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domingo, 14 de maio de 2017

Os Amigos


© Vitor Sousa


Iniciei em Miranda a minha vida académica.
A escola primária, pré-fabricada em madeira pintada de verde, nasceu num amontoado de granito bordado a giesta e ervas daninhas.
Na aurora da primavera, as giestas coloriam as fragas de amarelo e branco com um perfume tão intenso que as áureas de recorte entre céu e terra ficavam repenicadas de insectos no repasto dos néctares.
Os píncaros deslumbravam o Douro na quietude agreste da imensidão.
Neste labirinto onde o percurso se eleva ao termo, nasceram os primeiros desacatos, paixões, bulhas e desafios que nos cunharam a amizade.
A pedrada era linguagem corrente no afoite de lhe evitar a mazela pelo desvio do corpo no momento exacto, raramente havia uma cabeça rachada…
Recantos de diabrura, desde os primeiros ensaios de tabaco até ao espiar regalado do alívio cauteloso das meninas.
Um dia, o Alfredo, filho do fotógrafo, envergado de mistério, ripou de um semblante de gente grande e com sobrolho levantado, proclamou:
Eu não fumo!
- Olhem para isto!...
Mete a mão no bolso, cresce um palmo, transfigura a face e exibe um maço de cigarros inteirinho, surripiado ao pai durante a sesta.
Eu, no meu canto, fiquei gélido, com a repulsa do cheiro e o engasgo que o dito me propulsa na garganta.
De boca ressequida, dei largas à imaginação à procura da luz que me tirasse de tal embuste sem humilhação.
Transfigurei o desconforto, levantei-me, olhei-o nos olhos com firmeza, puxei de pose altiva e declamei uma retórica longa e convincente sobre os malefícios do tabaco, desde o apego ao vício até à reacção dos pais, se algum dia viessem a saber.
Com determinação, virei as costas e clamei convicto:
- Quem quiser, venha comigo, eu, não fumo!...
Não é que só lá ficaram dois…
Senti pela primeira vez na minha vida, que, omitindo escrúpulos, teria feito empolgante carreira no circo da política.


Vitor Sousa ©2017,Aveiro,Portugal

domingo, 22 de janeiro de 2017

Alabastro


© Vitor Sousa


Opaco, persistente, frágil, compulsivo no descrédito dos valores mundanos, o João soava a Alabastro.
Nascido para carregar penitências, era a personificação das noites revoltas, da febre, das maleitas e de um vómito cáustico oriundo de um qualquer manifesto de repúdio aos deuses ou às contrariedades de bom comportamento.
Opaco,persistente, frágil, o João soava a Alabastro
O seu universo tinha de ser retocado, amarfanhado e reinventado por ele, como se ele fosse o princípio e o fim de todas as coisas na plenitude desordenada do instinto.
A perspectiva da observância era antagónica na captação pictórica do mundo, sempre pautada pelo confronto às verdades absolutas e à força absurda das razões que enjaulam os caminhos.
Era um artesão da alma.
A vista da imensidão, ou a mão pousada no sossego da muralha castelã imprimiam um derrube do temporal, onde todo o rasto histórico é agora. A relação com o outro era fácil, espontânea, afável e curta.
A vivência humana na sua complexidade, imprimia-lhe sempre uma impressão de transacção comercial submersa movida por vómicas cumplicidades sarapintadas a custo por retalhos necrófagos de aparência isenta e sadia.
Até a caridade, supostamente nobre e altruísta era castrada pela contrapartida do amanhã desconhecido, pelo dilema medonho de fazer o bem para garantir o bem-estar sem vir a precisar do pão alheio ou de estender a mão à vergonha do pedir.
Valiam-lhe os bichos, para lhe nortear as contendas e harmonizar a existência.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O Credo

©Vitor Sousa 



Creio o credo que há em mim.
Na morte do um deus sem fim.
Na blasfémia.
No tormento.
No lucifer do momento
Em sítios de assombramento.
Quero crer que haja esperança
Entre as mortes de uma vida
Rasgada, biltre, perdida.
Creio nas ânsias da guerra
Nascidas da inquietação
Do comércio da razão.
Por um punhado de terra.
Por um punhado de deus,
Entre crentes e ateus
Há um mar de afogamento
De cadáveres ao relento.
De crianças que não choram.
Entre as mortes de uma vida
Rasgada, biltre, perdida.
Tragam o sangue inocente
Desta justiça demente
Onde uma mão suja a outra.
Este abismo bolorento,
Vestido das cores do pranto.
Disfarce de raiva leda,
Mascarada de beleza
E cores fortes de alegria.
Entre as mortes de uma vida
Rasgada, biltre, perdida.
Creio o ódio e a vaidade.
Orgulho, horror, vingança.
Na loucura da verdade.
No apogeu da descrença.
Entre as mortes de uma vida
Quero crer que haja esperança…

Vitor Sousa ©2016,Aveiro,Portugal

domingo, 10 de abril de 2016

O Patrão

©Vitor Sousa

O Zé já nem lia os jornais, uma morbidez abafada consumia-o por dentro como um fogo pardo.
O olhar vivo deu lugar a um semblante cabisbaixo, as rugas afagavam-lhe a cara em jeito de carícia de morte.
O Zé já nem lia os jornais
A tenacidade, o desafio e o gozo de intempérie desvaneceram como tarde triste em fim de Outono.
Os bancos levaram-lhe tudo, nem uma casita a cair de madura nas encostas da Lousã, herança do seu avô, escapou à fome métrica dos vampiros.
Deixaram-lhe a mesa, duas cadeiras e a cama no apartamento alugado onde ele ainda chafurda memórias entre cartas, escritos e fotos, de um passado recente.
O Artur, amigo de sempre, entretido com o emaranhado da sua pequena mercearia, estranhou a ausência do Zé.
Meteu pernas à velha escada de madeira e, depois de uma ascensão rangida de três andares, bateu à porta.
O Zé saltou na cadeira num sobressalto pasmado.
Ficou inerte na incerteza da visita…
Quem será? Que lhe quereriam mais?
Uma voz afável e ofegante ouviu-se do outro lado.
- Anda lá Zé, vamos beber um cafezito, abre-me essa porta.
Tremulo a lívido, pouco refeito do susto lá abriu a porta e, em tom de desabafo, diz:
- Ainda bem que vieste, já estava aqui a magicar umas ideias pretas que nem te digo…
...abafar tempestades que lhe
secavam o alento
Lá foram na tagarelice de circunstância, abafar tempestades que lhe secavam o alento.
- Não podes ficar aí a remoer a vida, distrai-te homem!
Ouve lá…Queres que te arranje uma companheira?
Pergunta o Artur em tom de riso.
- Só tu me farias rir, num tempo destes…
A conversa desanuviava o desnorte enquanto beberricavam o café.
O Zé lá ia descarregando a mágoa em sulcos de desespero.
- Sabes Artur, foram quarenta anos de descontos, de trabalhos, de salários, de contas, de medos, de muitos nadas que se transformaram em coisa nenhuma.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

O Actor


Vitor Sousa



Vistam-se os feitiços
Com adereços do esmero
Encimados de cúpula e chapéu.
Pisa o teu palco.
Avance o cenário das miragens
Com muita cor, lua e água limpa.
Tragam escritos de viagens.
Declamem-se etéreas, as paisagens
Açudes negros e profundos.
Medos e ódios imundos.
Amores rosa e violeta
Em clareiras de água benta.
Não te quede o coração
Perante o correr do tempo
Por cansaço ou ilusão
Desgaste ou humilhação.
Perde o teu ar moribundo
E ousa mudar o mundo!
Troca o fio ao sentimento.
Ao racional e ao vento.
Remexe na tradição.
Eleva o teu pensamento
Na procura do encanto.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Se eu fosse deus

Vitor Sousa 
Se eu fosse deus
Barjavel, se fosse deus, faria cantar as árvores e florir os pássaros.
Eu… Faria cantar a assembleia da república em etílicos cacarejos e florir com abundância a testa dos políticos.
Hastes desgarradas, brotadas de rebentos viçosos de tonalidades ímpares passando do vermelho vivo da romã à subtileza romântica do pessegueiro.
O aroma intenso lembraria nevões de amendoeira nas encostas de Foz-Côa, crepitado de cor no bordar florido das cadeiras.
O dinheiro seria trajecto de impressora e memória museológica criado em função da carência da vaidade.
Haveria honorários milionários e gratificações chorudas para os eleitos do momento.
Os políticos honrariam finalmente o propósito hilariante da sua existência.
Divertir o povo!                                                                  
Enfim…Alegações absurdas, de um absurdo incontornável!
Na verdade, se eu fosse deus, honraria o dinheiro como fruto do trabalho e torná-lo-ia obrigatório na partilha com modéstia.
Faria com que os homens nascessem livres e dar-lhes-ia asas para voarem por cima das diferenças.                  
Se eu fosse deus, libertava o homem desta forma de olhar o agora com desdém e deificar o além desconhecido.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

FÁBULA DA RATAZANA

Vitor Sousa 


Quatro da manhã.
O mordiscar da chuva nas telhas de barro criam uma sonoridade surda e embaladora que condiciona “o levantar” do Manel.
A farinha reclama a carícia das mãos e o forno já se impacienta com a chegada do pão na ânsia de o tornar dourado e estaladiço.
- Toca a levantar, Manel, dizia ele, de si para si.
Alem disso, constou-se que o doutor trazia um escrito novo, que prometeu ler em voz alta em primeira estância na padaria.
O sol esboçava já os primeiros ensaios de luz entre as decrepitas chaminés da velha fábrica de cerâmica que destronava o horizonte.
É um circo de vaidades...
Uma leve brisa varria as folhas dormentes do chão e o doutor, depois de uma leve pausa, meteu mão ao punho da porta e entrou.
Olhar discreto, franzino, semblante camiliano, bigode farto e tinto de fumo.
Após um tímido bom dia, inspira, rebusca um eco nas entranhas da alma e sem demora pega no papel que lê enfático de mão tremula:
- Ora, lá vai…
A política, na sua prática actual, é um manifesto de comportamento primário e mesquinho, para privilegiar o ego e o grupo.
Uma versão simplista de comportamento tribal, alheada das carências e necessidades urgentes de uma nação inteira.
É um circo de vaidades e veleidades obscuras.
Alegam-se laivos de importância desmedida na glorificação do ego.
Nada os detêm ao abrigo de uma qualquer legitimidade, de devassar e espezinhar a dignidade de um povo.
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