segunda-feira, 29 de abril de 2013

A PETA DO COMANDANTE

José Luís Vaz

Uma família normal
Cidadão português, vinte e três anos, casado, pai de uma pequenina de quase nove mesitos, dava o seu contributo patriótico ao serviço das forças armadas, no Regimento de cavalaria 7, separado por uma ténue parede do Palácio de Belém, residência do presidente da república. Estávamos a 25 de abril de 1974. De acordo, com os regulamentos, só tinha que dormir no quartel, quando a escala o obrigava a permanecer 24 horas de serviço. Dava-se ao luxo de poder fazer uma vida, dita normal, entrando às oito ou nove da manhã e quando eram 17, 17.30, lá ia ele para casa dos sogros, uma verdadeira pousada, e aí, tinha o privilégio de desfrutar da vivência com a sua mulher e filha. Eram 4 da manhã e o telefone não parava de tocar. Acordado pela mulher, levantou-se, a cambalear de sono, desceu a escada e lá foi atender.
— Estou?
— É da casa do furriel miliciano Vaz?
— Sim, ó pá, o que é que aconteceu, para me estarem a telefonar a uma hora destas?
Quase a gaguejar, o soldado, que estava incumbido de avisar todos, e eram muitos, os que dormiam fora da unidade, dizia que, urgentemente, se tinha de apresentar no quartel. Em simultâneo era a campainha da porta de casa que não parava. Agora, já bem acordado, foi direito à janela, que de imediato abriu, olhou para o passeio rente à porta de entrada do prédio e vê um furriel miliciano, companheiro das lides militares, a quem perguntou:
— Mas o que é isto, Nunes, está tudo maluco, então não percebes que com esta barulheira toda, me acordas as pessoas?
— Ó pá é urgente, vem depressa, estamos à tua espera.
Nesta altura, começa a achar tudo muito estranho, porque, um pouco mais à frente do furriel estava estacionado um jipe militar com dois soldados de espingarda metralhadora, com um ar de poucos amigos e o dito Nunes, igualmente armado com uma pistola – metralhadora, não parava de insistir que era urgente, que era urgente e ia olhando para a um e outro lado da rua.
— Ouve lá Nunes, mas afinal, o que é que se passa, tu não sabes que eu me desloco no meu carro? Está tudo maluco, então alguma vez me vieram buscar de jipe?
O 1º de maio começava mais cedo
— Ó pá, mas vais no teu carro? Se vais, pronto, vai depressa, que nós vamos buscar outros. Em datas consideradas pelo regime como perigosas, era certo e sabido que o Regimento de Cavalaria 7 entrava de prevenção, querendo isto dizer que ninguém se podia ausentar da unidade e, por conseguinte, era isso que se passava, aproximava-se o primeiro de maio e pronto, desta vez, era com a antecedência de uma semana, o que, de facto, nunca tinha acontecido. Não havia nada a fazer, o Zé Luís subiu a escada, já a bufar, e disse à mulher que, para aquela cambada, este ano o primeiro de maio, começava cedo e, rapidamente, meteu num saco de viagem, que utilizava nestas ocasiões, a roupa que iria necessitar porque ia entrar em clausura. Entretanto, ficou a pairar no ar daquele quarto algo, que a dois era notado, de que qualquer coisa não estaria bem. Nunca ninguém lá tinha vindo a casa aquando das outras prevenções, telefonavam, normalmente a horas, bem diferentes, e desta vez vinham de jipe, com todo o pessoal armado até aos dentes?
Ele decidiu assumir, numa atitude de muito convencimento, que não havia mais nada a pensar, este ano era com uma semana de antecedência e pronto, pois percebia que a mulher estava a ficar preocupada e essa era a melhor forma de dar a entender que a ele nada mais o preocupava, a não ser a separação obrigatória para entrar no “convento”. Uns beijinhos de despedida e lá vai ele. A viagem era curta, mas nem por isso deixaram de lhe passar pela cabeça algumas hipóteses que o preocupariam imenso se fossem reais. Era irmão de um desertor, tinha um amigo do casal em Caxias e, aos fins de semana, muitas vezes iam acompanhar a amiga — ela iria nem que tivesse de ir a pé — para visitar o marido. O regime era silencioso e qualquer pacato cidadão podia ver-se incomodado, quando menos esperava. As marcas da deserção do irmão eram evidentes e a qualquer momento poderiam surgir provocações, insinuações ou outras coisas piores que ninguém podia perspectivar. Estacionou o carro, já na Calçada da Ajuda e não notou nada de especial, a não ser que o portão do quartel estava fechado, conforme aliás, era prática corrente quando de prevenção. Bateu ao portão e o soldado de serviço, de imediato, abriu um pequenino postigo, para poder ver quem era.
— Então pá, abre lá isso, o que é que se passa?
— Preciso primeiro ver a sua identificação.
— Estás a passar-te ou quê? Tu não vês, estou fardado, não me conheces ou estás a brincar comigo?
— Meu furriel, são as ordens que recebi do nosso primeiro-sargento, tenho que ver a sua identificação.
Não havia memória de tal procedimento, o que fazia pensar que desta vez, a “guerra” era mesmo a sério. Exibida a identificação, a porta foi de imediato aberta e logo de seguida fechada.
— Então, agora já me conheces? Anda, fecha rápido que vem lá o papão.
A respirar fundo e demonstrando algum alívio confidenciou ao furriel que andava tropa na rua e que o 1º esquadrão, o do furriel, também já lá andava. Entretanto, tinha recebido ordens muito rígidas sobre o procedimento a ter com quem pretendesse entrar na unidade. Tudo estava a ser diferente desta vez, mas havia que encontrar alguém com quem recolher informações mais credíveis. Logo à frente, o gabinete do oficial de dia, luz acesa, e meia dúzia de pessoas lá dentro. Estava de serviço um aspirante miliciano e isso fazia a diferença. Àquelas horas da madrugada só ali estariam os que estavam de serviço e um ou outro que também já tivesse entrado na unidade porque, em cavalaria, não havia misturas, furriéis e sargentos para um lado e oficiais para outro. Os soldados, esses então, eram uns seres minúsculos que tinham que se resumir à sua insignificância. Eram as regras militares que ali funcionavam implacavelmente. Ao empurrar a porta para entrar quando, naturalmente, ia para dar os bons dias, todos, com rostos apreensivos a uma voz diziam:
— Xiu, xiu, pouco barulho!
Estavam debruçados sobre um rádio que o furriel acabado de chegar também, automaticamente, começou a ouvir.
Aqui, Movimento das
Forças Armadas
“Aqui, Movimento das Forças Armadas, …. Solicita-se, a melhor compreensão da população em geral para que se mantenha em suas casas, de forma a não se verem em situações complicadas e facilitarem as operações em curso…” Agora dava mesmo para acreditar que algo de muito estranho se estava a passar, mas como não podia falar, só a troca de alguns olhares pretendiam dizer aquilo que era impossível de entender. De seguida, uma música, tipo militar e aí deu lugar à pergunta inevitável.
— Por favor, digam-me o que se passa. Não sei nada e para entrar nesta porcaria até o cartão tive que mostrar à sentinela. Isto, para não falar no Nunes que foi armado em pistoleiro tocar-me à porta de casa.
— O quê, o Nunes também foi à tua casa? O gaijo ficou à rasca quando lhe deram ordem para ir buscar a malta.
— Ó pá, deixa-te de paleio e contem-me o que se passa. É verdade que o 1º esquadrão saiu para o exterior?
Claro que era verdade. Foi com destino ao Terreiro do Paço, comandado pelo 2º comandante Ferrand de Almeida. Sabiam que havia mais tropa na rua, que uns indivíduos à paisana tinham tentado agarrar o major Pato Anselmo, quando vinha a entrar na unidade e, de resto, muita expectativa, porque muito se desejava saber, mas na rádio repetiam o comunicado constantemente e, pelo meio, passavam a dita música, em jeito de hino. Era madrugada, muito cedo, não havia telemóveis, e se alguma coisita iam sabendo, era pelos telefonemas recebidos. 
O tempo custava a passar, ninguém falava abertamente, vivia-se em ditadura, mas muitos  deles sonhavam, em silêncio, sem saber bem com quê. Chegou o Lima, um outro furriel, amigo do Vaz, que contou ter visto movimentações de muitas viaturas militares e manifestava-se muito assustado, perante a hipótese de uma confrontação entre pessoas com a mesma farda. As dicas, os ditos, o disse que disse, passaram a ser tantos e tão contraditórios que o mais razoável era tentar manter a calma. Sabia-se que o comandante, homem da confiança do regime, coronel Romeiras Júnior, permanecia fechado no seu gabinete a fazer chamadas telefónicas ininterruptas, sem sequer se preocupar em informar o pessoal. Preocupado e sem novidades, o furriel Vaz decidiu telefonar para casa. 
Fechou-se numa espécie de cabine telefónica que havia no bar de sargentos e furriéis e ligou.
Só queria dar noticias
— Tina, sou eu.
— Onde estás, tás bem?
— Só te queria dar notícias, estou bem, estou no quartel.
— Mas, estão a dizer na rádio, para as pessoas se manterem em casa porque, na rua, há movimentações militares?
— Estou a ver que também sabes o que eu sei, que é pouco. Posso dizer-te que quando entrei na unidade, já tinham saído dois esquadrões, sendo um deles aquele a que pertenço. Olha mulher, não sei mesmo o que se passa, mas cheira-me a algo muito sério.
— Então, e não houve problemas por tu não ires com o teu esquadrão?
— Não, muitos ainda não tínhamos chegado, mas, segundo me contaram, a saída foi uma azáfama. Consta aqui que o 2º comandante que foi a liderar os dois esquadrões ia muitíssimo nervoso.
— Tem cuidado contigo e dá notícias quando souberes alguma coisa. Um beijinho.
— Outro para ti, xau.
E a manhã, que bem comprida estava a ser, foi rematada com um almoço em que, pelas diversas mesas, se tinham conversas mais ou menos discretas, sem que ninguém arriscasse prognósticos. De um momento para o outro, alguém, alto e bom som, comunicou: 
Na tropa não se fazem perguntas
Todos os furriéis, do reconhecimento e carros de combate, se deveriam deslocar para as respetivas viaturas, porque havia necessidade de formar uma coluna que fosse levar o almoço, ao Terreiro do Paço, aos que lá se encontravam. O mesmo acontecera nas messes de oficiais e soldados e não tinha passado um quarto de hora, tudo estava pronto a partir para a acção solidária e humanitária de levar comer a quem tinha fome. A comandar tudo aquilo, o comandante do regimento de cavalaria 7, o que, manifestamente, era estranho, mas na tropa, pelo menos naquele tempo, não havia perguntas. Chegados ao Cais de Sodré, em vez de seguirem em frente, na direcção dos esfomeados, tomaram a direcção da rua do alecrim, indo parar ao largo de Camões. Aqui, o estado de espírito era já bem outro se bem que de muita espectativa e de algum receio, para os mais responsáveis. O espectáculo tinha começado no início da rua do alecrim. 
Viva a liberdade
Populares, muitos populares, à volta das viaturas, delirantes, de olhos brilhantes, alguns deixando cair uma lágrima, gritavam com quanta força tinham: “Viva a liberdade”, “morte ao fascismo”, “o povo unido jamais será vencido”. E, em cima das viaturas, jovens com sangue na guelra, nada podendo fazer, assistiam a tudo aquilo, percebendo agora o mais importante: a ditadura tremia, seria verdade, o que iria acontecer? Entretanto continuavam sob o comando de um homem fiel ao regime. Ali permaneceram, horas e ninguém informava ninguém. Em determinada altura, o comandante mandou a coluna descer novamente a rua do alecrim e parecia credível a ideia de regresso ao quartel, mas não, passou a dirigir-se para Monsanto e, segundo notícias da rádio, com a intenção de atacar o regimento de comunicações, lá localizado. Na chaimite onde ia o furriel Vaz, ia também o aspirante Gaivão. Ambos sonhavam com o fim da aventura, começaram a perceber que quatro jovens, vestidos à paisana, dentro de um automóvel, seguiam atrás da coluna, ultrapassando-a às vezes, numa atitude vigilante. Quem seriam? Seriam militares pertencentes ao apregoado Movimento das Forças Armadas? E muito baixinho dizia o Gaivão:
— Vaz, será mesmo verdade, vamos ser livres?
— Fala baixo. Eu só gostava de saber o que é que aquela prenda quer fazer, quais serão as intenções dele? Referia-se ao comandante que, decididamente, ia sozinho, imbuído nos seus galões. De repente, já em plena serra de Monsanto, tudo para. No carro de combate onde seguia o comando viam-se dois soldados a espreitar os depósitos de combustível. O que estaria a acontecer? A melhor prenda que no momento se podia ter. Um dos depósitos estava quase vazio, o que era extraordinariamente perigoso. Toda a coluna passa então a dirigir-se para o quartel, ali próximo.
Crianças e cravos...
— Vaz, se nos apanhamos dentro da unidade, já não saímos, que me dizes?
— Mas estão a dizer que a ideia do gaijo é ir atestar. Lá veremos. Temos que ver o que se passa lá dentro. Nada de atitudes individuais. Sair da unidade será uma loucura, agora que isto parece estar no papo. Vamos ver, vamos ver…
A ansiedade atingia uma dimensão difícil de explicar, própria de momentos de altíssima tensão. Estes rapazes, comandados por um louco que ainda se não tinha apercebido que já não tinha ninguém do seu lado, nem sequer podiam tentar fosse o que fosse para travar a sua cegueira. Entraram na unidade. Foi a loucura. Todos os que nela permaneciam abordavam os recém-chegados dizendo-lhes que o fascismo tinha acabado e que daquela unidade mais ninguém sairia. Assim foi. 
Somos livres!
O comandante, mais uma vez, fechou-se no seu gabinete, mas desta vez para beber, sozinho, e ali ficou até altas horas a encharcar-se.
— Estou, Tina, finalmente, mulher, somos livres!
— Estás bem, só agora me dás notícias?
— Entramos agora, mas ninguém mais sairá daqui, depois vou contar-te tudo, o mais importante, é que a nossa filha vai viver em liberdade.
— Que bom, que bom… Então não te envergonhas de teres andado a apoiar o regime até às sete horas da tarde? Segundo estou a ouvir nas notícias, vocês são os únicos resistentes.
— Só me faltava esta… Agora, vou é ver se como alguma coisa, estou cheio de fome e dizia aquele esperto que íamos levar a comida aos do Terreiro do Paço.
— O quê, que história é essa?
— Depois te contarei, foi uma peta do comandante. 

7 comentários:

  1. Ó Zé Luís isso é que foi uma grande peta que o vosso comandante vos pregou... Gostei muito desta descrição do movimento do 25 de Abril contada por uma pessoa que o viveu intensamente. A descrição dos acontecimentos tão detalhada.

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  2. Mas que maravilha Zé Luis. Até parece que foi ontem de tão presente estar nas nossas memórias todos os acontecimentos vividos na altura. Agora compreendo o teu comentário ao meu texto. Na noite, o Eduardo Jorge, também ele furriel miliciano, e sendo a patente mais alta que estava de serviço, tinha instruções para se visse algum movimento estranho e fora do normal, que abrisse os portões e deixassae entrar os carros militares. Como nós vivemos ainda estes momentos... e, para espanto meu, vejo na TV os jovens dizerem que Marcelo Caetano foi um capitão de Abril e foi ele o mentor do movimento. Onde estavam os pais destes meninos no 25 de Abril? Há Deus? Valha-me Deus...
    Agora estava aqui a noite toda a falar do 25, 26 de Abril e por aí adiante... E o primeiro, 1º de Maio? Foram dias tão felizes!!!
    ISTO JÁ NADA NEM NINGUÉM NOS PODE TIRAR, FOI VIVIDO POR NÓS.
    Adorei Zé Luis. Obrigada

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  3. A escrita tem destas coisas... Apesar de já ter ouvido estas histórias dezenas de vezes, não fui capaz de parar de ler até que o texto acabasse! Tanto pelos detalhes que só a escrever são descritos, como pela intensidade da emoção da escrita... Eu sou o irmão da bebé de 9 meses. Sou o 25 de Abril + 2.
    Concerteza que se tivesse estado na tua pele me teria (desculpem a expressão) borrado de medo, mas esse medo, como já disse no comentário ao texto da Maria, há de ter dado lugar a uma felicidade e emoção extrema! Como não houve sangue nem dois lados da barricada, devem ter sido dias e mesmo semanas fantásticas de tanta emoção por poder ter um país livre para nós e acima de tudo para os filhos!
    Gostava de ver a continuação deste texto. As histórias (algumas) que também já ouvi, mas que valem a pena ser esmiucadas, recordadas e eternizadas !
    Será possível realizar a vontade deste humilde leitor?

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  4. Quase que me apetecia dizer: isto dava um livro! É mesmo verdade: aí está o tema que, mesmo sem dizer nada, andavas á procura. Não são histórias, são vivências que, na maior parte das situações, permanecem na memória de tantos anónimos que as viveram e que as guardaram no baú fechado do passado. Há acontecimentos que marcam uma geração: nós somos os privilegiados que viveram uma época em que se quebraram as amarras do obscurantismo. Quantos jovens saberão, por exemplo, que este blogue já teria sido calado se ainda existisse o “lápis azul”? Quantos mesmo saberão o que fazia esse lápis?

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  5. Esta narrativa tão viva dos acontecimentos faz-me ainda reviver a emoção daquele dia. Nada, porém, que se compare com a do furriel miliciano Luís Vaz. Depois daquela madrugada tão misteriosa e duma manhã cheia de enigmas e silêncios, com uma peta à mistura, e a tensão ao rubro, o desfecho deve ter tido um duplo sabor a vitória.
    E, parafraseando a Albertina, podermos escrever livremente, sem a ameaça constante do implacável lápis azul foi uma das grandes conquistas da revolução.

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  6. Quando montarmos a estratégia adequada para acabar com a ditadura do setor financeiro, que nos asfixia, quantos "Ferrand de Almeida" e "Romeiras Júnior" sairão à rua e com que armas? Ou já estarão na praça pública e não lhe conseguimos divisar o rosto?
    Estas histórias do passado também têm de ser lidas à luz do futuro.
    Muito bom, José Luís.

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