Maria
Jorge
Agora
que as noites são mais longas e a idade vai avançando, sentada à lareira,
olhando o crepitar da madeira que me vai aquecendo a casa e o espírito, dou por
mim, recuando no tempo, a recordar a minha meninice e o quanto fui feliz em
casa dos meus avós, apesar das parcas condições de habitabilidade que a mesma
tinha comparada com os tempos de agora, onde, por exemplo, a eletricidade, o
saneamento ou a canalização da água eram ainda uma miragem.
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Era uma casa pequena |
Era
uma casa pequena, toda feita em adobe e caiada, mesmo à beira do caminho com
uma porta ao meio e duas janelas com portadas interiores. Essa porta só era
aberta em dias muito especiais. As janelas correspondiam a duas divisões sendo uma
da sala do senhor que era composta por uma mesa que tinha como ornamentação um
crucifixo, uma imagem da Nossa Senhora de Fátima, o anjo da guarda, e outras
imagens de santos da devoção dos meus avós e ainda por uma lamparina com uma
vela que era acesa de vez em quando; duas cadeiras completavam a decoração da
sala. A outra janela correspondia ao quarto principal, cuja decoração era
composta por uma cama não muito grande, um guarda-fatos, duas mesinhas de
cabeceira, uma cómoda e ainda um lavatório em esmalte, que era composto por uma
bacia um jarro colocado dentro da bacia e um balde para aparar a água quando
era; paralelamente à bacia, um varão onde se colocava uma toalha, que tinha de
estar sempre impecavelmente lavada, já que tinha como finalidade ser usada por
alguém de referência, como por exemplo, o médico ou o senhor prior.

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Panela de ferro |
Para isso existia uma trempe no centro da
fogueira, onde era colocada uma panela de três pés, em ferro, para fazer o
nosso comer e, para os animais, havia um latão; nesta cozinha havia também a
salgadeira que não era mais que uma enorme caixa em madeira, onde era colocada
a carne de porco, após a matança e que era conservada camada sobre camada
alternando o sal novo com uma de carne e que daria até à próxima matança; havia
ainda os potes, também em barro, onde se conservavam os rojões; faziam-se todas
as refeições numa mesa muito rudimentar com 4 bancos e quem viesse e não
tivesse onde se sentar ia ao pátio procurar qualquer coisa que servisse para o
efeito. Era também nesta cozinha que tomavam banho semanalmente, de água
quente, num alguidar em zinco.
No
pátio existia um pequeno poço de água coberto. Ao lado, tínhamos a bomba de
tirar água. Em frente à casa principal e, por esta ordem, havia a retrete, o
curral dos porcos, o curral da vaca e o celeiro, onde se guardavam as batatas,
o milho, as abóboras, palha para os animais e as alfaias agrícolas; as galinhas
andavam à solta e quando a noite se aproximava procuravam um canto no curral da
vaca para se resguardarem; mais ou menos a meio do pátio existia a estrumeira
para onde iam todos os restos de comida e não só, era depositado tudo que
servisse para estrumar a terra e não servisse para os animais.
O
pátio era servido por dois portões: um, nas traseiras, que dava para o terreno
anexo à terra que era cultivada todo o ano para sustento dos meus avós e ainda para
quem batesse à porta. No terreno havia ainda um poço grande e profundo, com
alcatruzes que, puxados pela vaca, regava o que estivesse cultivado.
Fazia-se a meda de palha |
A um
canto, no final do verão, fazia-se a meda da palha que não era mais que uma
armação em madeira, com um espaço interior onde as pessoas se pudessem
movimentar e que também dava para brincarmos; na parte exterior era colocada,
em camadas, a palha proveniente do milho. Esta palha servia para alimentação do
gado existente e ainda para substituir a palha dos colchões. O outro portão,
que era o principal, dava para a rua. Era bastante largo, de modo a que o carro
da vaca pudesse passar, e era feito em duas metades. Numa das metades, havia
uma porta que servia de passagem às pessoas. Esta porta era fechada ou aberta
por uma tramela. Não havia necessidade de haver portas fechadas à chave,
trancas ou cadeado.
Que memória e que grande lição de "História da vida privada"! A coerência, o pormenor e a ternura são as tintas com que foi conservada a casa dos avós paternos.
ResponderEliminarTudo nos foi fazendo e com tudo nos vamos reconstruindo.
Lição de fidelidade às raízes! Obrigada, Maria.
Realmente,Maria, as casas de então eram uma tristeza, mas eram mesmo assim. Estava a ler o teu texto e ao mesmo tempo a visualizar outras imagens semelhantes.Foram essas mesmas casas que nos viram crescer.Memórias belas.
ResponderEliminarEste é o mundo rural que eu bem conheço. E é encantadora esta descrição. Tão minuciosa, tão real... O cenário patenteia-se aos nossos olhos, as personagens ganham vida, movimentam-se... É um capítulo da nossa história que nos revisita.
ResponderEliminarMuito bem, Maria!
Uma forma de visitar o passado afectivo com imensa ternura e minúcia.Recordar é também viver!
ResponderEliminarO poder de descrição minuciosa deste trabalho fez-me parar e refletir sobre uma realidade que não está assim tão longe quanto se julga. Entrei, durante o meu trabalho profissional, em muitas casas como a dos teus avós e não me parece que as pessoas fossem menos felizes do que as que vivem em apartamentos fechados, em prédios tão próximo de tudo e tão isolados de si mesmos.Nem mesmo penso que a felicidade possa ser associada a riqueza ou pobreza - a felicidade é uma busca contínua que parte de dentro e se encontra no outro. É isso que encontro neste texto Maria: uma felicidade enorme que se reflete no teu olhar minucioso e no teu orgulho pelas tuas raízes. Gostei muito, muito, Maria!
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