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quinta-feira, 24 de março de 2016

As delícias de um banco


José Luís Vaz

— Ufa… Bom dia!
— Bom dia. Está cansado? E eu a julgar que só me acontecia a mim…
Um banco localizado num ponto estratégico do parque, sombreado por farta copa de árvore que filtrava os raios solares mais intensos e dava guarida a tenro vento que granjeava às pessoas a frescura do descanso procurado. Albergue da solidão de alguns, local de encontros conversados ou mesmo advento de amizades não programadas, aquele banco era detentor de tantas conversas, de tantos segredos, de tantas intimidades, que ai se ele falasse?!…
Hoje era anfitrião de um sexagenário que, bastante gasto pela vida, pousava ali o seu corpo, após caminhada recomendada pelos médicos, não fosse a ociosidade pregar das suas a quem em tanto stress tinha vivido. Local tão cobiçado, proporcionou-lhe, passado pouco tempo, a companhia de um jovem de boa aparência atlética que do exercício tirava prazer, tentando aliviar de tensões inevitáveis aos tempos de hoje.
— Acontece a todos. Percorri, em passo de corrida, cerca de seis quilómetros tendo, ultimamente, feito isto poucas vezes. E sente-se logo a diferença. 
— Claro, a quem o diz. Basta falhar um dia e no dia a seguir já é o cabo dos trabalhos: os músculos ficam presos, as articulações perras, nada ajuda e tudo se torna mais difícil. Eu tento fazer isto com uma certa regularidade, mas nem sempre calha e olhe, já estou como diz o outro, “o óptimo é inimigo do bom” e vai-se andando com o tempo. E o meu amigo, o que é que faz?
— Ainda sou estudante, estou a ultimar o meu doutoramento. Por isso, nem sempre consigo conciliar as obrigações académicas com as desportivas, pelo que vou tentando dividir-me.
— Quer dizer, dentro de algum tempo, será Doutor. Oxalá que tudo lhe corra bem.
— Obrigado. Mas disso não tenho qualquer certeza. Sabe, uma das razões porque enveredei pela continuação dos meus estudos foi, exactamente, não ter arranjado emprego quando terminei a licenciatura. Ainda estudei a hipótese de emigrar mas os meus pais apoiaram-me, ou melhor continuaram a assumir as minhas despesas, e só temo não lhes dar a felicidade de me verem realizado. Então e o senhor, já está reformado?

sábado, 30 de janeiro de 2016

O Boby

José Luís Vaz 


Havia um caçador que, durante a sua vida, teve vários cães. Um, o Boby, era muito especial para o dono, nem tanto para as outras pessoas. Era astuto, ladino e muito leal, só com o dono e traiçoeiro e manhoso com qualquer outra pessoa. Aquele homem tinha um orgulho enorme naquele animal, que descrevia como um verdadeiro cão de caça, tal a sua eficiência e astúcia em pleno mato. Ele corria, farejava tudo, entregava, com raro despacho, coelho ou perdiz ao caçador que o mimava com festas no focinho. Boby respondia com exuberante ladrar e saltos de satisfação.
 
Normalmente, pregava-a pela calada
        No dia a dia, passava o tempo junto à habitação do dono, num pequeno quintal que não lhe chegava, transpondo muros ou portões para policiar a rua. Aqui, o caso tornava-se muito sério, quando, por ventura, não lhe agradasse quem fosse a passar. Pessoas mal vestidas ou fardadas corriam sério risco ao tentarem passar e, muitas vezes, perante o ladrar típico de pretensa agressão, dono ou algum familiar vinham à porta para o chamar e ralhar com ele.
      Se bem que era perigoso para qualquer pessoa da casa aproximar-se da mesma durante a noite, porque ele só era leal ao dono, apesar de tudo, com uns raspanços, lá continuava, contra a vontade da esposa do caçador, que temia por algo de grave que pudesse acontecer.
        Normalmente, pregava-a pela calada, e desde ter rasgado as calças a um polícia, a batina a um padre, ter urinado nas pernas de uma senhora que, calmamente, conversava com a dona, a ter, repetidamente, feito correr um mendigo a sete pés, ele fez de tudo um pouco. O pouco tornou-se muito no dia em que rasgou a saíta de uma netinha da casa com apenas quatro anitos.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

A necessidade obriga…

José Luís Vaz 


Numa aldeia, lá perdida no meio da serra, habitada por algumas, muito poucas, famílias, as pessoas viviam do sustento que a terra lhes proporcionava. Era normal criarem animais que, ou vendiam ou abatiam para a sua alimentação. Não havia casa que não tivesse um
...bicavam do chão
bom galinheiro, que, como tal, só funcionava durante a noite, pois durante o dia, galinhas, galos e frangos bicavam do chão tudo aquilo que encontravam. Ao escurecer, era certo e sabido, todos os galináceos recolhiam ao seu poleiro acocorando-se até à madrugada do dia seguinte.
De vez em quando, havia grande alarido no povoado com o alvoroço num ou outro galinheiro, altas horas da manhã. Claro, alguém a tinha pregado: ou raposa ladina perita na arte, ou algum amigo do alheio aproveitando o sossego nocturno, subtraía um ou mais bicos ao galinheiro visitado.
No dia seguinte, não se falava noutra coisa. Para uns, só podia ser raposa matreira, de tão rápido o assalto, para outros, “sabe-se lá…”, isto e aquilo, e ficava a pairar no ar uma desconfiança nunca revelada.
O sacristão da terra, o mais letrado, a seguir ao padre da freguesia, andava desconfiado e montou a sua própria investigação, sem dar parte de fraco, nem dizer nada a ninguém.
Começou a aperceber-se que um jovem rapaz, volta e meia, ia à igreja e pregava-se de joelhos à frente de uma imagem de Santo António com o Menino Jesus ao colo. Ali permanecia um bocado e vinha-se embora sempre muito bem-disposto.

domingo, 16 de agosto de 2015

Uma vida!

José Luís Vaz

 Estou aqui, há tantos anos, que já nem me lembro da quantidade de nomes que já tive. Desde Carlota Joaquina a Raul Rego passando por rua da Esperança e outras, tudo me têm chamado. Conforme a onda, assim me tratam: não há dinheiro, fico cheiinha de buracos, vem graveto, escondem-me logo as misérias. É a minha sorte, comer e calar e, ainda por cima, ser pisada por toda a gente.
Quando nasci, tenho uma vaga ideia de que era mais curta, havia menos gente e precisariam menos de mim… levava o tempo incomodada com a poeira que era quase permanente, porque, por aqui, eram burros, cavalos, bicicletas, motas, eu sei lá, tudo o que mexia por aqui tinha que passar.
...eu é que sou o centro das atenções.
Mais tarde, lavraram-me, como quem prepara a terra para uma sementeira, e toca de me encherem de pedrinhas. Ainda pensei: querem fazer de mim uma pedreira...mas não, a seguir, taparam-me todinha com alcatrão a abrasar e eu a aguentar… A partir daí ladearam-me de prédios, uns altos, outros baixos, bonitos uns, aberrantes outros, mas a rainha sou eu, eu é que sou o centro das atenções.
Se eu fosse a contar tudo o que ouço, nunca mais me calava. Ainda outro dia fiquei aparvalhadinha de todo com uma conversa entre mãe e filha. Dizia a mãe: não entendo, o teu emprego é das nove às dezoito horas, e tu, tornou-se num hábito, chegas sempre tarde e a más horas a casa.
- Ó mãe, estou farta de te dizer que não posso virar costas ao Sr. Dr. Ele, lá no escritório, tem sempre muito que fazer, e, para além de ter que o ajudar, não estamos em tempos de facilitar. Sabes muito bem o que me custou arranjar este emprego!

sábado, 4 de julho de 2015

A minha cidade

       José Luís Vaz 


Como é bela a minha cidade! Vou a qualquer lado e quando digo que vivo em Aveiro, as pessoas fazem logo desfilar uma série de adjectivos elogiosos. É verdade, Aveiro e os seus canais, onde a Ria exuberante ondeia de vaidosa com o movimento dos moliceiros repletos de visitantes extasiados com a paisagem, fazem dela uma cidade ímpar.
As palmeiras do Rossio.
As palmeiras do Rossio dão-lhe um ar exótico como se fossem nobres castiçais a embelezar faustosas entradas de monumentos.
A velha Avenida Dr. Lourenço Peixinho, agora despida do refrescante arvoredo intenso e denso, permite à Ria espreitar pelas “Pontes”, lá para o fundo, a sempre linda Estação da CP forrada com azulejos doutras épocas.
Cidade da Arte Nova exibida por muitos edifícios da cidade, alguns deles bem necessitados de cuidadosa atenção, antes que a ignorância e a ambição ocupem os seus espaços.
Os Museus de Arte Nova e da cidade de Aveiro, também conhecido por Museu de Santa Joana, conservam e eternizam muita da cultura da região através das peças de arte que neles abrigam.
A Sé, majestosa e imponente catedral, está ligada a uma obra não menos importante, As
A Sé
Florinhas do Vouga, que se preocupa com os excluídos e sem abrigo, ajudando-os com um pouco do muito que eles não têm.
Logo ao sair da cidade, no percurso para as praias, as marcas de uma paisagem apaixonante formada pelas marinhas, permanentemente vigiadas pelas gaivotas que com os seus voos desenham no ar o que a água espelha para delícia de quem passa. Marinhas que outrora produziram muito sal suado pela labuta de marnotos que para ganharem o pão ali deixavam muita da sua saúde.
Também Aveiro teve belas muralhas que acabou por perder no século IXX, quando demolidas para que as suas pedras fossem utilizadas em obras da Barra e na construção do liceu.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Português, sexagenário, europeu.

José Luís Vaz

A manhã preparava-se para se despedir e o sol de inverno trazia o conforto e bem-estar que a noite gélida tinha usurpado. Naquela esplanada, recatada, abrigada de ventos fortes e com uma privilegiada exposição solar, permaneciam amantes da acalmia alimentada pelas leituras e pela soberba vista de tanto mar.
Um homem de barba branca e farta com cabelo ralo da mesma cor, passava ali imenso tempo observando a imensidão daquele mar, aparentando, talvez, um olhar vazio, como se esquivando do mundo naquele oásis com pensamento vago. Como um vento fraco mas incomodativo, o cérebro exibia-lhe lembranças em que a esperança e a ambição de tempos idos se debatiam agora com o desconsolo e a decepção de uma Europa decadente.
Jovem adolescente, obrigado a viver os ditames da ditadura, sonhou com ela, ali tão perto, continente da liberdade!

                                               Hoje:
Nem sei que diga...
Nem sei que diga
Nem sei que conte
Que sou, afinal, eu?
Neste fado europeu

Em tempos de servidão vinham notícias escondidas e camufladas que alimentavam aquela esperança de que tudo poderia ser diferente. Atravessavam Espanha, com pés de veludo, espalhando o apetite para a viragem da ditadura que também por ali desrespeitava os mais elementares princípios de cidadãos com dignidade.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Transgredi

José Luís Vaz 

Num campo apaziguador transgredi e decidi construir uma casa. A ideia não surgiu ao deus-dará: dali era soberba a vista para o mar. Revolvi terra e mais terra empedernida com calhaus e, com calma, depois do campo limpo, iniciei a construção.
... implantei uma hortinha
Local muito silencioso fazia as delícias de quem ali relaxava, desfrutando aquela imensidão de mar. A contemplar em tal silêncio era vulgar o descambar para uma serena sesta, fazendo parecer a quem passava, tratar-se de um pelintra. Era de facto um local apaziguador parecendo ter fugido ao mundo real que cada vez mais insiste em transgredir a uma vida com qualidade.

Mas, não se pode ter tudo e, daí, era necessário ter proventos para subsidiar as mais valias consumidas com este novo prazer. Na parte de trás da casa, mais uma vez, transgredi, e no meu terreno e em mais dois metritos que subtraí, sem querer, é claro, ao vizinho, implantei uma hortinha.

José Luís Vaz ©2015,Aveiro,Portugal

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Atravessando os séculos!

José Luís Vaz


Sempre elegantes, desde as altas às mais baixotas, coabitam com facilidade em espaços variados. Quando sós, deslumbram os seus admiradores pela conformação sui generis que proporciona a cada um especular sobre as suas formas.

Já lá vai o tempo em que a natureza determinava o seu livre desenvolvimento proporcionando, quantas vezes, uma arquitectura exótica e diferenciada. Hoje, é abruptamente “fabricada”, de acordo, única e simplesmente, com critérios economicistas que tudo determinam violentando as formas livres da mãe natureza.

Existe uma grande variedade distinguindo-se, entre si, pelo desenho, pela idade, pelo
Fonte inesgotável de vida
porte, pela raridade ou mesmo pelo seu interesse histórico. Podem atingir cerca de vinte metros de altura, o que justifica forte capacidade na procura dos nutrientes necessários. Neste ciclo de luta pela subsistência e desenvolvimento acaba por, com a sua acção, tantas vezes, evitar que fortes enxurradas arrastem catastroficamente os solos, destruindo uma estrutura em que existem os elementos necessários à vida.

Necessitando muito tempo para crescer, pode viver centenas de anos. Há mesmo exemplares referenciados com cerca de dois mil anos, sendo considerada a mais antiga do mundo, uma que existe perto de Tavira.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Quando chegará o tempo de ouvir as crianças?!

José Luís Vaz

O verão de S. Martinho já lá vai e os dias vão diminuindo, dia após dia, criando espaço às frias e longas noites de inverno. Quase de seguida, o Dia Internacional da Generosidade, fazendo pairar no ar um tempo que faz adivinhar a proximidade de época natalícia. 

Uns começam a idealizar, outros a programar, outros fazendo cálculos e mais cálculos
Um tempo de exuberância para uns....
para melhor gerirem os seus pecúlios e, como sempre, tantos a vê-los passar… Um tempo de exuberância para uns, de desamparo para outros, mas, fundamentalmente, de uma verdadeira euforia à volta do consumo. O mundo inteiro entrega-se às tradições natalícias e sob esse auspício, em cada latitude, vive-se um tempo repleto de slogans, sempre recheados de paz, muita paz, fraternidade, caridade para uns, solidariedade para outros, Menino Jesus, Pai Natal, amizade, amor… Um verdadeiro romantismo vivido todos os anos com um, demasiado curto, prazo de validade. 

Mas... É agora tempo de Natal!
Os anos, uns a seguir aos outros, todos, ou quase todos, com trezentos e sessenta e cinco dias, são vividos, em função de rotinas obrigatórias, repressoras de excessos ou então na abundância a que o dinheiro permite chegar. Neste mundo globalizado, as desigualdades, que já o eram, são agora mais transparentes tornando mais difícil o alheamento e o desprezo pelo que se passa debaixo do mesmo céu azul, mais claro para uns e muito escuro ou mesmo praticamente negro para outros.


Mas… É agora tempo de Natal! O frenesim espalha-se, como as sementes que o lavrador lança para o solo, espevitando as vontades a um tempo de generosidade e harmonia, que até parece criar dias diferentes, como se os paradigmas da sociedade, num estalar de dedos, se tivessem alterado. Os sem abrigo, habituados aos Natais à volta da habitual fogueira gelada, agradecem agora o velho cobertor que a generosidade natalícia acaba por lhes proporcionar. Pedintes sentem nesta altura melhores compensações pelo apelo repetitivo que vão fazendo a quem passa. Desempregados, precários e escravos do ordenado mínimo, sobejamente habituados ao rigor do pouco, aventuram-se em pequenos, grandes arrojos, que mais tarde lhes sabe a amargo. 

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Quando um homem se põe a pensar!

José Luís Vaz 

Uma das minhas rotinas diárias é dar o comer aos meus dois cães.
Um deles, está, para além de, velho, cego, surdo e, praticamente, mudo, dado que antigamente ladrava, por tudo e por nada, e agora quase não o ouço.
O meu cão está velho
Que aconteceria, que dia a dia teria este animal, se ao menos não tivesse um teto? Como ele, outros animais e pessoas sem teto, cada um à sua maneira, persistem em dar luta à solitária vida em que se transformou a sua existência. Uns e outros vadiam pelas ruas, aproveitam aquilo que os outros já não querem, e às vezes, deliciam-se com acepipes inesperados em dias de sorte. Percebem no rosto e no mexer dos lábios de muita gente a palavra “coitadinho”.
Não gostam mas como já nada têm a perder, põem uma boina no chão onde poderão cair uns centimosinhos, quase sempre pretos, lá depositados com toda a mestria de quem quer que se perceba o tilintar das moedas. Alguns têm como companhia um animal, muitas vezes um cão, um daqueles, que escapou à recolha sanitária, de animais abandonados efectuado pelas zelosas autarquias, que os armazenam em canis, que, normalmente, como as vítimas dos nazis acabam padecentes do “destino fatal”.
As pessoas abandonadas à sua sorte, sem que o estado em que vivem as proteja contra a falta dos mínimos necessários à existência de uma vida digna, passam a ser pesos incómodos à sociedade. De imediato, catalogados como escória de uma sociedade que dia após dia ganha mais adeptos para a repudiável inevitabilidade do fim de um Estado Social…

O meu Kiko, o meu cão, está velhinho, afasta-se quando sente que me aproximo — não me vê… —  quando o agarro e lhe faço umas festas, acalma e retribui-me com uma saudável lambedela. 


José Luís Vaz ©2014,Aveiro,Portugal

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Até onde pode ir a conversa…

Era quase noite e a tarde teimava em não se despedir. O sol, ou as réstias dele, lá ao longe, projectava uns raios indecisos entre o laranja e um vermelho tão forte que mais parecia sangue, raiando o vale verdejante subdividido em pequenas parcelas. A manta de
A manta de retalhos
retalhos, um verdadeiro jardim, lindo de ver, árduo de trabalhar, espelhava uma agricultura tipicamente minifundiária que teimava em persistir romanticamente à espera de que alguém, quem sabe, um D. Sebastião, fizesse o milagre com a terra como a Rainha fez com os pães. Este quadro deslumbrante, embora perspectivasse natureza morta, era a paisagem assombrosa avistada dum pequeno jardim, onde naquele fim de tarde, como noutros, um avô usufruía do seu maior gozo: ver brincar os netos e com eles partilhar um diálogo permanente nem sempre inspirador de liderança porque a ternura falava mais alto e o resultado era bem compensador.
— Noni…noni…noni…noni… foge avô, tu não ouves?
— Mas não ouço o quê? Afinal quem me persegue?
— É o carro dos bombeiros. Houve um fogo numa casa… foge, foge, avô…
Pronto e perante tal urgência, não havia outra atitude, obedecer e imediatamente. Retirava
Foge avô, tu não ouves?
mais umas folhas velhas de um canteiro e assobiando uma das suas modinhas preferidas preenchia um pouco mais de tempo, até que as crianças quisessem fugir do anoitecer. E à procura de luz entravam netos e avô em casa acabando com o sossego que àquelas horas alguns reclamavam depois de um dia de trabalho.
— Ouve lá Mafalda, tu queres ser bombeira?
— Sim, avô.
— Mas sabes que ser bombeira é uma profissão muito perigosa. Os bombeiros correm muitos perigos quando andam a apagar os incêndios e…
— Ó avô, mas eu não quero ser a bombeira que vai apagar os fogos. Eu o que quero ser é a chefe que manda os bombeiros trabalhar.

domingo, 29 de junho de 2014

A última corrida

Vamos hoje dar inicio a um ciclo de trabalhos sob o tema  Mensagem paralela à de um filme. Para mais facilmente compreendermos de que filme se trata apresentaremos previamente a Sinopse e o seu original título.

                                                                  A MILLION DOLLAR BABY - Sinopse

Afastado da sua filha, Frankie (Clint Eastwood) revela uma grande dificuldade na aproximação aos outros, e apenas lhe resta o amigo Scrap (Morgan Freeman), um ex-lutador de boxe que cuida do ginásio de Frankie. É então que entra em cena, em seu ginásio, Maggie Fitzgerald (Hilary Swank), que sempre teve pouco da vida, mas que ao contrário de muitos, sabe bem o que quer e tem a determinação necessária para o alcançar. O ambos não sabem é que terão de enfrentar um desafio que irá exigir mais coragem e alma do que podem imaginar...                                                                    

A última corrida

“Estava-lhe no sangue”— diziam muitos dos que todos os dias a viam passar naquele passo determinado e convincente de que aquela vontade ainda haveria de mover montanhas. Fizesse chuva,  fizesse  sol  ou  o  vento  fosse  de  norte  ou  de  onde quer que viesse, aquela
Gostava de correr.
menina franzina fazia-se à estrada ou a qualquer caminho seco ou lamacento, sempre de olhar lúcido mas com um brilhozinho, bem lá no fundo, daqueles olhos crentes no seu esforço e dedicação. Desde bastante pequena que gostava de correr e cedo começou a fazê-lo só porque os outros não lhe igualavam a passada e ela não conseguia prescindir de satisfazer aquela vontade que lhe vinha lá de dentro. A pouco e pouco e, apesar dos parcos recursos de que dispunha, foi adquirindo uma autoestima que a compensava da deficiente alimentação e das condições de bastante pobreza em que vivia com a sua família. Os recursos que não existiam eram substituídos por uma força de vontade fora do normal.
Um dia, numa associação recreativa, lá da freguesia, assistiu à projeção de um DVD sobre a grande campeã olímpica e mundial Rosa Mota. Ela ficou maravilhada, ficou emocionada, ficou contente, ficou louca, ela ficou completamente cismada em todos os pormenores daquele filme. Nos dias que se seguiram corria, corria e as imagens, umas atrás das outras, eram as da Rosa Mota? Eram suas? O sonho passou a fazer parte da sua vida e a intermitência vivida entre ele e as condições reais da sua vida começaram a despertar nela uma lucidez até agora não sentida. Como poderia ela pintar um quadro sem tela, sem pincéis, sem tintas...
Correr podia fazê-lo em qualquer lado
A família nada tinha e a luta pela sobrevivência era já fado suficiente. Tinha que ir para a cidade e lá arranjaria trabalho para poder subsistir. Correr, podia fazê-lo em qualquer lado, precisava era de descobrir quem a ajudasse.
Um saco pequeno, pouco havia para levar, acompanhou-a na aventura de quem tudo quer mas nada tem, ou melhor, para quem sonhar se tornou num direito só porque a sua enorme vontade lhe sustentava o nada que tinha.
Passaram-se dez meses e a Helena, Lena, para os amigos e familiares, começava, finalmente, a percorrer os caminhos da vida assente numa estabilidade periclitante que ela equilibrava com a sua poderosa força de vontade. Ela tinha um sonho, correr com técnica, com saber, segundo as regras que uma campeã tem que aplicar. Para o conseguir, tinha que ultrapassar muitas carências com a sua persistência e querer. De trabalho precário em trabalho precário ia conseguindo um mínimo que lhe permitia viver num quarto partilhado com uma rapariga que como ela angariava o sustento do dia a dia. Inscrevera-se num clube de atletismo e usufruía de orientação técnica que muito estava a contribuir para melhorar as suas performances.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Ser ou não ser solidário

Vamos hoje dar inicio a um ciclo de publicações que denominámos –  Contradições do ser humano. Todos os que queiram colaborar podem enviar os seus trabalhos para os contactos do Evoluir que aparecem na página do blogue.


Começava o dia a acordar com aquela sensação horrível. Uma tempestade de chuva desvairada tocada por um vento sem destino que tudo arrastava. O barulho era ensurdecedor, estores, portas e tudo que abanasse faziam uma sinfonia completamente desafinada. Ainda na cama pensava:
Quantos não procuram um abrigo...
— Quantos não serão os que a esta hora resistem, procuram um abrigo, um plástico, a ponte ou o pontão mais próximo… A minha capacidade de ser solidário esfumava-se como o fumo que foge e se perde lá longe. E estava eu convencido de que era um ser solidário…
Arranjei-me e saí. Conduzia o meu automóvel com algum cuidado. A intempérie era assustadoramente violenta e podia atraiçoar o mais atento. De rádio ligado ouvia notícias nada animadoras sobre o que estava a acontecer por todo o país. O trânsito aumentava a todo o momento, congestionando a estrada — autêntica ribeira — que para alguns continuava a ser a pista de velocidade do dia-a-dia. Alguns quilómetros volvidos e na berma da estrada alguém me pedia boleia. A péssima aparência da pessoa amedrontou-me e hesitei entre o travar e acelerar. E, seguramente, passei por aquele homem de cabelos compridos, completamente encharcado, com a consciência a encontrar os habituais medos de circunstância: e se fosse um gatuno? Não, dar boleia não, o seguro não contemplaria qualquer acidente… nestas alturas temos que ser racionais… O meu egoísmo protegeu-se por inteiro, a minha pessoa não protegeu ninguém.
Era agora ultrapassado por uma ambulância do INEM que seguia atrás de um carro da
Ser solidário
mesma organização. Mais alguns quilómetros e lá estava um brutal acidente. Parei mais à frente e decididamente fui inteirar-me da dimensão da tragédia. Um carro desgovernado veio embater num outro, que seguia em sentido oposto, tendo ficado ambos abraçados numa medonha amálgama de latas. Foi uma ambulância com uma senhora, depois outra com um rapaz, ainda novo, uma outra com um homem calvo muito mal tratado, enfim, uma tragédia lavada e agravada pela forte chuva que teimava   em continuar.
Perto de mim alguém chorava quase sem se notar. Era um choro sofrido de angústia que vinha lá muito do íntimo de uma senhora que já não era criança e que ali junto à estrada anonimamente se limitava à única coisa que lhe restava: chorar.

quarta-feira, 5 de março de 2014

É muito bom ouvir isso.

Ainda não eram seis da manhã e a porta do curral das vacas rangia. obedecendo ao empurrão daquele homem que tão cedo começava o dia. Lá dentro, duas vacas que reagiam com um olhar sereno de quem não se surpreende e pareciam já esperar a visita daquele amigo que, antes de ele comer, lhes ia sempre deitar qualquer coisa na manjedoura. No meio de ambas, falava-lhes e acariciava uma e outra com umas festas na barbela e umas pancaditas carinhosas no dorso. 
Agradeciam com umas lambedelas que, esperavam, estimulassem o dono a servir-lhes o mimo matinal, normalmente um pouco de milharada que elas tanto apreciavam. Tratadas as vacas já podia ir comer ele para, de seguida, iniciar a faina de um dia de trabalho que agora lhe era bem mais pesado do que há uns anos atrás. Pequeno agricultor fazia algumas terras herdadas, outras de renda e uma muito especial, a “regadinha”, fruto do roubado ao estômago e aos luxos proibidos de quem neles nem sequer poderia pensar. Aqueles animais, dois porcos que criavam todos os anos, um para vender e outro para matar para casa, juntamente com o resultado do amanho das terras, perfaziam a totalidade dos parcos rendimentos daquela família. As vacas, uma de leite e outra de trabalho, eram peças importantes desta microeconomia. A venda do leite e de um ou dois bezerritos por ano eram essenciais ao regular funcionamento da engrenagem que dava sustento a uma família de quatro pessoas. As vacas, sendo da mesma espécie, eram de raças diferentes e, coabitando o mesmo estábulo, isso fazia-as sentir o que de diferente era a vida delas. A frísia, outrora conhecida por leiteira, era ali uma verdadeira princesa a quem tudo serviam sem fazer rigorosamente nada, limitando-se a comer do bom e do melhor. Esta era a opinião da de trabalho, outrora, amarela e agora marinhoa. A frísia, entretanto, observava: 
— És uma ciumenta… Ainda não percebeste que eu é que dou dinheiro a esta casa? Tu serves para trabalhar e pouco mais…
— “Para trabalhar e pouco mais”. Sou eu que todos os dias carrego com a erva que tu hás-de comer. Ingrata é o que tu és, nem sequer sabes agradecer…
— Olha, eu não tenho culpa é que tu não entendas nada. Eu estou sempre aqui fechada e o que querem é que eu passe a vida a comer para depois me esvair em leite.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

A tradição já não é o que era!

Era uma vez, uma velha, muito velha que contava uma história sobre uma sociedade de recreio que existiu em Lisboa, designada BPN — Bando de Palhaços Notáveis. As práticas
Era uma vez uma velha, muito velha
de gestão fraudulenta tinham sido tantas que o assunto acabou por ser debatido numa assembleia extraordinária. O presidente da assembleia era, na altura, um jurista muito conhecido naquele tempo que dava pelo nome de Marinho Tinto. Muitas e complicadas histórias se contavam em plena rua de falcatruas e desmandos que implicavam principalmente quatro elementos que detinham lugares de destaque ou ocupavam posição de relevo nacional. Depois de abertos os trabalhos, Marinho Tinto, homem sem papas na língua, disse que estavam todos fartos de boatos e maledicências e havia que esclarecer tudo interrogando os perseguidos para dizerem de sua justiça. Dirigiu-se a um tal Videira e Costa que era há muito tempo o administrador de serviço.
— Então o Sr. tinha poderes para pôr em prática as medidas arbitrárias que tomou?
— Ó Sr. doutor, obviamente que sim. As atas estipulam tudo.
— Bem… O Sr. Manuel Dias Toureiro, que nos pode contar sobre aqueles negócios…
— Sr. doutor, eu não tenho nada a ver com isso. Esses negócios foram todos feitos por ele. E apontava o dedo para o tal Videira e Costa.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

(Des)encontro de amigos

Já o sol raiava longe, bastante longe, naquele pontinho em que o céu se liga à linha do horizonte e os filhos da terra que ali teimam em vir passar uns dias se regalam, aproveitando esta e outras dádivas que a natureza lhes oferece. A calma do local ajuda a retemperar forças perdidas no meio do rebuliço das cidades, onde, porque a vida lhes impõe, são dominados pelo stresse diário em que a corrida se tornou um hábito. Nada melhor do que visitar as origens confraternizando com familiares, amigos, que doutras paragens vêm, e redescobrir sempre com um novo olhar toda aquela natureza que ali tem cheiros, cores e aromas bem diferentes. A serra sempre altiva e deslumbrante transmite pelo barulho dos seus silêncios um relaxe só perturbado pelos pássaros cantantes e pelas pequenas sinetas das ovelhas e cabras que se saciam no pastoreio. Ali, as palavras trocadas em cumprimentos rotineiros têm som, harmonia, fazem sentido, substituindo com enorme vantagem o ruído dos eléctricos, dos automóveis ou as sirenes de polícias, bombeiros, ambulâncias… As palavras, essas, já nem
As palavras, essas, já nem se ouvem.
se ouvem.
Neste contexto se encontram os amigos, que o foram em crianças, mas que eternizam essa ligação por uma vida só porque ali se reencontram um, dois, três dias, quando muito, uma semana, praticamente todos os anos. Deixaram de se conhecer, de partilhar a vida no seu dia a dia, mas a memória acorrentou-os a uma amizade que se alimenta de pequenos nadas vividos em poucos mas longos dias. No Café Popular todos procuram a bica que lhes recorda tempos passados e anseiam sempre por encontrar mais alguém — do seu tempo — que entretanto tivesse chegado.
— Ó, há quanto tempo… Trocam-se beijos, abraços com a alegria de quem há muito se não vê. Vítor e Sara chegavam à sua mesa mais uma cadeira para que o Gonçalo se juntasse ao matar das saudades.
— Então, Gonçalo, estás bem queimadinho… Vens da praia?
— Não, Sara, nem sequer ainda tive férias. Por isso mesmo aproveitei alguns fins de semana para, nos fins da tarde, me saciar de sol e mar chegando a apanhar o autocarro para casa já de noite.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Não se passa nada!

Com este trabalho interrompemos o Ciclo denominadoViolência sobre o ser humano” que temos vindo a desenvolver: a participação de muitos colaboradores e a importância que lhe queremos dar leva-nos a voltar ao mesmo no inicio do próximo ano.

E porque é Natal gostaríamos de desafiar as crianças e os seus pais a participar no EVOLUIR e a enviar-nos os seus trabalhos para podermos festejar a partilha, a dádiva, os sentimentos que sempre nos visitam e a família que queremos presente.

Pairava no ar algo estranho, havia um não sentir nada, mas um palpitar não sabia o quê, uma inquietação do improvável, um estar lá longe de tudo e de todos. O coração intranquilo de uma mãe, como outra qualquer que se deita a adivinhar o inimaginável que, na sua opinião, possa perturbar algum dos seus. Mortifica-se, pensa, observa, quebra os seus próprios silêncios para não se denunciar.
O jantar com toda a familia reunida
Durante o jantar, finalmente, com toda a família reunida, a satisfação, mas também o cansaço de mais um dia daqueles que passaram e nada deixaram, aquela inquietação em nada ajudava a construir a personagem vital daqueles poucos momentos de partilha, de convívio com as alegrias ou frustrações agora despejadas no cesto das intimidades de uma família. Três filhos eram a bandeira daquele casal. Por eles faziam tudo e tudo era sempre pouco para quem tudo lhes queria proporcionar. Bens materiais? Alguns, os indispensáveis, não eram ricos, longe disso, mas os pais preocupavam-se no investimento possível que proporcionasse aos filhos o alargar de horizontes, a aquisição de conhecimento, a experiência de novas oportunidades, a descoberta dos outros, sempre aprendendo com e respeitando a diferença, fomentando neles o ser solidário indispensável à nova sociedade global. À noite, cada um procurava no recanto do seu quarto corresponder às respetivas exigências académicas e os pais, na sala, entremeavam com os afazeres inadiáveis o diálogo natural dum casal que quer pôr a conversa em dia depois de mais um dia de trabalho.
— Lena, dá para perceber que tiveste um dia esgotante. Estás muito cansada, não estás?
Há qualquer coisa com a
nossa menina
Completamente surpreendida tentou recompor-se, passou a mão pelo cabelo e numa atitude aparentemente descontraída, pestanejou, sorriu e respondeu:
— Sabes que naquela casa trabalha-se muito todos os dias… É curioso é estares tão preocupado. Simpatia tua, Jorge.
— Não, não continues a disfarçar… Já te conheço há uns anitos e não me consegues enganar. Alguma coisa te preocupa, eu sei. Não queres falar?
— És incrível… Desta vez, guardou o sorriso, franziu os olhos e com ar preocupado deu-se por vencida.
— Há qualquer coisa com a nossa menina… Ela anda muito esquisita e eu não sei o que se passa… É muito triste perceber que a nossa filha não anda bem e nem sequer a posso ajudar…

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Podiam chamar-me Pedro ou Pedrito…

José Luís Vaz

Era uma vez, um homem, José Teixeira da Silva, que se dedicava a roubar os ricos para dar
José do Telhado
aos pobres. Viveu no século dezanove e ficou conhecido pelo Zé do Telhado. Hoje, século vinte e um, a tradição já não é o que era. Em Portugal não se lhe conhece nenhum seguidor.
Mas o mesmo não pode dizer-se em relação aos mentores do contrário — roubar aos pobres para dar aos ricos. Ainda me lembro de um tal rapaz de fino penteado, modos leves, trato esmerado, de educação visível e sentida por quantos o rodeavam ansiosamente, fazendo lembrar os seguidores de Cristo. Tinha sempre um sorriso — talvez por acordo com alguma grande superfície —, uma palavra serena e sensata para os seus interlocutores, fosse num congresso, numa conferência de imprensa ou numa mera resposta de circunstância que os jornalistas são useiros e vezeiros em provocar.
O desfilar na passadeira das figuras públicas começou bastante cedo, quando ainda jovem prometia para mais tarde o que naquela altura já fazia com grande desenvoltura liderando a “jota”, termo utilizado para designar uma organização partidária de jovens. Ele treinou, treinou e com tão dedicado desempenho acabou por atrasar, se calhar, uma brilhante carreira estudantil que o levaria ao património dos doutores (leia-se Drs). Já naquele tempo prometia ser um homem preocupado com a pátria e, para a servir, nada melhor que adquirir competências em economia.
...gerir um país
Pouco a pouco, de forma a sedimentar, devidamente, os novos conhecimentos lá foi num esforço desmesurado progredindo na carreira estudantil. Até que, imagine-se, tão cedo, só com trinta e sete anos, alcança o cume da licenciatura. Estava um homem feito para o que desse e viesse. Surgissem oportunidades e, com a elevada formação adquirida, sempre a pensar em subir a direito estaria preparado para enfrentar os maiores e mais difíceis obstáculos. Com a cadeira de S. Bento livre do Pinóquio que por lá andou, chegava a hora de experimentar gerir um país.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Amizade

Estamos a publicar textos subordinados à temática AMIGOS e AMIZADE. Colabore e remeta-nos o seu texto ou poema inédito para publicação. Ouse! A diversidade fortalece a amizade.  

José Luís Vaz

É complicado falar de amizade! A existência de amizade pressupõe que há seres que se dizem amigos. A palavra amigo é única e tanto simboliza confiança, como transparência, lealdade, cumplicidade, ajuda, reciprocidade, disponibilidade, orgulho, entendimento, diálogo,
Ser amigo não se explica
alegria, e até tristeza.
Ser amigo é, às vezes, uma atitude que não se explica. Para se ser não se fazem contratos, dispensam-se juramentos, não há necessidade de regras. Os amigos acontecem, não se premeditam. A amizade nasce, muitas vezes, sem se saber porquê. O tempo constrói a amizade, mas o contrário também é verdade. Há empatias, à primeira vista, que desaguam em grandes amizades. Entretanto, quantas desavenças não se transformam, mais tarde, em fortes relações de amizade.
A amizade cultiva-se, mas como se alimentam aquelas que na infância germinaram e que só o tempo preserva? Ser amigo é um estado que transcende as relações amistosas do quotidiano, vai muito para além da amabilidade, do civismo, da cortesia. Ser amigo é mesmo o contrário de inimigo. Não é difícil ser amigo. Difícil é defini-lo. A amizade é bela e linda e não é compatível com limites. 
A traição é a arma mortífera da amizade. Tudo é perdoável. A traição é antítese da relação
A amizade não tem limites
entre amigos. A hipocrisia em situação alguma pode disfarçar quem trai. A amizade não pode coexistir com o disfarce, com o parece bem, com o faz de conta, com a mentira, com o superficialismo do consumível. A amizade existe, é muito boa. Basta haver dois seres e a amizade pode acontecer.
Nas minhas recordações de criança vou ainda hoje buscar uma das mais belas amizades que o tempo não apagou. Desde que me lembro de mim, quando procuro lá longe, na minha meninice vem de imediato ao meu encontro a minha “valeta”. Era uma cadela caniche de porte médio toda preta com farta pelagem encaracolada. Inteligente, muito fácil de ensinar, era uma companheira das pessoas com quem vivia. Usufruía de toda a liberdade movimentando-se entre a casa e o quintal onde, por vezes, ladrava incessantemente, parecendo com isso querer mostrar serviço. 
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