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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

LOUVY


Conceição Cação 


Aquele frango a rodar, douradinho, ali mesmo à frente dos olhos. Sentava-se a contemplar o petisco, não arredava pé, ali ficava quietinho, só os olhos acompanhando o movimento rotativo do espeto. Tão perto e tão longe! O cheiro apetitoso enchia a cozinha e invadia-lhe as narinas, mas a robustez daquele vidro tornava o forno uma fortaleza inexpugnável. Uma provocação! Eles comiam do bom e do melhor e para ele sempre aquela ração. Que era a recomendada pelo veterinário, que tinha os nutrientes certos para se manter saudável e patati patatá. Pois sim, estava farto dessa conversa. Nas suas longas horas de lazer, a ampla cabeça repousando na almofada do Mickey surripiada do quarto das miúdas,  começou a congeminar uma ideia… E tomou uma decisão. Naquele dia, após o passeio matinal, recusou-se a tomar o pequeno almoço – a imagem daquela carninha suculenta povoava-lhe o cérebro, absorvia-lhe por completo o pensamento, só de olhar para aquela mistela pardacenta ficava com o estômago em rebuliço.
...ficava com o estômago em rebuliço
– Que se passa, Louvy? Estás sem apetite?
– Ão, ão, ão…
Tentou uma entoação de protesto, mas sem sucesso. Vendo bem, melhor assim – não levantaria suspeitas. Fingindo dormitar, ficou à espera duma oportunidade. E ali estava ela: depois de temperar uns bifinhos de vitela bem tenrinhos, a Belita foi à porta. Era uma vizinha. O cheiro inundava o corredor… Não havia que hesitar, não podia recusar essa dádiva do destino. Hum! Que aspeto delicioso! Mesmo crus, aposto que não são menos saborosos que o frango. E comeu, comeu, saboreando cada bocadinho como se fosse a satisfação dum último desejo dum condenado.
Ao regressar, a dona encontrou-o a tremer, a tremer descontroladamente.

domingo, 1 de março de 2015

“Abre os armários, arruma no vazio das prateleiras o vazio que está dentro dela.” - Mia Couto

Conceição Cação

A decisão estava tomada, nada nem ninguém poderia alterá-la. Acabava ali a luta sem tréguas travada anos a fio. Estava exausta, mas sentia-se finalmente apaziguada, liberta. Na mente iluminada por uma lucidez que há muito não experimentava o plano começou a desenhar-se.
Os caixotes guardados na arrecadação, após a mudança ainda tão recente para aquela casa, foram descendo para a sala e ali ficaram perfilados como servos fiéis, aguardando com expectativa o seu novo destino.
Lenta, mas regularmente, como um autómato, foi depositando neles as roupas elegantes, os livros, as louças, fotografias, recordações de viagens… Enfim, todos os objetos que a tinham rodeado, mas que já não sentia como seus. Foi sem emoção que
Foi sem emoção que reviu a coleira
colocou num cantinho uma coleira da Golden Retriever de pelo de seda e olhar doce, agora numa casa a que ainda não se habituara, recordando com saudade os passeios com a dona, o Espera um pouco que a mamã já vem quando tinha de esperar à entrada duma loja Foi com a mesma indiferença que  depositou num pequeno cofre os vários diplomas e com eles todo o sucesso académico e profissional, os documentos, as recordações mais íntimas, os laços de ternura sempre tão  fácil e bruscamente desatados…
          O dia acordou radioso, o sol da manhã inundou-lhe a casa. Que importava? – o coração carregava o outono mais sombrio, toda a melancolia daquele novembro que estava prestes a despedir-se …  Iria fazer o que tinha de ser feito. Mas não era ainda o momento: demasiada luz, muito bulício… O ritual requeria recolhimento, confiar-se-ia às sombras da noite.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Salvei os Clássicos!

Conceição Cação

Uma onda de calor invade-me o rosto, o coração bate aceleradamente… Sem ressentimento pela minha longa ausência, o Bairro Norton de Matos (o meu Bairro
Bairro Norton de Matos
Marechal Carmona) abre-se-me como um livro de história, de estórias. A dominar a colina, acolhe-nos, prazenteira, a rua de Angola. A emoção em crescendo, caminho ao longo do passeio empedrado. Como num espelho, os raios de sol miram-se na calçada polida; mais além, pedras soltas clamam pela mão que as enquadre no puzzle e faça renascer a estrela que deixaram apagar. Como num índice, vão-se apresentando as ruas principais que, bem alinhadas, terão o seu epílogo na rua de Moçambique, contracapa deste livro de páginas de betão. Entro na rua Vasco da Gama. As mesmas vivendas de outros tempos, bem conservadas, quase todas mantêm a traça inicial. Agrada-me ver que este bairro, resistindo à febre imobiliária, soube preservar o seu património e a qualidade de vida dos seus moradores. Lá está a casa da Maria João, mais além a da Arlete… Onde estarão as minhas colegas do liceu? Os jardins, bem cuidados, lembram-me que ali a vida continua a fluir, aquelas paredes vão acumulando décadas de memórias, enquanto acolhem no seu seio geração após geração. Viro à direita para a rua Bartolomeu Dias… Sim, toda a toponímia evoca os tempos áureos dos descobrimentos, do império, bem ao gosto do Estado Novo.
Chegámos agora a um pequeno jardim – vários bancos de pedra, um retângulo de relva ao centro bordejado de petúnias multicores; dois renques de árvores frondosas
...um pequeno jardim
prontas a oferecer sombra a alguém que, passando, ali queira aliviar o cansaço ou simplesmente deleitar-se com aquele pedacinho de paraíso. Num painel de azulejo, pode ler-se Praça da Índia Portuguesa. Anacronismo e quietude a transportarem-nos para outras eras.
De súbito, duma moradia em obras, dá-se início a um martelar incessante. É melhor afastarmo-nos. Mas inesperadamente algo nos detém – junto dum contentor verde, em cima dum pequeno muro, vários livros, alguns deles dentro dum saco de supermercado. Livros de capa rígida… Vejamos: Contos da Cantuária – sim, o conto do Moleiro, da Freira… Parece-me um sonho! Quantas recordações me despertam! E que mais? Ah! Balzac, Fielding, Galland, Dostoievski, Tolstoi. Olha, estão novos, até parece que nunca foram folheados! Porque terão ido parar ali? 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Eu, Vaidoso

Que bom o cheiro do mato! Passava o ano a sonhar com a época da caça: via-me a saltitar por entre os pinheiros, a farejar as urzes rasteiras, nem sentia as picadas dos tojos de bicos aguçados quais lanceiros em permanente emboscada. E que excitação quando descobria o coelho alapado na lura ou escondido numa moita! Obrigava-o a sair e, com a adrenalina ao rubro, movia-lhe uma perseguição sem tréguas que habitualmente era coroada pelo tiro certeiro da espingarda.
A abertura da época era um dia de festa. Mal despontava o sol, o Tó, habitualmente pouco
Eu e as minhas cadelas
madrugador, cheio de entusiasmo, fazia a chamada:” Vaidoso, Joaninha, Pintada de Fresco!” De cauda a abanar e orelhas em riste, não contendo a nossa alegria, acercávamo-nos do portão. Que alvoroço! Passávamos as ruas da aldeia num alarido que despertava todas as atenções. O Beto, ainda adolescente, já ia tocando a trompa. O que ele se divertia quando alguma dona de casa, confundindo o toque com o do peixeiro, acorria de prato na mão. Certa vez, fingindo-se zangada, a Ti Ressurreição, no seu jeito virulento, disparou-lhe uma rajada de palavrões. Foi uma risada. Muito loucos aqueles rapazes!
O início do outono, habitualmente soalheiro, convidava a almoço na mata. As meninas carregavam os cestos até ao local combinado – o Padeiro. Ali, sentados nos valados musgosos, comia-se apressadamente aquele almoço que bem merecia uma degustação mais prolongada. Mas não havia tempo a perder.
Aqueles coelhos e perdizes...
eram também os nossos troféus
Ao pôr do sol regressávamos a casa, cansados, mas orgulhosos – aqueles coelhos e perdizes que pendiam dos cinturões deles eram também os nossos troféus.
O entusiasmo repetia-se época fora aos domingos e feriados e sempre que o Manuel, ao fim do dia, conseguia fazer uma escapadinha ao Vale Ramalheiro ou, quando muito, até ao Monte Sol. Lá ia eu, o líder da matilha, e as minhas cadelas. Calcorreávamos os carreiros pedregosos, galgávamos silveiras, dessedentávamo-nos nos regatos, passávamos a vau as azinhagas já transformadas em ribeiros pelas pesadas chuvas do inverno. Para atenuar a fome, às vezes só umas côdeas – ainda me cresce água na boca quando penso na broa doce que a Emília fazia na época dos Santos. Nem a fome fazia abrandar o meu entusiasmo. Mas um dia tudo mudou, um dia sinistro. Olhem, foi no Padeiro: ia eu a correr encosta acima a perseguir um coelho, os olhos do Manuel, encandeados pelos raios do sol, que se despedia, confundiram-se. Senti uma saraivada de chumbo a varar-me os flancos e tombei desamparado entre as moitas, desmaiado. Quando acordei, o sol já se escondera por trás dos montes, um manto negro de silêncio envolveu-me a alma, que parecia querer despedir-se do meu corpo destroçado. “Ai Vaidoso, Vaidoso, chegou a tua hora!”

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Por falar em violência…

A sala, nova e generosamente iluminada pela luz do sol, franqueada por duas janelas rasgadas, bem podia ter sido um local acolhedor. 
... um fogão a lenha
A um canto, um fogão a lenha, oferecia-se para nos mimar com um pouco de calor nos invernos demasiado rigorosos para os nossos agasalhos tão singelos. Mas tudo à nossa volta era frio e impessoal. Na frente, sobre o quadro preto, as fotografias emolduradas de Oliveira Salazar e Américo Thomaz impunham-se aos nossos olhos indefesos. A meio da parede, entre os dois - que mais pareciam o bom e o mau ladrão - um Cristo agonizante, na cruz.
Era neste cenário que pontificava a D. Cândida. Cândida? Que nome desajustado! Confirma bem o caráter arbitrário do signo linguístico! A residir e a lecionar na aldeia há duas gerações, era vulgarmente apelidada de “a senhora velha”. Sem qualquer sentido pejorativo, esta designação, a um tempo, ingénua e rude, servia para a distinguir dos professores e professoras dos rapazes, sempre mais jovens, que nunca por lá permaneciam por muito tempo. 
Ninguém discordava dos seus
métodos repressivos
Comparada com os seus colegas, a “senhora velha”, de acordo com os parâmetros do povo, ganhava-lhes invariavelmente aos pontos - pela assiduidade e pontualidade, pelos resultados dos alunos, mais visíveis nos exames, onde, segundo dizia, nunca sofrera uma reprovação e o desempenho variava entre o Bom e o Excelente. Era considerada uma professora modelar, com uma autoridade que ninguém ousaria contestar. Ninguém dava mostras de discordar dos seus métodos repressivos, o que aumentava ainda mais a nossa fragilidade e vulnerabilidade perante ela.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Bizarros?!

Vamos retomar hoje o ciclo denominado “Violência sobre o ser humano”, após interrupção devida à época de Natal em que entendemos publicar textos com temáticas alusivas à época.

Voltamos a convidar todos os que queiram escrever sobre este tema e queremos dizer-vos que estão ainda a tempo de enviar os vossos trabalhos.

O dia seguinte seria igualmente quente – assim o fazia prever o calendário, assim o prometia o vermelho-alaranjado do poente. Através da janela, chegara-nos o apelo da beleza daquele semicírculo verdejante a quebrar a palidez monótona dos prédios em redor – sentir a frescura daquele retalho de natureza num fim de tarde cálida. E aí estávamos nós, neste cenário cheio de cor, numa conversa a meia-voz. Um taisez vous (Calem-se) disparado do alto dum quinto andar, impôs o silêncio.
Em frente, do outro lado da rua, o parque infantil – baloiços imobilizados, escorregas vazios, cavalinhos paralisados, portão encerrado… O que ainda há pouco transbordava de alegria e animação era agora vazio, inutilidade. Também os jovens plátanos, alinhados no passeio, pareciam invadidos por uma rigidez de pedra – nem o pipilar dum pássaro, nem o bulir dum ramo… Próximo do parque infantil, encimando uma coluna de mármore, um relógio moderno, de ponteiros esguios, rodando, num rodar lento mas constante, parecia sussurrar: Carpe diem! (Aproveita o dia!). Aquela quietude, feita de isolamento e ausência, fez-me sentir saudades da minha rua: branqueadas pelo tempo e pela distância, até as vozes boçais dos jogadores de cartas do café da esquina ressoavam na minha memória como acordes harmoniosos. E se fôssemos à Défense? Lojas luxuosas, pessoas que entram, que saem, que se apressam, que se detêm em frente às montras; parisienses, turistas, emigrantes, árabes, africanos, marcas dum império que se desfez… Alta costura francesa, saris, burcas, lenços, bonés, quipás … Não, nada de cosmopolitismo exacerbado, o silêncio começava a contagiar-nos. Ali bem perto, o mercado do Moulin de Chantecoq e as ruas circundantes afiguravam-se-nos como uma boa alternativa – desfrutar da calma do crepúsculo e contemplar, lá do alto, a elegância da Torre Eiffel; o orgulhoso Arco do Triunfo; mais além, a dominar a elevação de Montmartre, a religiosidade do Sacré Coeur; todo o encanto da cidade-luz nesse tempo misterioso em que o dia se despede e a noite avança docemente.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

S. Pedro e o Escudo

Histórias Tradicionais

Hoje damos início à publicação de textos elaborados a partir da
RECRIAÇÃO de NARRATIVAS TRADICIONAIS. 

Colabore e remeta-nos o seu texto recriado para publicação. Ouse! A polifonia rasga horizontes.

Histórias Tradicionais
Conceição Cação

A seus pés, as casas iam ficando cada vez mais pequenas, as estradas e rios eram agora simples linhas a separar aqueles aglomerados urbanos e até a Mesquita de Al-Aqsa, de cúpula dourada, ia abdicando da sua imponência. Visto assim, de cima, todo aquele território se assemelhava a um puzzle colossal que um gigante com alma de menino tivesse acabado de encaixar. Nem sinais de guerra, nem vestígios de ódio.
O avião rasgava agora aquele imenso mar de algodão, generosamente iluminado pelos raios de sol, que refulgiam no metálico das asas.  
Porquê esta viagem a Portugal?
− Já vos sigo há tanto tempo, Mestre, e não parais de me surpreender. Porquê esta viagem a Portugal?
E Cristo pensou no carinho que sempre dedicou a este povo, desde os primórdios da nacionalidade. O próprio D. Afonso Henriques tinha beneficiado do seu auxílio, em forma de aprovação e encorajamento, ao aparecer-lhe antes da batalha de Ourique. Outros tempos! Não, não podia abandoná-lo assim neste momento crucial da sua história.
− Já tentei ajudá-los de várias formas, até enviei uma legião de anjos e nada.
− Mas… têm lá a troika.
− Com perdão de Meu Pai, que se lixe a troika!
− Já ouvi falar do Gaspar. Ele é um dos que, em Belém, vos ofereceram…
− Não, homem, esse Gaspar é outro. Não ofereceu nada, só tirou. Quando teve a pasta das finanças, eram só cortes e mais cortes… Já se demitiu. Demorou mais dum ano para perceber que estava errado…
− E o de Santa Comba? Lembrai-vos que tendes o poder de ressuscitar os mortos.
Vade retro, Satanás. Quereis que o povo volte a ter 40 anos de ditadura?
− Não, Mestre. Mas dizem que foi um bom ministro das finanças…
− Nem pensar! O homem já expiou a sua culpa no purgatório por ter sido um ditador. Incumbi-lo de equilibrar aquelas finanças, equivaleria ao inferno. Não pode ser condenado duas vezes pelo mesmo crime.

− Estamos quase a chegar. Ainda bem. Estou cheio de fome. Estas companhias de low cost…
− Que queres, Pedro? O nosso orçamento não dá para mais.
− Mas não poderiam, pelo menos, oferecer-nos um voo em económica na TAP?
− Vê-se que não conheces aqueles políticos. São uns ingratos. Lembras-te dos esforços que eu fiz para conseguir que a TAP não fosse vendida àquele russo colombiano brasileiro?
Nunca usastes tanto as redes sociais
− Se lembro, Senhor! Movestes Céus e Terra: recorrestes a todos os vossos contactos; mobilizastes todas as influências; foram mensagens, apelos… Nunca usastes tanto as redes sociais.
− É verdade, Pedro. E olha que deles não tive nem um like.
− Mas… Vamos aterrar na Portela?!
− Claro, em Alcochete jamais!

sábado, 22 de junho de 2013

Deixa-te disso, Felisbela!

Estamos a publicar textos subordinados à temática AMIGOS e AMIZADE. Colabore e remeta-nos o seu texto ou poema inédito para publicação. Ouse! A diversidade fortalece a amizade.  


Conceição Cação

Corpo esguio, membros delgados de veias azuladas a sobressair na pele macilenta, pescoço alto, encimado por um rosto sempre em remodelação ─ eis a minha amiga Felisbela. Abençoada com um rosto perfeito e um corpo elegante, rejeitou sempre as imperfeições com
Obcecada pela aparência...
que o tempo patenteia implacavelmente a sua passagem, mantendo, com ele, uma luta encarniçada da qual teima em sair vencedora. Num esforço desmedido e cego contra adversário tão poderoso, foi gastando recursos, esgotando energia, sacrificando outros interesses, paulatinamente abandonados, adulterando a sua própria identidade. Obcecada pela aparência, renunciou à boa comida, ao convívio, aos amigos…
Quando se aproxima, esperando de mim, um elogio à sua elegância, emudeço, reprimo uma lágrima. Em jeito de vingança, pelo meu silêncio, a Felisbela lança-me olhares e palavras de desdém, visando as marcas com que o tempo me presenteou. Por trás do ar altivo, percebe-se, cada vez mais, naquele rosto uma expressão, de insatisfação, de melancolia…
Sinto uma profunda saudade da minha amiga Felisbela, que distribuía alegria e sorrisos em todos os lugares.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Dor partilhada é dor aliviada


Revisitar os Provérbios e, com eles, desnudar o Presente

Conceição Cação

Era sábado. Aproximava-se o S. João. O sol, sorrindo no azul límpido do céu, convidava a um passeio.
−  Vamos às tasquinhas?
−  Boa ideia!
Mas antes uma passagem por Coimbra, as visitas no hospital.
...As visitas no hospital
Em passo apressado, ia lançando uns olhares furtivos às revistas, às flores, à exposição de pintura −  elementos inesperados, como que, num derradeiro esforço, para adiar aos nossos olhos os cenários mais pungentes.
Gratos aos elevadores, modernos e rápidos, atingimos um piso superior. E aí vamos nós pelo corredor fora. Sentada, junto da janela, a vista descansando nos perfis irregulares das serranias recortadas no horizonte, a Rita surpreendeu-nos com um amplo sorriso. Esclareceu:
− Comparada com as cirurgias que eu já fiz, (E eram tantas!) esta laparoscopia foi uma brincadeira. Conversámos longamente: dos filhos, dos netos, das férias que iam chegar, de tudo e de nada.
Na minha agenda mental figurava também a visita à Lara, uma jovem guineense. (“Que jovem era!”) Num dos pisos superiores, dirigi-me a uma enfermeira, perguntei-lhe pela Lara. Perante as hesitações dela, acrescentei: “de pele escura”.
−  Ah! Acho que é ali à frente, à direita.
"Foi tão bom ter vindo"
Fui avançando. Aqui havia mesmo hospital: membros engessados, cabeças enfaixadas,frascos de soro num gotejar interminável… E ais, muitos ais. E lá estava eu no quarto. A sobressair do branco gasto dos lençóis, um rosto negro. Mas não, não era a Lara. Era um pouco mais velha. Não recuei, ela estava sozinha, com expressão sofredora, eu estava ali, porque não tentar dar-lhe algum conforto? Senti-me inevitavelmente presa àquele olhar, difícil de definir −  não era de súplica, talvez de esperança e, ao mesmo tempo, de acolhimento. Encurtei a distância e, embora um pouco amedrontada pelo sofrimento, falei-lhe. Por entre a timidez do meu discurso, ela repetia, vezes sem conta: “Obrigada, irmã.” ,“Foi tão bom ter vindo.” , “Foi Deus que a enviou.”, “Já me sinto melhor”… Do pouco que me contou sobre ela, retive o facto de que se encontrava sozinha em Portugal e residia algures longe de Coimbra. Familiares e amigos ausentes. Estava, agora, mais serena; o corpo, torturado, parecia querer render-se ao cansaço. Afastei-me a custo. Teria lá ficado por muito mais tempo, mas a gestão das horas obrigava-me a despedir-me.

domingo, 28 de abril de 2013

Incoerências

A partir da publicação do Texto I, aos domingos, e com periocidade semanal, seguir-se-ão outros integrados numa reflexão sobre CICLOS DE VIDA. Pretende-se uma reflexão dialogante e que abra horizontes.
Caro leitor, enriqueça este diálogo, participando com um texto! 
Obrigada. O trabalho poderá ser enviado para o endereço evoluircriativa@gmail.com ou para qualquer outro dos autores do blogue.

Texto IV

Conceição Cação

Cancro era uma palavra medonha
Às duas meninas, as mais ligadas ao avô Albano, ambas no estrangeiro, chegou-lhes, em roupagens eufemísticas, o nome da doença: diabetes. Cancro era uma palavra medonha, um tabu. Dizer-lhes que o avô estava nos cuidados paliativos iria preocupá-las muito. E para que serviria? Uma tia, a quem telefonaram, considerou mais justo revelar-lhes a verdade; ofereceu-se até para as ajudar, caso pretendessem fazer-lhe a última visita. Demasiado tarde! A decisão teria de ser muito rápida. Os filhos, emigrantes, estiveram com ele no início do internamento no hospital, mas depois regressaram aos seus trabalhos. O filho, o Vítor, ainda quis voltar novamente. Que podia vir – opinou alguém  – mas não vinha cá fazer nada.
Íamos visitar o senhor Albano
Naquela tarde, a caminho da aldeia, fizemos um pequeno desvio: íamos visitar o senhor Albano. Um painel colocado na fachada facilitou-nos a identificação – Barco Azul. O edifício, térreo, semelhante às restantes casas da aldeia, levou-me a imaginar um ambiente familiar, acolhedor. Por cima do muro, baixo, lancei um olhar avaliador: interrompendo, de onde em onde, a monotonia cinzenta do betão, pequenos canteiros, onde as sardinheiras salpicavam de vermelho o verde, pouco convicto, da relva a suplicar mais assistência. Paredes-meias com o lar de idosos, um infantário. Menos mal! Talvez as brincadeiras dos pequenos, os seus risos, o alarido da brincadeira pudessem atenuar a melancolia dos idosos.  
Tanto ruído e silêncio
Pura ilusão! Entrámos. Do hall, em semiobscuridade, passámos a um corredor e depois a outro – paredes nuas, sem cor. Cruzámo-nos com alguns idosos, que, ignorando a nossa saudação, se arrastavam, de cabeça baixa, capitulando ao peso da degradação, do abandono, da solidão. Arrancados ao seu cantinho, despojados de família, amigos, ambientes, sentiam que tinham deixado para trás a sua dignidade, a sua própria identidade. O acaso ou qualquer poder acima da sua compreensão tinha-os juntado, na última etapa da jornada, todos no mesmo barco. Tudo ali lhes era estranho: o barco, a tripulação, os companheiros… Neste barco, sempre de velas enfunadas, lá iam fazendo a travessia. Uma viagem sem regresso. Já se tinham despedido do mundo, do seu mundo; faltava apenas o último adeus. Tudo o que desejavam era alcançar a outra margem, envolta em densa neblina, mas o desconhecido já não os perturbava, parecia até atraí-los. Iriam, assim esperavam, deixar para trás o sofrimento.    

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A Revolução de Abril


Conceição Cação

A agitação era crescente
A agitação era crescente. Em frente à Faculdade de Letras, juntavam-se grupos de estudantes. Reunião ou, simplesmente, provocação? Solidarizando-nos com eles, sentávamo-nos na escadaria. Por pouco tempo! Vinda do nada, a polícia perseguia os manifestantes pelas escadas Monumentais e pelo Quebra-Costas. A nós, que fingíamos pacatamente apanhar sol,  ordenavam-nos que entrássemos para a faculdade. Na cantina da Associação Académica, passou a estar sempre a polícia: primeiro só um agente e depois uns cinco ou seis. As vozes que ousavam levantar-se no meio do refeitório eram rapidamente neutralizadas. Quando o número era mais elevado ou os estudantes mais rebeldes vinha a polícia de intervenção. Ai de quem tentasse insistir na provocação!
Era abril. Pairava no ar um cheiro a mistério; dizia-se, à boca pequena, que alguma coisa estava para acontecer. E chegou o dia 25. Enquanto me preparava para sair, apercebi-me de que a rádio só transmitia música clássica. Que estranho! Saí. Ao passar junto da redação do Diário de Coimbra, vi um comunicado: “Uma junta militar…” Bem, era ainda pouca informação, mas dava para perceber que a mudança estava em marcha. Nos espaços adjacentes às faculdades, iam-se concentrando centenas de estudantes, com indisfarçável expectativa e ansiedade.
Começava-se a festejar
Aos poucos, foram chegando notícias do êxito da revolução. Começava-se a festejar. Como se previa não haver aulas no dia seguinte, fui para casa. A minha mãe, a cuidar da minha avó, doente em fase terminal, precisava de todo o apoio que lhe pudesse dispensar. À noite, o comunicado do MFA:  Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas… numa voz teatral, de comando, punha toda a gente em sentido e a mim a tremer de emoção.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Enfim, só!

Maria Conceição Cação
Ainda de olhos fechados, tacteio o lugar ao meu lado. Vazio. Desperto. A esta hora, ele já se encontra a longa distância. E onde estão as vozes chilreadas dos pequenos, que, mais madrugadoras que o sol, inundavam a casa de alegria? Longe, bem longe. À minha volta, silêncio, apenas. Sinto-me a sufocar. Depressa, desço a escada e tento algum conforto no televisor. Não, já não é o Canal Panda. Experimento uma sensação agridoce. A partir de hoje, vou ver os meus programas preferidos, sem o zapping dele e as birras dos miúdos. Ah! E as minhas músicas esperam-me nos CDs trancados no armário. Reencontro-me comigo à mesa do pequeno-almoço. Regresso à minha dieta, nada de bolos, nas próximas duas semanas.
De divisão em divisão, vou avaliando os estragos: prateleiras sem livros, almofadas sem capas, impressora sem papel, portas sem chaves, … chão com muita areia, móveis cobertos de pó, muito pó. Lixo por toda a parte. Abandono e desconforto.

É preciso lavar, arrumar, aspirar, limpar, coser, consertar…
Mas hei-de também ler
Mas hei de também ler, ler muito, voltar aos meus livros durante longas horas. Enquanto devolvo os livros infantis à estante, vou passando os olhos pelos títulos que me espreitam, empoleirados nas outras prateleiras. Uma cascata de recordações começa a jorrar na minha memória. Esta casa, agora tão vazia, já conheceu dias muito animados, quando as visitas se sucediam, quase sem interrupção. Acho que já nem me consigo lembrar de Todos os Nomes. Um dos familiares mais assíduos era O Primo Basílio.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Cheiros da Infância


Maria da Conceição Cação


Amarelo gema de ovo...

É domingo de Páscoa. O sol brilha intensamente no horizonte. Sigo por caminhos estreitos que serpenteiam pelos olivais. Do verde denso do centeio que rodeia as imponentes oliveiras centenárias emergem, espontâneas e vigorosas, graciosas flores rubras. Mais adiante, impera o amarelo em caprichosos matizes: amarelo gema de ovo das flores exuberantes do tremoço; amarelo canário das azedas; amarelo e branco, ovo estrelado, das camomilas que, humildes, atapetam os valados… Aventuro-me agora por carreirinhos pedregosos. Ai os meus sapatos de verniz! As flores brancas dos carrapiteiros acariciam-me os cabelos, brincam com as minhas tranças; o perfume das madressilvas impregna-me as roupas novas. Indiferente à lama e à distância, deixo-me inebriar pelo aroma fresco e festivo da primavera.
Lá está acasa dos avós

Lá está a casa dos avós. O cheirinho rescendente da comida que já nos espera a um canto da lareira. Que bom o arroz de pato servido na louça do cavalinho - o cheiro da tradição … E da História vivida e recontada pelo avô – a monarquia, a implantação da república, a revolta de Paiva Couceiro… Cheiros múltiplos a folar, a naftalina das colchas antigas e vistosas que tapam a nudez envergonhada das velhas portas de madeira carcomida. “Cristo ressuscitou. Aleluia!”. Cheiro suave a alecrim, a água benta. Beijo a cruz, recebo o perfume aveludado da bela rosa vermelha

sexta-feira, 22 de março de 2013

A ÚLTIMA ÁRVORE DO BOSQUE


Conceição Cação

Sinto-me só, muito só
Sinto-me só, muito só. Olho ao redor - no chão gretado, rastejam apenas os tojos e cardos raquíticos de picos ainda mais aguçados pela longa seca; nas velhas fábricas, as máquinas choram a sua inutilidade entre os telhados prostrados e as paredes esmaecidas; ao longe, a aldeia assombrada pelos fantasmas dos operários que agora labutam em terras longínquas; portas e janelas cerradas; fechaduras enferrujadas
Cresci vigorosa e saudável
Vou-me alimentando de memórias entrelaçadas de saudade. Inebriava-me o cheiro da terra húmida que me acolheu no seu seio quando eu não passava duma plantinha franzina, nascida da barriga de aluguer dum horto municipal. Cresci vigorosa e saudável entre as minhas companheiras. Os corvos, as rolas e os pombos bravos descansavam nos meus ramos. Na primavera, a brisa suave vinda do mar embalava os passarinhos que, aninhados nas camas fofas, esperavam o momento tão desejado em que, amparados pelos pais, se lançariam na aventura do ar. Os coelhos e as lebres abrigavam-se nas suas luras, cavadas no mato mais espesso. Quantas vezes estremeci ao ver cair morto um animalzinho atingido pelo chumbo disparado por arma impiedosa! Este bosque foi também paraíso de namorados. Ah! Tantos segredos guardaram as minhas folhas! No meu tronco, protegi do tempo destruidor, gravadas em sulcos profundos, juras de amor eterno. E, a anunciar essa união, chegavam, mais tarde, até mim as badaladas festivas do sino.

Reencarnei neste mesmo lugar
Mas vieram tempos de dor. Assisti, sem nada poder fazer, ao sofrimento de muitos dos meus vizinhos – pinheiros bravos – dizimados pelo inseto implacável. As chamas aterradoras invadiram várias vezes o nosso espaço: chão coberto de cinzas, árvores de braços enegrecidos como cruzes num campo santo. Embora com as folhas e ramos feridos, sobrevivi aos ataques do fogo devastador.
Todavia não fui poupada: tal como muitos dos meus amigos, fui abatida, sem piedade, pelo machado insensato. Senti-me a ser transportado para o Além, mas, graças à persistência da minha alma e à robustez da minha seiva, reencarnei neste mesmo lugar; renasci do velho cepo de raízes profundas. E não estou só, tenho mais dois irmãozinhos gémeos. Vamos crescer juntos e das nossas sementes vão nascer novas árvores, criar um novo bosque. Desiludam-se os que pensavam que eu ia morrer, não me rendo à tristeza. Sou forte, comigo mora a esperança.



sábado, 2 de março de 2013

Sem hesitação


Maria da Conceição Cação

Não Matarás – o 5º Mandamento é aquele que mais respeito, que mais temo, como se a mão divina, quando o gravou, a fogo, nas tábuas da lei, o tivesse inscrito também, de forma indelével, no meu coração.
Reconhecendo a imagem de Deus em toda a Criação, é com imensa alegria que observo na minha neta sinais da mesma sensibilidade perante a Natureza. Caracóis que surjam a percorrer os caules das suas plantinhas e se preparem para acrescentar rendilhado às folhas, corajosas sobreviventes do inverno, são por ela removidos; mas levados carinhosamente até ao parque mais próximo, onde, acredita, têm direito a viver tranquilamente. Estende estes gestos delicados a todos os animais, incluindo insectos e até aos próprios ratos, que se apressa a libertar sempre que vê algum que, seduzido pela isca, estrebucha na ratoeira

domingo, 24 de fevereiro de 2013

QUERIDO, NÃO MUDES A CASA


Maria da Conceição Cação
Tiro a venda. Eis-me perante um lugar de sonho: o jardim. Do rectângulo de relva verdejante, elevam-se, em surpreendente harmonia, um jacarandá, uma acácia e um abeto. Nos cantos, as flores exuberantes dos hibiscos oferecem-se aos beija-flores. Ao abrigo do alto muro, onde um casal de namorados emerge, enlaçado, dum painel de azulejos azul e branco, tufos de alfazema coroados de anil, impregnam o ar dum perfume discreto. Num lago, ao centro, ondulando as águas, deslizam, majestosos, dois cisnes brancos. À esquerda, numa gaiola de ferro rendilhado, assente sobre a calçada, um papagaio palrador acolhe-me com uma saudação. Incrédula, avanço uns passos. Ao meu olhar, deslumbrado, apresentam-se a piscina, as cadeiras, as tendas, o cantinho de convívio e leitura, onde não faltam os sofás, as mesinhas de apoio, as prateleiras, os vasos floridos, as lanternas, as velas… Aproximo-me da cancela de madeira. Do lado de lá, mais recatados, a horta e o pomar. Uma mistura de aromas, ainda há pouco tão subtil, insinua-se agora aos meus sentidos. Inebriada, alongo a vista. Alinhadas ao longo do passadiço, frondosas árvores exóticas ostentam garbosamente os seus frutos.

Sinto-me perplexa. Como foi possível aliar tanta beleza, harmonia, conforto? Que fada teria derramado aqui tão generosamente a sua magia? Aquele era o espaço perfeito, muito mais do eu ousara desejar! E, no entanto, sinto-me constrangida. Não consigo retribuir a simpatia que me circunda. Esboço expressões de entusiasmo, de contentamento, que logo esmorecem na garganta. É como se me encontrasse de visita a um belo parque da cidade. O meu coração permanece distante. Sinto-me como uma criança a quem fosse, de súbito, retirada a modesta mãe e visse, no seu lugar, uma madrasta coberta de jóias.

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