, por exemplo, na casa onde se habita, partindo de pessoas de quem menos se está à espera.
Aquelas pessoas que todos pensamos amar o seu próximo, que têm obrigação de defender os mais frágeis, aí reside um dilema grande.
A familia parece unida
Há casas onde a família parece unida, sólida, mas onde existe uma mágoa tão grande, um desconforto e até um medo atroz.
Uma rapariga ainda nova, com a matrícula feita na universidade, ia ingressar no curso que tanto prazer lhe dava. Pois essa menina encantou-se com a conversa de um rapaz bem mais maduro que ela, que já tinha ido à guerra do ultramar, namorou e casou debalde os conselhos da família, nomeadamente do pai.
Foi um desgosto grande que o pai teve, mas se era da vontade dela…não podiam fazer nada. Quando o encanto do casamento passou, essa menina passou a viver um verdadeiro inferno. A bebida era muita o que originava mau estar na família toda. Aos poucos foi passando para as agressões verbais.
Entretanto nasceram os filhos que iam assistindo a todas estas situações.Por muito apoio que a família lhe desse, não compensava a tristeza e o sacrifício que ela passava em casa.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Um pastor chamado Horácio

Júlia Sardo

Numa terra distante havia um rapazinho que tinha um grande sonho: ser líder. Ou seja: desde cedo começou por demonstrar, quer a brincar com os companheiros da escola, quer em outras tarefas, a grande paixão de liderar.
Ele queria chefiar sempre
Em qualquer brincadeira de que fizesse parte ou em qualquer evento, ele queria chefiar sempre.
Horácio, assim se chamava o rapazinho, fez a instrução primária, na aldeia natal. Teve como mestre um professor austero, que obrigava os alunos a terem um perfil de bom comportamento. Todos os alunos tinham que ter disciplina.
Horácio era bom aluno, limpo, asseado em todos os seus trabalhos. Era bastante metódico, em todas as tarefas a que se propunha.
Foi fazer o liceu para a cidade mais próxima, acabando-o com distinção.
Entretanto, entrou na universidade, onde continuou a ser um bom aluno, mas já com instinto de se aproximar das pessoas e professores com competências elevadas para ouvir e aprender assuntos que já lhe aguçavam o interesse: onde ele pudesse beber conhecimentos que lhe dessem a possibilidade de subir na vida e de fazer o que mais gostava: liderar.
Com o passar dos tempos ele já liderava no grupo dos mais jovens, ou seja, a juventude que conseguia agregar à sua volta.
Os anos foram passando até que algumas pessoas de muito prestígio, lá da terra, entenderam haver necessidade de alguém, com perfil, para estar à frente do clube de futebol.
Quem escolher para estar à frente deste empreendimento? Foi escolhido o Horácio, por unanimidade.
Claro que ficou muito satisfeito e resolveu criar uma instituição sólida e já com umas certas características para o futuro. As pessoas que o escolheram e confiaram nele não se arrependeriam, dizia ele.
As primeiras infraestruturas foram feitas e tudo correu bem.O relvado foi semeado, regado para que crescesse saudável e rápido.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A casa da minha infância

Júlia Sardo


De vez em quando, para meu espanto, dou por mim a recordar coisas da minha infância. 
A minha memória faz-me visualizar momentos de muita felicidade.A minha mãe estava numa janela, a ver-me com as minhas amigas que, depois da escola, iam para a minha casa brincar.
A casa não era muito grande e estava pintada de branco. Tinha à frente, uma porta, que dava para a sala e, de lado, uma janela pintada de castanho. Era para uma dessas janelas que a minha mãe ia sempre, para ver se nos acontecia algo de mal.
Lá dentro era composta por três quartos, uma sala de estar e uma sala de jantar. Ao centro, um corredor, que dava acesso à cozinha. A cozinha era o lugar onde eu mais gostava de estar, porque a minha mãe foi sempre uma boa cozinheira; era cada petisco, que ela fazia tão bom que, ainda hoje, sinto esses cheiros e os sabores dos seus manjares.
O cheirinho a café de saco...
O cheirinho do café de saco, que ela fazia para as costureiras, que iam lá para casa costurar, chamava a atenção a quem passava.
Como eu estava a falar, a casa não era muito grande mas, para mim, parecia um palácio.
À frente tinha um jardim que, não sendo muito grande, dava para brincar à vontade.
Nesse jardim havia alguns arbustos bonitos, flores e uma oliveira frondosa. Lembro-me de apanhar muitas azeitonas.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

REFLEXÕES SEM TITULO

Júlia Sardo

Perto da minha casa mora uma senhora com quatro filhos. Segundo tive conhecimento, chama-se Rosa e é mãe solteira; mãe carinhosa, doce e sempre com um sorriso nos lábios, embora o coração chore. Tem de batalhar muito para sustentar os seus meninos. Quantas vezes lhe virão as lágrimas aos olhos, por não ter alimentos para lhes dar. A filha mais velhinha, a Margarida, é uma criança linda; cabelo loiro e olhos azul acinzentado. Muito meiga e educada, tenta ajudar a mãe a cuidar dos irmãos. Então tem de ser tudo muito bem organizado; ela própria, para não dar mais ralações à mãe, faz um plano de trabalho. O levantar de mais um dia da semana é bem atarefado. A Margarida trata dos irmãos do meio, o João e o Ricardo, que são muito educados, humildes, mas traquinas. Vão à casa de banho, pobre mas asseada, fazer a higiene para depois se vestirem.

Entretanto tomam o pequeno-almoço, ou seja, o que se pode arranjar.Vão a correr ajudar a Margarida a fazer as camas e arrumar o que ficou no chão. Saem de casa. Os mais velhinhos ficam na escola enquanto a Orquídea vai para a creche. A mãe despede-se dos filhos sempre apressada e vai para o trabalho. Como os filhos almoçam na escola, a Rosa remedeia-se com qualquer coisa, à hora do almoço.

A sua grande preocupação é o bem-estar dos filhos e a sua subsistência. Esta mãe, sempre atarefada com tudo o que está sob sua responsabilidade, não tem um momento de descanso. Os dias, para ela são todos iguais. Não tem tempo de observar e admirar as coisas belas que a Natureza nos proporciona. Ao ter conhecimento da vida da Rosa, lembrei-me da minha, quando trabalhava. Não foi igual à dela, mas também era uma azáfama.
Hoje, que sou avó e estou mais disponível, gosto de observar a Natureza e as coisas belas, que ela nos oferece. Fico bastante tempo olhando as nuvens e a tentar adivinhar com que figuras se parecem.
 
Era como um espelho onde se refletiam os últimos
raios solares
Então, lembrei-me de ir fazer uma pequena visita aos meus netos, na praia da Barra, naquele fim de tarde em que a temperatura estava amena e convidava a sair de casa. Depois de pormos a conversa em dia, contando pequenas novidades, fui tomar um café para a varanda da cozinha. Vê-se o mar. Sentei-me na cadeira de lona e fiquei a observá-lo. Estava calmo. Era como um espelho onde se refletiam os últimos raios solares.
Ao longe, lá no horizonte, vislumbrava-se um barco, que parecia fazer a ligação entre o mar e o céu. Fiquei a observar, deliciada, aproveitando aquela calma. Comecei a ver a tonalidade da água a ficar vermelho alaranjado, pelo desaparecimento daquela bola gigante laranja forte.

De repente, num curto espaço de tempo, o sol escondeu-se totalmente. Que tranquilidade eu senti com aquele bonito pôr de sol. Lembrei-me da Rosa. Como é que esta mãe, com a azáfama que tem no seu dia-a-dia, que anda sempre tão atarefada e preocupada com os filhos, como pode ela observar, admirar e deliciar-se com um bonito pôr de sol? Penso que não. Ela não tem a tranquilidade, nem tempo suficiente para observar as delícias da Natureza, como eu consegui.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

A burra Carriça

Júlia Sardo

Clarita era uma menina que vivia numa aldeia do litoral, com os pais. Era franzina, cabelo loiro
Quem lhe faria estes caracóis?
em caracóis, feitos com papelotes e clara de ovo.Laçarote na cabeça, lá andava ela, sempre traquinas, de um lado para o outro em casa das amigas, mas sempre com autorização da mãe, claro.
Estarão a perguntar: quem lhe faria esses caracóis? Era uma senhora amiga da mãe da Clarita, chamada Clarinda. Era muito habilidosa. Claro que era preciso dormir com os papelotes até ao outro dia. Ficavam muito bonitos.
Como era única filha, procurava sempre a companhia de outras crianças para poder brincar.Perto de sua casa morava uma família que tinha vindo de Angola e que tinha três filhos: uma menina e dois rapazitos.A menina era da idade da Clarita e os dois miúdos eram mais novos.
Durante o dia brincavam todos juntos; umas vezes em casa da Clarita e outras vezes em casa da Hélia, assim se chamava a menina.Eram todos muito amigos, mas por vezes havia aquelas zangas próprias da idade.Essas zangas logo passavam; a amizade era tão grande que, quando iam ao fotógrafo tirar fotografias, queriam tirar com o mesmo vestido.Como não podiam tirar juntas, tirava uma e despia o vestido para de seguida tirar a outra.
O vestidinho era de crepe, verde água, com umas bolinhas brancas e outras, verde mais escuro. Tinha mangas curtas e a rematar o decote, um folho tipo babeiro, como se dizia, branco, muito bem feito. A rematar a bainha tinha um folho como o de cima. Os vestidos eram feitos pelas mães das meninas, que eram muito habilidosas.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O conceito de amizade é muito relativo

Estamos a publicar textos subordinados à temática AMIGOS e AMIZADE. Colabore e remeta-nos o seu texto ou poema inédito para publicação. Ouse! A diversidade fortalece a amizade.  

Júlia Sardo

Para mim, a amizade não é um sentimento que nos «obrigue» a comunicar com a pessoa, ou pessoas, com quem pensamos que a amizade é verdadeira.
A amizade deve ser aquele sentimento que nos leve a ajudar a ou o amigo, quando precisa do nosso apoio.Quantas vezes nos enganam aqueles que juramos, a pés juntos, que são nossos amigos e que nunca nos traem.
Há amizades que se vão formando ao longo dos anos e que se vão consolidando, mas mesmo essas não são, na minha opinião, eficazes.
Fui crescendo como irmã, ou uma amiga muito querida, com um vizinho. Quando já cresciditos, conversávamos muito, sobre os nossos namorados, e sobre os estudos.
Fomos sempre muito amigos. Casámos, fomos ao casamento um do outro e, enfim, a vida, como sempre, encarregou-se de nos afastar, porque cada um seguiu o seu percurso.
Quando nos encontrávamos
era uma festa
Quando nos encontrávamos, cada um com a sua família formada, era uma festa que fazíamos; era tanta a alegria e algazarra, que as pessoas que passavam ou que estavam nas redondezas ficavam a rir.
Até que, para grande tristeza, o pai dele faleceu e eu, como amiga que me prezava de ser, fui imediatamente dar-lhe o meu conforto.
Os anos foram passando e continuávamos a fazer uma festa, quando nos encontrávamos, a dizermos aqueles disparates que só os amigos com muita confiança admitem dizer, sem levar a mal.
Fomos ficando mais velhos e aí mais paródias fazíamos a falar dos nossos cabelos brancos.Entretanto, chegou a minha vez de precisar de uma palavra amiga da parte dele.
Pois, por mais incrível que pareça, a ausência mais sentida foi a dele.Eu desculpava a mesma situação a qualquer pessoa, mas a ele, não.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Guarda o que não presta, porque te pode vir a ser preciso.


Revisitar os Provérbios e, com eles, desnudar o Presente

Júlia Sardo
Também fui revisitar os provérbios e tentar tirar deles alguma lição para os dias que vivemos.
Como é costume, vou à escola buscar os meus netos, no fim do tempo letivo. Está um dia de chuva, terrivelmente dolorosa de aguentar. É o tipo de chuva miudinha, que só aborrece e faz uma humidade horrível.
Quem dá sugestões?
Quando chegámos a casa, e depois de merendarem, fizeram os trabalhos de casa; para não irem logo para a televisão, como é hábito, planeámos um passatempo diferente.
Então eu perguntei-lhes:
– Quem dá sugestões?
O Martim foi o primeiro a lembrar-se de um lugar que me é muito querido.
– Ó, vovó, e se fôssemos para o quarto da escada fazer alguma coisa? Estás sempre a dizer que ele te traz belas recordações…
– Boa. Diz o Levi.
– Ó meninos, eu sugiro ainda mais; por que não vamos até ao sótão bisbilhotar alguma coisa? Pode ser que tenhamos algumas surpresas.
– Ó, vovó, e consegues subir as escadas?
– Vou tentar subir degrau a degrau, agarrando-me ao corrimão.
– O que é o corrimão? Pergunta o Levi.
– É aquela parte de madeira onde as pessoas se podem segurar – explica o Martim.
Lá subimos devagar, sendo eu a última. Quando chegámos, foi uma explosão de alegria.
Baús e malas de cartão antigos
Como só tínhamos a luz da claraboia, foi um pouco difícil começarmo-nos a habituar à penumbra.
Depois de nos termos habituado, foi um tal descobrir baús e malas de cartão antigas.
– Ó, avó, posso abrir esta mala para ver o que está dentro?
– Claro que podes. Tem cuidado ao abrires, pelo tempo que estiveram fechadas, deve ser difícil.
O Martim abriu o baú e explodiu de alegria.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Onde eu gosto de ir


Júlia Sardo

Dou comigo muitas vezes parada junto ao rio, vendo os barquitos de pesca artesanal, andando de um lado para o outro, à procura do melhor lugar para pescar.
Fico absorvida nos meus pensamentos e aí começo a recordar; será recordação ou sonho?
Quando os dias estão calmos
Quando os dias estão calmos de vento e com um sol quentinho, lá vamos, com um lanche bem abastado, um termo cheio de café, passar um dia na pesca. Já no barco, começam-se a preparar as canas, pondo os estropos com os anzóis. Chegados à pescaria, pomos a isca no anzol e aí vai ele, para a água.
Então, começa o tempo de espera, para que o peixe pique. De repente, sente-se um ligeiro tremor na linha e com reflexos, rápidos, dá-se um puxãozinho, para que se for peixe, fique preso pela beiça. Puxa-se a linha, fazendo rodar o carreto, até que ela chegue ao nosso alcance. O peixe, ao sair da água, é tão prateado que parece envolto numa luz. Tira-se o peixe com cuidado, de preferência com um pano na mão, para não haver a surpresa, de uma espetadela. É posto num balde com água da ria, para que se conserve vivo.Tem de se pôr mais isca no anzol para que volte à água.
Ao sair da água todo o peixe é bonito, mas os ruivos são uma delícia. Saem com as barbatanas abertas, parecendo as asas dum pássaro em pleno voo.
E que lindas são as cores das barbatanas! Parecem um arco-íris.
O barco vai ao sabor da maré
Percorremos vários sítios da ria, à procura de mais peixe. Faz-se um arrolado; passo a explicar o que são arrolados, para quem não sabe. O barco, sempre com o motor a trabalhar, mas desengatado, vai ao sabor da maré. A linha, com o anzol deslizando na água vai mexendo devido à marola que faz a água; o peixe, guloso, ao ver algo a mexer-se, toca de se atirar.
É bonita a pesca, porque há silêncio, paz de espírito e sente-se uma serenidade, inigualável.
            Entretanto, ouço a buzina de um barco, que vai a entrar na Barra e desperto dos meus pensamentos? Ou de um sonho?
            Fico triste por não ter estes momentos felizes, mas ao mesmo tempo recordo com saudade tudo o que vivi e o que aprendi.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Avós do meu país


Júlia Sardo

Maria era uma criança gorduchinha de cabelo comprido sempre penteado em trancinhas e presas em feitio de mala. Vestia pobremente, umas sainhas de chita e umas blusinhas com flores, de manga comprida e franzido na cinta, feito com elástico. Era a filha do meio, de um grupo de cinco irmãos. Os pais eram pessoas muito humildes, viviam com muitas dificuldades, por isso não podiam dar uma boa refeição aos filhos. 
Trabalhavam de sol a sol
Trabalhavam de sol a sol e, mesmo assim, tinham de poupar de uns dias para os outros. Coziam o pão de milho, de semana a semana, que era guardado numa caixa de madeira, da mesma maneira que eram outros alimentos.A alimentação deles era quase sempre peixe, que o pai pescava, e batatas, que a mãe semeava no aido, ou uma sopinha de feijão sem ser adubada com carne. Quando o peixe era frito, guardava-se num prato de barro, dentro dum armário pequeno, por causa das moscas, fixo na parede, o chamado mosqueiro.
Dos cinco irmãos, as duas mais velhitas eram as mais sacrificadas, porque não foram aprender as letras, para a escola. Não era obrigatório ir aprender a ler e escrever; isso era um luxo, só para os filhos dos ricos.Ficavam em casa, tratando dos irmãos; faziam alguma coisa para comerem, enquanto os pais trabalhavam até ser noite.


Lavava a roupa
Além da Maria, havia a Custódia, que era a mais velha, a Joana, a Glória e o Manuel, também chamado Manatum, não sei porquê; talvez por ter nascido muito depois das irmãs e ser novito, em relação a elas.
Pois, continuando a falar de Maria; ela foi crescendo e trabalhando para ajudar na lida da casa que, apesar de ser pobre, tinha de ser limpa. O chão da pequena casa era de terra, coberto de junco, que iam buscar aos juncais perto da ria, a borda, como vulgarmente chamavam, e este tinha de ser mexido ou substituído com regularidade. Lavava a roupa, no tripé de madeira, com a água que tirava do poço, com um balde amarrado a uma corda. Punha a roupa lavada numa celha de madeira, para ir secar ou, então, alguma mais suja, tinha de ser posta a corar.

terça-feira, 12 de março de 2013

Vivências da Luisinha


Júlia Sardo

Luísa era uma menina de cinco anos. Era gordita, de pele branquinha, loira e olhos azuis. Era filha única, muito amada pelos pais. O pai, quando a mostrava aos amigos, mostrava um orgulho tão grande que os olhos brilhavam.
Andava sempre cuidadosamente vestida, com vestidinhos bem alegres que a mãe lhe fazia. Laçarote na cabeça, branco ou de seda às riscas coloridas. Eram tão lindas essas fitas…
A Luísa tinha um carinho muito especial pela sua avó paterna, que além de ser avó, era também a madrinha. De forma que estava sempre ansiosa que a avó viesse passar o fim de semana a casa. Ela trabalhava numa empresa e vivia lá durante toda a semana.
Ora, por infelicidade, a mãe da Luísa apanhou uma tuberculose; doença muito contagiosa que, nessa época, existia com bastante intensidade. As pessoas que a contraíam, ou tinham de se afastar ou, então, toda a louça, onde eles comiam, era fervida e as crianças eram afastadas.
Pois foi o que aconteceu à Luísa. Foi viver uns tempos na empresa onde trabalhava a avó. Claro que ela sentia muito a falta da mãe, mas como se sentia bem junto da avó, a saudade era atenuada.
A menina brincava todo o dia, andando atrás dos patos, que corriam por baixo das mesas, onde era posto o bacalhau a secar, em dias de vento. Aproveitava e ia procurar os ninhos onde as patas punham os ovos. Era uma alegria quando encontrava algum. Eram retirados cestos cheios, todos os dias.
Luisinha, como era chamada carinhosamente pelas pessoas amigas, conhecia todos os cantos naquela empresa. Cada armazém tinha um nome: o armazém do peixe sujo, porque era nesse armazém que ia ser lavado nas tinas, e posto em pilhas para ir escorrendo.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O Melro

Júlia Sardo


Ao ler estas simples palavras deve pensar: é a história duma ave. Pensou? Pois está enganado. Melro era o nome de um gato; um verdadeiro gatarrão. De cor parda, uma mistura de cinzento com riscas pretas.
  Era na realidade um gato bonito, de olhos verdes e esbugalhados, grande, gordo, pachorrento e de cauda cortada, mais ou menos, a meio da ponta.Veio de longe; trouxe-o um oficial dos barcos, da pesca longínqua, da Terra Nova.
Veio com o propósito de ser oferecido à minha avó paterna.Era um gato muito mimado e muito senhor do seu nariz. Quando queria estar num determinado lugar, ninguém mais se podia aproximar. Era dono e senhor, apropriando-se desse lugar.
Cheio de manias, fazia-se dono duma cadeira, que tinha uma almofada, bem fofa, de cabedal, que havia no escritório. Houvesse alguém, com audácia, de se sentar nela. O Melro chegava, sentava-se ao lado da pessoa que estivesse na cadeira, olhava-a com olhos bem abertos e bem fixos.
Com esta pose ele assustava de tal maneira, que a pessoa saía.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A importância da cor neste mundo cinzento


Júlia Sardo



Não há dúvida de que a cor é duma importância extrema no mundo.

A cor negra é deprimente; será por isso que as pessoas negras gostam tanto das cores bem garridas para o seu vestuário?Não sei. O certo é que os povos de origem negra são muito mais alegres. Dançam e cantam mesmo quando estão tristes.

Mas cinzento, pode referir-se a escuro, como a tristeza.
O mundo tornou-se cruel. Tantas injustiças que existem neste mundo.
Pois é; o dinheiro envolve tantos negócios e principalmente promove as guerras que despedaçam povos inteiros. A guerra e as guerrilhas sempre existiram ao longo dos tempos, porque a ganância do poder fala mais alto. Já não se estranha se houver uma guerrazinha.

Há por esse mundo fora tanta gente a morrer com fome, à sede e com falta de tudo. Mas a humanidade é arrogante e serve os interesses dos poderosos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Visita Inesperada


Júlia Sardo


Estávamos no verão; o calor apertava durante o dia, refrescando um pouco, ao entardecer. Não me recordo em que dia estávamos. Sei que andava no jardim, a apanhar umas ervitas, que teimavam em aparecer, e a regar.
  Quando levantei a cabeça, a descansar um pouco, vi uma pomba a bicar areia, junto ao portão da garagem.
Chamei a atenção do meu marido que me disse, tratar-se dum pombo-correio, porque nessa altura se faziam concursos de longas distâncias e, também, porque tinha uma anilha, com o número próprio, numa patinha. O animal estava com muita fome e sede. Pusemos uma taça com água e atirámos-lhe milho. Ainda ficou um pouco desconfiada, mas a fome era tanta que resolveu aventurar-se e comer. A partir desse momento, já não fugia de nós.
  Entretanto, ela devia estar tão cansada que se deixou apanhar e o meu marido meteu-a numa   gaiola, grande, com água e comida. Todos os dias íamos ter com ela fazendo-lhe festas, falando, e o animal habituou-se a nós.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Pensar Alto


Júlia Sardo


  Estamos a viver um momento, a nível mundial, bastante grave.
  Esta situação tem consequências muito nefastas, a nível europeu; logo os que mais sofrem são os países com uma economia pobre, como o nosso.
  Muitas vezes dou comigo a pensar nos mais jovens; o que será o futuro deles? Terão futuro?
  O país está num caos; as médias e pequenas empresas estão a fechar sem conseguirem ver algo que lhes dê alento e coragem de continuar a laborar. Fecham as portas e simplesmente dizem aos empregados que não têm possibilidades de continuar. Dizendo isto aos empregados, alguns patrões viram-se para o lado e choram, porque muito sofreram para ter aquele bem, pedindo empréstimos ao banco e agora foi tudo destruído; os seus sonhos e o futuro dos seus filhos. Assim ficam tantas fábricas fechadas, algumas com matéria-prima que ainda lhes dava margem para laborar mais algum tempo.
  Todos os dias encerram postos de trabalho, deixando tantos agregados familiares sem possibilidades de pagarem os encargos a que se tinham comprometido.
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