Elsa Borges
Naquela
noite nem dormira. Nunca a escuridão me incomodara tanto. Como desejara viver
em liberdade, correndo pelos pastos floridos atrás das ovelhas e das cabras,
acompanhada do Fiel que, de orelhas no ar, mal eu assobiava, parecia uma flecha
a correr ao meu encontro. Viver assim para sempre. Sem pressas e sem ambições
de vida de cidade.
Como
ia sentir a falta de chapinhar no ribeiro, sacudindo a terra dos tamancos,
quando ao cair da tarde regressava com o rebanho.
Havia
também aquele amor escondido, no fundo do meu peito, calado e só meu, pelo
filho do vizinho, que todas as manhãs, bem cedo, partia apascentando os seus
animais. Os jogos que fazíamos, as corridas com os cães, em que o meu Fiel
batia sempre o Malhado. E, sobretudo, havia aqueles doces momentos em que ele me
oferecia ramos de flores apanhadas no monte e atados com nagalhos.
Não
havia dúvida, estava mesmo de partida. Quando me levantei, topei logo na cesta
de palha em que a minha mãe tinha metido meia dúzia de trapos, uns tamancos
novos, um xaile e uma capa de burel, que havia de usar lá, para onde me
mandavam, na companhia da minha tia.
Sabia
que ia servir para a mesma casa em que, a irmã mais nova da minha mãe, tinha
servido desde os doze anos.
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| ...o lenço atado no queixo, a cesta na mão... |
– Ainda
tens sorte – dizia-me minha mãe – A tua tia quando foi servir tinha menos dois
anos do que tu. Não tinha lá ninguém conhecido. Comeu o pão que o diabo
amassou, para chegar onde chegou. Tu também podes vir a ser uma senhora.
A
minha mãe devia querer consolar-me. Mas esta era uma forma assustadora de o
fazer. O que quereria dizer com “o pão que o diabo amassou”? Devia ser algo
terrível!
Estava
sentada no canto da mesa, com a malga das sopas, pensando que esta era a última
vez que ali engolia o almoço. A minha garganta tapou, o que tinha na boca veio
fora, quando a minha tia, já com o lenço atado no queixo, a sua cesta na mão, apareceu
para me buscar.
– Anda
rapariga, despacha-te – balbuciou ela numa voz tremida que revelava comoção e
pena – Olha que a carreira está achegar. Nós não somos nenhumas fidalgas, ela
não espera.
Levantei-me,
tentei pegar nos meus trapos. As minhas pernas tremiam e foi quase ao empurrão
que a minha mãe me pôs para fora de casa:
– Vai,
cachopa, faz-te à vida, ou queres viver nesta miséria para sempre?



