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segunda-feira, 4 de abril de 2016

Velhos são os trapos

Maria Jorge

Com a esperança de vida a aumentar, tanto a nível particular como a nível oficial, foram criadas diversas condições para as pessoas envelhecerem com mais qualidade de vida.
Proliferaram universidades seniores nos grandes centros urbanos. De norte a sul do país, principalmente na região interior, câmaras, juntas de freguesia e também a comunidade local, criaram condições para ajudar os seniores a terem uma velhice com mais dignidade.
O nosso povo, com as suas características próprias, é multifacetado e, talvez por isso, também de fácil adaptação a novos desafios. E quem, com a nossa idade, já fez desaparecer do nosso cérebro um sonho que nos acompanha desde criança?
Aprender uma nova língua, tocar viola ou outro instrumento qualquer, dançar, fazer jardinagem ou artesanato, ginástica, natação, pintar, conhecer novos sítios e novas gentes, viajar para fora do país, fazer voluntariado, tirar o curso superior que tanto ambicionava e tantas, tantas coisas mais. Pois é, mas, por diversas razões, nunca tivemos possibilidade para isso.
Quantas vezes já não ouvimos alguém dizer: “agora é que eu estou a viver a minha vida” ou então: “temos de aproveitar enquanto temos tempo para isso” e ainda: “agora tenho, para os meus netos, o tempo que nunca tive para os meus filhos”. E que dizer dum grupo de mulheres que se intitulam “as mulheres de Bucos”, todas já reformadas e orientadas por uma estilista, que, desde a criação das ovelhas, passando pela fiação da lã e do acabamento final, fazem peças de vestuário, mostrando ao mundo que aquela arte faz
parte da história dum país e não pode morrer. 
Despedirmo-nos do mundo do trabalho e aceitar a nossa reforma é sermos donos do nosso próprio tempo e, dentro das nossas possibilidades físicas e mentais, poder usufruir daquilo que a vida ainda tem para nos oferecer.
Será pura ilusão o que, de algum tempo a esta parte, está a acontecer no nosso país. Qualquer estação de televisão apresenta diariamente programas com muito pouco conteúdo, todos iguais entre si, mas baseados, segundo estatísticas, nas audiências. 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Sonho de criança

Maria Jorge 

Estávamos em meados da década dos anos cinquenta.
Apesar de a aldeia estar situada no litoral do nosso país, o seu desenvolvimento era muito lento. Com uma grande área de areia roubada ao mar, as pessoas tinham de transformar os terrenos áridos em campos férteis já que daí vinha a sua subsistência. Os recursos eram poucos e lutava-se pela sobrevivência. A exemplo do restante país, havia uma elevada percentagem de analfabetismo nos adultos (principalmente as mulheres, não era obrigatório frequentarem a escola). 
Os homens, os mais corajosos, iam
em grandes barcos...
Os homens, os mais corajosos, iam em grandes barcos, por tempo indeterminado, para os mares de águas gélidas da Gronelândia e Terra Nova para a pesca do bacalhau donde regressavam quando o barco tivesse o peixe necessário; outros emigravam, na sua maioria para Terras de Vera Cruz, donde alguns nunca mais voltaram nem davam notícias; os talvez menos aventureiros dedicavam-se à agricultura e pouco mais.
Para todos, para os que iam e para os que ficavam, a vida era muito dura. 
– Bom dia Sra. Augusta. A Leninha está?
– Bom dia menina. Está sim, mas hoje está muito cansada. Sabes como é, dia que vai ao médico… e hoje foi fazer mais uma radioscopia… mas vai lá, vai lá ter com ela.
– Trago um recado da Professora Julieta.
– Entra, entra, já sabes o caminho. Se estiver a dormir… deixa-a ficar. Depois vens cá mais tarde.
Leninha, uma adolescente com tantos sonhos a povoarem a sua mente, não podia ser igual a tantas outras jovens da sua idade já que um grave problema de saúde a retinha quase sempre no seu quarto. Aquela tosse maldita não a deixava em paz e com tanta falta de forças não podia fazer o que mais gostava.
Um dia os pais levaram-na ao médico e o diagnóstico foi terrível. A tuberculose entrou na
Porque?Porquê eu?
vida daquela família de tão parcos recursos…
– Porquê? Porquê eu? – Perguntava-se a si própria.
Tinha apenas 15 anos…e os seus sonhos? Embora gostasse de poder continuar a estudar teve de ficar apenas com a instrução primária, porque os pais, que viviam exclusivamente da lavoura, não tinham possibilidades económicas; gostava de andar de bicicleta, jogar à macaca, conviver com as jovens da sua idade; bordar; fazer o seu enxoval e sonhava… sonhava com o seu príncipe encantado. Enfim, queria ser igual a tantas jovens da sua idade…mas não podia. Porque haveria de ser diferente?

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Objetos com vida

Maria Jorge 

A vida tramou Joana por diversas vezes. Seu filho único, e o grande amor da sua vida, morreu brutalmente num desastre de automóvel já há um bom par de anos e o seu companheiro deixou-a recentemente. Depois de ter uma vida muito ativa, agora já quase não saía de casa, porque as suas pernas não a deixavam ter a mesma agilidade de outrora. Os dias iam passando lentamente e o seu objetivo era, ao final de cada dia, falar telefonicamente com o neto e os dois bisnetos.
...não é todos os dias que se faz 85 anos.
O dia do seu aniversário estava a aproximar-se e, como este ano coincidia com um fim-de-semana, era a altura ideal para todos se reunirem, até porque não é todos os dias que se faz 85 anos... e quem estaria cá para o ano?
Com o sol a raiar por entre as persianas, adivinhava-se um dia primaveril de domingo. Mas, apesar disso, resolveram comer dentro de casa, até porque o tempo ainda estava muito incerto e não se fossem levantar aquelas nortadas habituais para o meio da tarde o que tornaria tudo desagradável.
Era o dia ideal para Joana tirar da gaveta aquela toalha branca bordada que lhe tinha sido oferecida pela sua avó como prenda de casamento e o serviço de faiança inglesa que só era usado em ocasiões muito especiais.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Um sonho

                                                                                                                                       Maria Jorge

    Joãozinho, igual a tantos outros, de tão irrequieto e curioso, cansava o mais paciente. Próprio de uma criança de 10 anos, estava na idade de todos os porquês. A sua cabecita estava povoada de imensas perguntas e gostava de ter respostas, mas nem sempre tinha êxito. Via coisas na escola com que não concordava, ouvia na TV algumas notícias que o intrigavam mas os seus pais raramente tinham tempo para lhe explicar o porquê daquil
    Mas Joãozinho nunca desistia de satisfazer a sua curiosidade. E quem melhor para o fazer do que a sua avó que já tinha todo o tempo do mundo?
Avó, ando muito intrigado com algumas notícias que tenho visto na TV.
O quê meu filho?
... e chamam a isto racismo.
Nos Estados Unidos, os polícias têm matado miúdos pouco mais velhos do que eu. E depois dizem que são polícias brancos que matam meninos negros e chamam a isto racismo. O que é isso de racismo?
Racismo filho… é um pouco difícil. Sabes que no mundo há crianças que nascem brancas, amarelas, negras, olhos em bico, cabelos louros outros de cabelo escuro liso ou encaracolado, depois quando crescem uns são altos, outros baixos, escolhem a religião que querem seguir, enfim, não somos todos iguais por fora. Vou-te contar uma história verídica, ouve com atenção.
Está bem avó, vou prestar muita atenção para ver se vou ficar sem dúvidas.
Era uma vez um menino que teve um sonho: todos diferentes, todos iguais, independentemente de raças, crenças, religião ou costumes.
E foi assim que em Atlanta, no estado da Geórgia dos Estados Unidos da América, no dia 15 de Janeiro de 1929, nasceu uma criança do sexo masculino e de raça negra, a que legalmente foi dado o nome de Michael King. Mais tarde o seu pai, argumentando que foi incorretamente registado, retificaria o seu nome.
Filho e neto de pastores protestantes batistas, depois de ler diversas passagens da Bíblia, muito cedo e no que se refere à religião, decide seguir os mesmos passos dos seus antepassados. Em 1951, com 22 anos, licenciou-se em Teologia na Morehouse College. Seguidamente fez o doutoramento em Filosofia na Universidade de Boston.

Para além de ser pastor protestante foi um grande ativista político norte-americano
"Eu tenho um sonho!"

contemporâneo. Lutou contra a discriminação racial e tornou-se num dos mais importantes lideres dos movimentos civis dos negros nos Estados Unidos.
Em 1954 foi para a cidade de Montgomery, no estado de Alabama para exercer as suas funções de pastor. Era nesta cidade, na parte Sul dos Estados Unidos da América, que se verificavam os maiores conflitos raciais e após a prisão de uma mulher negra, Rosa Parks, por se recusar dar o lugar a uma mulher branca, começou a sua luta incansável pela igualdade das raças.     
Em 1957 foi fundador e presidente da Conferência da Liderança Cristã do Sul, organizando campanhas pelos direitos civis dos negros, baseadas na filosofia da não-violência.
E foi assim que a partir de 1960, institucionalmente, os negros têm acesso a parques públicos, bibliotecas e restaurantes.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Se bem pensei melhor o fiz

Maria Jorge


Hoje acordei, sentei-me na cama e de repente senti uma vontade desmedida de transgredir, de não fazer nada que tinha planeado no dia anterior.
Esta é a altura do ano em que normalmente faço uma vistoria à minha casa, e, entre outras coisas, revolvo gavetas para depois as deixar um pouco mais desocupadas, dando outro destino às peças que considero mais inúteis para mim e talvez mais úteis para alguém.
Desperdiçar este dia?
Mas… o dia hoje amanheceu radiante com o sol a espreitar pela janela do meu quarto.
Desperdiçar este dia? Nada disso, este trabalho podia esperar. Há coisas muito mais interessantes para fazer, pensei.
Se bem pensei, melhor o fiz. Peguei as chaves do meu carro e desafiei a minha companhia habitual.
Contemplando aquela extensão de mar, fechei os olhos e deixei-me levar pelo silêncio da praia deserta, interrompido de vez em quando apenas por alguma gaivota mais atrevida ou pelo sussurro daquelas pequenas ondas que teimavam em quererem molhar-me os pés.
Regressei a casa ao fim da manhã. Afinal valeu a pena não arrumar gavetas. 

Maria Jorge ©2015,Aveiro,Portugal

sábado, 13 de dezembro de 2014

O meu brinquedo

Maria Jorge

Era uma noite de outono e o frio já começava a ameaçar que tinha vindo para ficar. Era urgente ir chamar a ti Quitéria, porque a Emília já tinha começado com as dores de parto. Para ela já não era novidade: a terceira criança queria nascer e não havia tempo a perder. Começaram os preparativos. Uma panela de água ao lume no borralho, as toalhas em cima da cama e as primeiras roupinhas para o bebé. Seria menina ou menino?
Ao fim de algum tempo e com mais ou menos dificuldade nasceu uma menina, um pouco franzina mas de pulmões bem afinados. Como tinha sido previamente combinado, chamar-se-ia Maria em homenagem a uma tia entretanto falecida.
O meu brinquedo
Maria foi crescendo e como qualquer criança gostava de brincar. Mas à medida que os anos vão passando, um brinquedo faz parte integrante da sua vida, nascendo, crescendo e vivendo com ela. Apesar de não poderem estar um sem o outro, gostam muito de pregar partidas e sustos entre si e a vida tem sido um desafio constante, uma luta minuto a minuto.
Por vezes o brinquedo, já cansado, quer desaparecer da vida de Maria, mas ela agarra-o com toda a força, pede ajuda a quem sabe e pode porque a hora da despedida ainda não chegou. Quando se quer muito a um brinquedo só a presença dele é deveras importante e imprescindível. Sabermos que está ali, junto a nós conforta e faz-nos viver. Não é necessário mais nada. 
Porque no dia em que o meu coração deixar de bater, já nada mais me resta.

Nascemos e morremos sós. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto de viver acompanhado.

Maria Jorge ©2014,Aveiro,Portugal

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A minha cidade


Maria Jorge

A minha cidade é linda. Banhada por uma ria extensíssima, tem uma igreja matriz, capelas e capelinhas; tem cemitério, lar da terceira idade e um centro de saúde; tem escolas,
Tem uma igreja matriz
infantários e escolinhas; tem marina para os barcos de recreio e de pesca; tem terrenos pequenos e grandes de cultivo, uns bem cuidados, outros ao abandono; tem supermercados e lojas, muitas lojas do comércio tradicional, umas já fechadas e outras em vias de fechar; tem espaços verdes, que na sua maioria, servem de casa de banho aos animais de estimação; tem empresas que, cada vez mais, empregam menos pessoas; tem avenidas, praças, pracetas e ruas: pequenas, grandes, particulares, com buracos, sem buracos, umas com os dois sentidos e outras com sentido único; tem prédios, casas para ricos e pobres, antigas e modernas: pequenas, grandes e mansões, umas ocupadas, outras a terem vida e movimento de vez em quando e outras ainda livres para um eventual inquilino ou futuro proprietário.
Em qualquer esquina ou quintal, qual grilo de Barcelona, também aqui no silêncio das noites quentes de verão com os seus melodiosos cânticos, os grilos despertam o ouvido do mais distraído, qual trilhar das cordas de uma guitarra de Coimbra nas mãos dum estudante.
Como em qualquer parte do nosso planeta, também na minha cidade cada família, na sua maioria, tem um animal de estimação.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Outra visão da vida

João morava na capital. Filho único de uma família mediana, na impossibilidade de entrar na Universidade estatal por falta de média, frequentava o segundo ano de economia na Universidade Lusíada. Os pais faziam o sacrifício económico, porque até então João não tinha perdido um único ano. Conheceu a namorada, de seu nome Sofia, na escola secundária e desde então nunca mais se largaram.    
Gostava de se divertir com os amigos
Era um jovem igual a tantos outros, não lhe eram conhecidos vícios, mas gostava de se divertir com os amigos, namorar e ir aos bares do Cais da Rocha aos fins de semana. Aos domingos de manhã, em qualquer época do ano, ia surfar para o Guincho, outra das suas grandes paixões. Remar para uma onda, apanhá-la, envolver-se e acompanhá-la, navegar na crista e meter-se dentro do túnel deslizando ao sabor da mesma era como viver o sonho de sentir o oceano em toda a sua plenitude. O stress duma semana de trabalho estudantil e o caos citadino eram postos para trás das costas. O voo rasante das gaivotas e o barulho das ondas era a perfeita harmonia para uma liberdade total.    
Compreendendo o sacrifício que os pais estavam fazendo, tinha como objetivo principal não chumbar ano nenhum e, mesmo que deixasse alguma disciplina para trás, iria fazê-la no semestre seguinte.  

domingo, 16 de junho de 2013

Um Passeio até à praia

Estamos a publicar textos subordinados à temática AMIGOS e AMIZADE. Colabore e remeta-nos o seu texto ou poema inédito para publicação. Ouse! A diversidade fortalece a amizade.  
Maria Jorge

Depois dum inverno tão rigoroso, o dia amanheceu primaveril e uma ida até à praia para fazer uma caminhada pela areia molhada estava mesmo a apetecer-me. Uma leve brisa sacudia-me os cabelos, assim como o pensamento. Tirei a trela ao meu cão. Também ele, com toda a certeza, gostaria de se presentear com esta aragem, e esticar um pouco as patas, e dar asas à sua imaginação e criatividade.
Um passeio pela praia
Especialmente nestes dias, um passeio pela praia dá-me muita paz e tranquilidade e a paisagem convida-me sempre a uma reflexão. Olhei ao meu redor, muito poucas pessoas, talvez as mais aventureiras, já de fato de banho iam aproveitando os ainda fracos raios solares, outras, principalmente homens e rapazes, no seu passatempo favorito, jogando à bola, e outras ainda, tal como eu, de fato de treino e ténis nas mãos deambulando pelas areias, secas ou molhadas, caminhando por onde lhes desse mais prazer. As gaivotas também nos faziam companhia, sinal que havia peixe por perto, contrariando o ditado “gaivotas em terra, tempestade no mar”. Procurei areia seca para me sentar um pouco. Contemplei até onde a minha vista alcançou a imensidão desse mar tão relaxante quanto perigoso e fixei o meu olhar no vaivém das ondas, ora se afastando, ora se aproximando de mim.
Curiosamente dei por mim a pensar em todas as pessoas que já passaram ou ainda estão
A família não se escolhe
presentes na minha vida. Na família, que, como qualquer ser humano, não a escolhemos, mas é aquela que temos que, com todos os seus defeitos e virtudes, fazemos parte dela e ela de nós. Fomos aprendendo ao longo da vida a amá-la e a respeitá-la, mas, infelizmente, já desapareceram quase todos e quanta falta me fazem! Nos amigos que, esses sim, posso escolher, mas nem sempre o fiz ou faço da melhor maneira. 

sábado, 8 de junho de 2013

Geração grisalha à rasca


Maria Jorge

Uma senhora de 65 anos, vivendo sozinha e já reformada, sofrendo de hipertensão já há alguns anos, toma habitualmente medicação adequada para o controlo da mesma.
O isolamento na falta de saúde
Durante alguns dias começou a sentir sintomas de que algo não estava bem. Resolvendo medir a tensão pôde verificar que a mesma estava bastante alta. Como tinha consulta de rotina marcada para o dia 27 de maio, deslocou-se ao Centro de Saúde para pedir a antecipação da consulta, tendo sido informada que o sistema informático estava avariado e que iria demorar uns dias a ser reparado.
Estando a tomar dosagem de 5mgs de determinado medicamento, podia ir até 20mgs, mas só por indicação médica. Por sua iniciativa dobrou a medicação. Substituiu a água por chá natural próprio para a hipertensão, tomou comprimidos para dormir (a sua hipertensão é de origem nervosa). Mas nada fazia efeito. A tensão continuava a subir. Sábado à tarde, dia 25 de maio, uma vez mais, mediu a mesma: 189 – 101. Entrou em pânico, porque já teve dois pequenos acidentes, felizmente sem sequelas de maior, apenas algumas poucas células cerebrais mortas. Deslocou-se ao hospital de Aveiro a fim de ser observada, por volta das 18:30h.
Fez a sua inscrição, explicando os motivos que a levaram lá. Ficou deveras admirada quando lhe pediram dezoito euros pelo valor da consulta. Quase não acreditando no que estava a ouvir, pediu para lhe repetirem o valor, queria confirmar se estaria a ouvir bem, porque saiu apressada de casa apenas com a preocupação de ser vista por um médico e verificou que não tinha dinheiro, mas resolveu a situação pagando através do Multibanco.
Dirigindo-se para a sala de espera, ficou muito admirada por ver tão poucas pessoas e
...tão poucas pessoas!
pensou que, rapidamente, iria ser atendida. Enquanto esperava foi observando o ambiente. Enfermeiro para cá, enfermeiro para lá, maca para aqui, maca para acolá, mas sempre muito pouco movimento, tudo muito à vontade, com exceção dos doentes impacientemente à espera de serem chamados. Olhou para o relógio e para as pessoas que já lá se encontravam aquando da sua chegada. Pensou que se em mais de uma hora tinham sido chamados apenas três doentes, estaria ali a noite toda para ser vista por um médico de serviço. Seria agora, numa urgência hospitalar, que iria ter um verdadeiro AVC?

quinta-feira, 25 de abril de 2013

25 de Abril


Maria Jorge


Acordei, como habitualmente, às sete da manhã. Podia ficar mais um pouco na cama, mas a minha perna e os meus pés inchados não me deixavam ter a agilidade de há uns meses atrás. A minha barriga crescia a olhos vistos e tudo tinha de ser feito com calma, nada de stresse, tinha-me recomendado o médico. Tudo era programado e pensado: sentar-me um pouco na cama, como que a mentalizar-me das tarefas seguintes. Abrir as persianas e a janela do meu quarto para respirar um pouco, ir à casa de banho, ligar a telefonia e preparar o meu pequeno-almoço. A última tarefa matinal seria tomar banho, vestir-me e ir apanhar os transportes para ir trabalhar. Hoje a refeição seria só para mim, o meu marido tinha ficado de prevenção no quartel. Pelo sol a querer espreitar pelas janelas adivinhava-se uma manhã primaveril.
Entretida a fazer a minha torrada, ouvi um pedido à população. Que seria aquilo? Pus o som mais alto. Para não sairmos de casa? Porquê? Que se estava a passar? Estaria a ouvir bem? E como ia trabalhar? Os apelos eram incessantes para não sairmos de casa… Apesar de morar pertíssimo dos meus sogros não os queria acordar com o que estava ouvindo… E a minha vizinha do esquerdo? Mas ainda era tão cedo… Oh meus Deus o que ia fazer? Não podia entrar em contacto com o meu marido…
As horas iam passando...
As horas foram passando e eu com um dilema para decifrar. Por um lado, devia ir trabalhar, por outro avisavam-nos para não sairmos de casa, para estarmos calmos. Absorta nestes pensamentos, batem-me à porta. Era a minha vizinha do esquerdo que, tal como eu, também estava a ouvir as mesmas notícias, aconselhando-me a não sair de casa “naquele estado”.
Decidi ficar em casa. Liguei a televisão. Programas de entretenimento não havia, filmes também não, notícias tão pouco, apenas com intervalos curtos, o mesmo comunicado à população.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

A Casa dos meus Avós Paternos


Maria Jorge


Agora que as noites são mais longas e a idade vai avançando, sentada à lareira, olhando o crepitar da madeira que me vai aquecendo a casa e o espírito, dou por mim, recuando no tempo, a recordar a minha meninice e o quanto fui feliz em casa dos meus avós, apesar das parcas condições de habitabilidade que a mesma tinha comparada com os tempos de agora, onde, por exemplo, a eletricidade, o saneamento ou a canalização da água eram ainda uma miragem.
Era uma casa pequena
Era uma casa pequena, toda feita em adobe e caiada, mesmo à beira do caminho com uma porta ao meio e duas janelas com portadas interiores. Essa porta só era aberta em dias muito especiais. As janelas correspondiam a duas divisões sendo uma da sala do senhor que era composta por uma mesa que tinha como ornamentação um crucifixo, uma imagem da Nossa Senhora de Fátima, o anjo da guarda, e outras imagens de santos da devoção dos meus avós e ainda por uma lamparina com uma vela que era acesa de vez em quando; duas cadeiras completavam a decoração da sala. A outra janela correspondia ao quarto principal, cuja decoração era composta por uma cama não muito grande, um guarda-fatos, duas mesinhas de cabeceira, uma cómoda e ainda um lavatório em esmalte, que era composto por uma bacia um jarro colocado dentro da bacia e um balde para aparar a água quando era; paralelamente à bacia, um varão onde se colocava uma toalha, que tinha de estar sempre impecavelmente lavada, já que tinha como finalidade ser usada por alguém de referência, como por exemplo, o médico ou o senhor prior.                                                                                            
Este quarto só era usado quando alguém estivesse seriamente doente e precisasse da visita do médico ou ainda onde era depositado alguém que morria enquanto não era levado para o cemitério. Esta divisão comunicava com a sala do senhor que, por sua vez, dava para o interior da casa, onde era o quarto dos meus avós e uma sala grande, com janela para o pátio, que comunicava com a cozinha principal, através duma cortina que servia de porta. No quarto, que não tinha janela, havia apenas uma cama encostada a uma das paredes, uma mesa pequena e baixa que servia de mesa-de-cabeceira onde estava o candeeiro de petróleo, uma arca onde era colocada a roupa de cama e ainda uma cadeira; na sala existia uma mesa grande, servida de bancos corridos de igual tamanho da mesa, um aparador que era ornamentado por papel colorido que era cortado minuciosamente com uma tesoura e que dava efeitos muito bonitos. 

terça-feira, 26 de março de 2013

O Pai Natal existe



Maria Jorge
Bela viveu no seio duma família remediada. Talvez por o seu pai ser uma pessoa pouco presente, uma vez que era embarcado nos barcos de bacalhau e, naquela época, passava meses consecutivos nos bancos da Terra Nova e Gronelândia, a cumplicidade deles era muito grande e o tempo que passava em terra era pouco para estarem juntos, recuperando da ausência, e matarem saudades. No que se refere à mãe, pessoa austera e fria nunca lhe deu liberdade para criar amizades. Nunca recebeu um carinho ou um beijo de boa-noite.
Talvez pelo ambiente familiar e por ter sido tão oprimida pela mãe, Bela era uma criança rebelde e desobediente. Já mulher era muito introvertida e o seu semblante era carregado, aparentando frieza.
Constituiu família e pensa ter sido feliz durante alguns anos. Vivia exclusivamente para a sua nova família e para o trabalho. Amigos? Poucos e esses tinham vindo através do marido, pessoa muito extrovertida e o oposto de Bela.
E, como tudo tem um fim, também o seu casamento acabou. Demorou muito tempo a recompor-se. O castelo que demorou tantos anos a construir e pelo qual tanto lutou, ruiu apenas de um dia para o outro. Sofreu, cometeu erros, alguns grandes, outros enormes. Julgava-se um farrapo, olhava-se ao espelho e não gostava do que via. Afinal porque acreditava tanto nas pessoas que se cruzavam com ela?
“A partir de hoje, vou ser uma pessoa diferente, não vou ser mais enganada, as pessoas não merecem nada” – pensava Bela, mas… só pensava. No outro dia estava a cometer, se não os mesmos, outros erros de menor importância. Porque o seu semblante carregado aparentando frieza esconde um coração carente de afeto e amor ao próximo.
Há poucos anos Bela conheceu um casal que vivia em união de facto. Pouca afinidade tinha com eles, escondia-se um pouco na sua concha.


segunda-feira, 4 de março de 2013

EMOÇÕES


Maria Jorge

Durante muitos anos, Maria viveu num apartamento em que, por necessidade, fechou as varandas, transformando-as em mais espaço aproveitável.
Quando a sua vida se modificou e ficou sozinha, deram-lhe uma cadela, ainda bebé, para lhe fazer companhia.
Foi então que se iniciou uma vivência a duas. Maria levava a Becky à rua para o seu passeio higiénico duas vezes por dia. Como era de pequeno porte, habituou-a a andar sem trela e sempre do lado de dentro do passeio.  Maria e Becky foram amigas inseparáveis durante quinze anos e meio. Por graça, mas com muita seriedade, costumava dizer que era a sua sombra. Sabia quando a dona saía para trabalhar e, portanto, ficava sozinha em casa. Quando chegava o fim de semana já podia sair e passear de carro: era altura de estarem sempre juntas. E como ela sabia tão bem o que se iria passar…Uma não vivia sem a outra. Partilhavam todas as emoções fossem de tristeza ou de alegria. Becky era a sua confidente e como lhe era fiel !!! Se Maria não estava bem psicologicamente, Becky dizia-lhe, à sua maneira, para não ficar triste não saindo do redor dela; se por algum motivo Maria chorava, pedia-lhe colo e secava-lhe as lágrimas, lambendo-lhe a cara. Quando, por qualquer problema de saúde, Maria tinha de ficar retida na cama, ficava ali sem perder, por um instante, a sua dona. E como ela se deliciava, toda enroscada no seu colo a verem televisão …E na cama? Faziam cadeirinha as duas.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Há dias assim...



Maria Jorge


São 8 e 30 da manhã, vou levantar-me. Acordei muito aborrecida, porque dormi muito mal com a chuva a bater nas persianas e a humidade a querer entrar na minha estrutura óssea sem eu lhe ter dado permissão.

O dia vai hoje continuar chuvoso, tal como ontem e no dia anterior e hoje com o complemento de um forte vento.

O Gaspar não pode sair para o pátio e se o fizer, além de se molhar, vem com as patas molhadas para dentro de casa e suja-me tudo. Que maçada…

Não me apetece fazer nada. E tanto eu gostaria de fazer, como por exemplo, ir para o computador e escrever qualquer coisa no nosso blogue…

Vou voltar novamente para a cama esperando que a preguiça desapareça e a vontade volte.

Há dias assim…


domingo, 10 de fevereiro de 2013

Letra N


Maria Jorge


Sou o N de nanar. Como é bom recordar os tempos em que dizia aos meus filhos para irem para a cama.
– Sou o N de narcisista. Há muitos neste país.
– Sou o N de natalidade. Cada vez menos neste mesmo e nosso país.
– Sou o N de Natal. A lareira acesa, a família reunida, crianças meio acordadas, meio a dormir, esperando a meia-noite. Como será este ano?
– Sou o N de natural. Aquilo que procuro ser no meu dia-a-dia.
– Sou o N de navegador. Por mares nunca antes navegados, assim os nossos antepassados criaram um império. Já não há homens como antigamente.
– Sou o N de . Vocabulário atual… Modernices…
– Sou o N de nazismo. Nunca mais!
– Sou o N de necessidade. Cada vez mais…
– Sou o N de negro. Noite de Lua Nova.
– Sou o N de negativo. Estado de espírito de inúmeros portugueses.
– Sou o N de neurologista. Profissão em franca ascensão.
– Sou o N de nível. Gostaria muito de saber onde estou.
– Sou N de noite. Agradável uma noite de Lua Cheia.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Um sonho


 Maria Jorge


Ontem fui para a cama um pouco mais cedo que o habitual. Talvez contagiada pelo tempo chuvoso e frio, estava um tanto ou quanto taciturna e não me apetecia ver TV.
De repente acordei. Olhei para o relógio da mesinha de cabeceira. Marcava três e um quarto da madrugada. Já tinha dormido tanto, sono já não tinha e o que iria fazer até de manhã? Sentei-me e, bem acordada, comecei a sonhar, e regressei à minha meninice.
Eletricidade, gás, água canalizada, novas tecnologias, partidos políticos, democracia, emigração massiva dos nossos quadros técnicos, de famílias completas, de jovens e menos jovens, fome, desemprego? Alguém sabia o que isso era?

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Testemunho na 1ª pessoa

Maria Jorge


Reformei-me do privado com 61 anos de idade e 39 de contribuições para a Segurança Social.
Na altura, pedi uma simulação do que seria a minha reforma. Depois de me apresentarem os cálculos, baseados nas contribuições entregues ao longo de toda uma vida, fizeram-me diversas advertências: não podia nos cinco anos seguintes trabalhar para a mesma entidade patronal ou em qualquer empresa onde figurasse o nome da mesma, quer fosse a tempo parcial ou mesmo grátis; iria sofrer uma penalização por pedir a minha reforma antecipada e ainda, se prosseguisse com a minha petição, não poderia voltar atrás.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Um azar nunca vem só


Maria Jorge

Senão vejamos:

Azar nº 1 – Em Fevereiro de 2009 deram-me um cachorro com apenas 2 meses. Peguei nele, olhei e gostei do que estava ali nos meus braços. Muito dócil, muito brincalhão e, carinhosamente, decidi pôr-lhe o nome de GASPAR.

O meu cão, hoje com 4 anos de idade, já adulto e nada arrogante, sabendo as dificuldades que a dona atravessa, (sim porque o meu cão ouve as notícias e sabe que a dona é reformada) não é nada exigente, apenas quer comer atempadamente, banho de vez em quando e diariamente dar o seu passeio higiénico. Também gosta de receber muita atenção, porque também a dá e até consegue ler o pensamento da dona quando está menos bem.
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