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domingo, 10 de janeiro de 2016

No rescaldo do Natal

Lena Marília Faria Castanhas


O Natal, na sua essência, faz parte de mim desde que me conheço. A tradição veio do meu pai que a recebeu dos seus antepassados de Amarante. Era indispensável fazer o Presépio, com as figuras guardadas no ano anterior e todas as outras que se iam adquirindo. Ficava dignamente instalado na sala e todos colaborávamos na sua montagem, com entusiasmo, alegria e muita imaginação. Com papel grosso e acastanhado, previamente amarrotado e carregado de musgo, representava-se a paisagem natural com rios e lagos (a água era simulada por um espelho) e colinas. Em local privilegiado, ficava a gruta que alojava o Menino, seus pais, o burro e a vaca e as restantes figuras eram espalhadas pelo espaço sobrante de acordo com a lógica de cada um de nós.
Ao lado, fazia-se a árvore de Natal com um pinheirinho, encimado por uma estrela prateada e enfeitado com fitas e bolas de cores variadas e pequenas velas vermelhas que só os pais podiam acender.
O momento principal do Natal era a ceia, a Consoada. À mesa, posta com requinte, sentava-se a família, vestida para aquela ocasião especial, e algum Amigo que não pudesse, naquela noite, estar com os seus. Nesse dia era permitido conversar, rir, contar histórias e quebrar mais algumas regras de “bem estar à mesa”.
A ementa era sempre a tradicional: sopa de lagareiro, bacalhau cozido com batatas, grelos e ovos, um prato confeccionado com couve troncha e bacalhau, ao qual o meu pai chamava “couvanças” (receita de família) arroz de bacalhau com bolos de bacalhau e arroz de polvo. Não se comia carne e a sobremesa era muito variada: rabanadas. Sonhos, coscorões de forma, torta de laranja, torta de noz, leite creme e pudim.
Na mesa de apoio havia pão de ló com queijo da serra amanteigado, passas, nozes, figos secos e pinhões, bombons e outras guloseimas.
Um pouco antes da meia noite, cada um de nós colocava um dos seus sapatos junto da lareira e ia para a cama porque, quando estivesse a dormir, o Menino Jesus descia pela chaminé e deixava lá um presente.
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