Esmeralda Dinis Assunção
Fim
de tarde. Uma pausa para uns minutos de leitura. Na capa da revista que tenho
nas mãos há um moinho, em primeiro plano. Logo me veio à memória um outro
moinho que conheci na infância, beirão de gema, bem perto da casa da avó Rita.
No
alto do pequeno monte, sozinho, o moinho era um rei. À sua volta havia verde
até perder de vista. De braços sempre abertos ao vento, corpo robusto, dominava
todo o espaço que o cercava e, como um verdadeiro senhor, parecia ser ao mesmo
tempo o protector daquelas terras. O caminho para chegar até ele não era fácil
porque era íngreme e tinha muitas pedras.
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| O moinho ainda lá está no cimo do morro |
O
moleiro montado no seu burrico, o Moisés, lá ia sempre morro acima, levar-lhe o
grão, em jeito de homenagem. Quando descia, já com os sacos cheios de farinha, vinha
a assobiar de contente. É que aquele rei não tinha coroa mas tinha dentro de si
o poder enorme de lhe dar o sustento, o ganha-pão. Aquele moinho representava para
o moleiro a própria sobrevivência.
O
moinho ainda lá está no cimo do morro. Dos braços abertos restam os paus que
seguravam as velas. A porta e a janela são apenas uns buracos. Do corpo robusto
do rei antigo restam as pedras resistentes. Agora já não tem poder, nem sequer
é o sustento de alguém mas ele lá está como símbolo duma tradição perdida.
