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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Sophia

Helena Maltez



Segundo um desenho a crayon de Carlos Bottelho

Como se um qualquer mistério serenamente fulgisse nos seus olhos
E em seus lábios sussurrasse a folhagem de bosques e jardins

Como se uma alvorada de pássaros voando livremente fora do sonho
Lhe soltasse os cabelos, lhe iluminasse as feições

Como se no interior das coisas ela tocasse a nudez da verdade
E um silêncio aguardasse a voz do poema

Como se cada verso seu fosse raiz e fosse asa.



Helena Maltez ©2016,Aveiro,Portugal

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O anjo da fome

               Uma em cada oito pessoas no planeta passa fome, destaca um relatório divulgado pela ONU em 2013.

    Um dia vi uma colega desmaiar na sala de aula. Sem aparato. Sem aviso prévio. Um busto de criança ruindo sobre o tampo da carteira, é isso que eu recordo. Depois, num quase sussurro, o diagnóstico a passar de boca em boca: fome. A menina padecia de fome.
    Finais da década de 1940. Um tempo de profundas desigualdades sociais. Em muitas aldeias do interior, a pobreza era endémica. Quando o trabalho e o pão faltavam, punha-se a esperança na caridade do próximo. Ou então, com alguma sorte, emigrava-se. Ou então, discretamente, como quem pede desculpa por incomodar, desmaiava-se de fome.
    Segundo Herta Müller, o anjo da fome, quando chega, chega em força. Apedreja os corpos por dentro, derrubando aos poucos o vigor e a dignidade.
    É inverno na minha memória sempre que recordo aquela coleguinha de escola tombando como punhado de neve sobre a carteira. Não há um único som colado à imagem. Porque a fome amordaça as vítimas. Porque a fome labora em silêncio.
Porque a fome labora em silêncio
    Foi nessa manhã, diferente de todas as outras manhãs, que pela primeira vez a minha infância de bem-estar chocou de frente com uma realidade tão próxima mas tão desconhecida. Sendo criança, arquitectei um plano de criança. Como nos contos de fadas, imaginava eu, uma maçã, um pão com marmelada, um chocolate, oferecidos no recreio, iriam magicamente revigorar aquele corpinho desnutrido. Oh, a alegria de ter para dar! Oh, o constrangimento de ser eu a dar, a vergonha de poder envergonhar quem das minhas mãos recebia!
    Cedo, porém, me apercebi de que qualquer semelhança entre a vida e um conto de fadas é mera coincidência. Vindos de várias regiões do planeta, diariamente nos chegavam relatos de conflitos políticos e civis, de gritantes injustiças na distribuição das riquezas, de trabalho forçado, de guerras. Ali estavam foto-reportagens enfatizando tais notícias. Ali estavam, em primeiro plano, corpos desvigorados onde a fome traçara a geometria da morte. 
    Esqueci há muito o nome da coleguinha que, esfaimada, desmaiou sobre o tampo da carteira, mas nunca conseguirei esquecer o gelo que nesse momento encheu a sala de aula, nem o arrepio tatuado na minha pele.
    São sempre anónimas as crianças que chamam a nossa atenção nas imagens ainda hoje captadas em zonas de extrema pobreza. Nos olhos de todas elas, o silêncio exangue da fome. Algumas seguram tigelas vazias. Outras, dobradas como bichos, a boca rente ao chão, tentam aproveitar as migalhas caídas. Outras, esqueletos cambaleantes, mal conseguem prender com o arame dos seus dedos o quase nada que, de tempos a tempos, lhes é caritativamente distribuído.

    O anjo da fome, quando chega, chega implacável. Lança-se em voo picado sobre os milhões de não-eleitos. Nunca são brancas as asas do anjo da fome.

Helena Maltez ©2014,Aveiro,Portugal

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Se bem me lembro

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação



Quem nunca roubou rosas jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas. Cito Clarice Lispector. Li estas suas palavras (aliás, li toda a crónica Cem anos de perdão) com um sorriso nos lábios, sentindo-me conivente, desejosa de peregrinar pelos quatro cantos do passado e recuperar imagens, fazê-las ganhar voz, fazê-las dançar como marionetes na ponta dos meus dedos.
...jogar à macaca
     Se bem me lembro, também eu, em garota, roubei flores. Vivia então numa cidadezinha com sotaque bucólico, onde não faltavam palcos faz-de-conta para lúdicas actuações: saltar à corda, jogar às escondidas, à macaca, ao ringue, ao lencinho.
     Nas cercanias do liceu (que todos nós, aos dez, onze anos, já frequentávamos) ficava o Jardim do Campo. No Campo, havia espaço para os pés correrem, havia um coreto cúmplice das nossas brincadeiras, havia flores, árvores, bancos pintados de verde. Havia também um jardineiro que detestava a garotada. “Ah, seus malandros, se eu vos apanho!” O rosto do homem tinha acentuados traços de caricatura.
 E aquele bigodaço, céus! Aquele bigodaço (descomedidamente adubado, desprimorosamente podado) metia respeito. Como se isso não bastasse, o fulano costumava ilustrar as suas ameaças brandindo uma pá ou um ancinho. “Ah, seus malandros!”
     Nós éramos pré-adolescentes correctos, aprendendo aos poucos a conjugar certos verbos socialmente incorrectos: desafiar, transgredir. Isso incluía: alguma poluição sonora; alguns resíduos escolares à deriva no lago; uma ou outra pegada não ecológica sobre a relva. Pouco mais. A tesoura de poda acirrando o nosso engenho e a nossa ousadia.
...afinal a que sabe um amor-perfeito?
     Eu especializei-me no roubo do amor-perfeito. Um membro da família das Violaceae sem qualquer sentido de humor. Pescocinho curto, semblante pensativo de filósofo de jardim. Talvez por isso mesmo. Ou por haver tantos cerrando fileiras em defesa dos canteiros. Eles à defesa, eu ao ataque. Os joelhos como molas, a mão certeira. Mas só dava mesmo gozo quando o jardineiro presenciava. “Corre, corre, ele vem atrás!” E se eu corria! Arfante, vitoriosa. O amor-perfeito acabava espremidinho entre as folhas de um compêndio, a ganhar pouco a pouco aquela tez desbotada, desidratada, de quem nunca tira o nariz dos livros.
     Há vários meses que o jardineiro me trazia debaixo de olho. “Ai se eu te apanho!” Um dia apanhou mesmo. Portou-se como um inquisidor, disparando ordens por baixo do bigodaço: “Abre as mãos!” “Vira os bolsos do avesso!” “Levanta os braços!” “Sacode a saia!” O amor-perfeito a mordiscar-me a língua, a fazer-me cócegas no céu da boca, mortinho por furar a barreira dos meus dentes. Eu a rir por dentro, a rir por fora, receando deitar tudo a perder. Mas lá me aguentei.
     “A que sabe um amor-perfeito?” Se bem me lembro, muitas vezes me fizeram esta pergunta. Ou variações brejeiras desta pergunta. Todas as minhas respostas se diluíram no tempo. O mistério continua: afinal a que sabe um amor-perfeito?

Helena Maltez ©2014,Aveiro,Portugal

quarta-feira, 26 de junho de 2013

O Fruto da Amizade

EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação



Estamos a publicar textos subordinados à temática AMIGOS e AMIZADE. Colabore e remeta-nos o seu texto ou poema inédito para publicação. Ouse! A diversidade fortalece a amizade.  

Helena Maltez
Nem só com palavras se escreve um poema
Para a Isabel Maria

Nem só com palavras se escreve um poema. As
mãos das mulheres sabem gestos milenares de
rimas e harmonia.  Silenciosamente criam uma
arte que sustenta a vida e ilumina o quotidiano.

Imaginemos o fruto, eterna sinédoque do Paraíso.
Os dedos femininos separando a casca, golpeando
a polpa, conjugando os ingredientes. Ao fogo, então,
lentamente amadurecem cores, odores, sabores.

O que as mãos das mulheres mais tarde guardam em
frascos é sol coalhado, magma de poesia.
O que as bocas escolhidas mais tarde saboreiam é
a perfumada doçura da amizade.

sábado, 20 de abril de 2013

Num comboio regional, à hora de ponta


EVOLUIR agradece ao autor o envio deste texto para publicação

Helena Maltez


O sujeito tinha um corpo anguloso, sem ordenamento territorial. Tudo à balda, das feições ao trajar. Como único adereço, um embrulho de suspeitáveis contornos. Parou um momento junto da porta, topografando o interior da carruagem, e só depois tomou de assalto o lugar mesmo à minha frente. Remexi-me no banco num desassossego de maus agouros. Inquietava-me aquela coisa embrulhada em papel de jornal que o fulano empunhava com aprumo militar. Um facalhão de magarefe? Uma catana? Fosse o que fosse bulia com os arquivos da minha memória, obrigando-me a rever lúgubres imagens televisivas: ataques à mão armada… bombistas embuçados…reféns…explosões. Céus! E se…

Isto é um assalto!
Pus-me a fantasiar um assalto em versão soft, uma espécie de desenrascanço à portuguesa: comboio regional quase lotado… homem sem emprego a chafurdar na crise…arma branca…Estava a minha efabulação prestes a atingir o seu clímax dramático, quando no enredo se veio enredar um segundo suspeito, um tipo grandalhão, com excedentes adiposos e voz de parada militar.
No banco da frente, viajavam agora, traseiro a traseiro, dois alegados terroristas. Arrepiei-me toda.
Que podia eu fazer? Mentalmente tentei rascunhar uma estratégia de defesa: olho atento, ouvido à escuta. Não que a conversa a decorrer fosse minimamente reveladora. Um circuito fechado de fruta, pomares e podas.
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