Fui ver nascer o Sol. Tinha
decidido: amanhã vou observar o nascer do sol. E ainda as árvores do meu jardim
se espreguiçavam no lânguido e pesado escuro, já eu, sorrateiro, me esgueirava
pela artesanal porta do quintal. Queria, por inteiro e com todo o detalhe,
presenciar o aparecimento do sol, entre a penedia das fráguas, o primeiro
contacto da sua luz com a cortina verde dos freixos e amieiros adjacentes às
águas do rio e ver a calculada reacção da seara verde das espigas, que
ondulavam na ladeira do velho monte.
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| Fui ver o nascer do sol. |
Antes que a familiar escuridão desse
qualquer sinal de se dissipar, assaltou-me uma inconsciente apreensão do que
sucederia se o sol não viesse, por se ter enganado no seu percurso, por
capricho da sua natureza, por se ter enredado e entretido em amores com alguma
estrela jovem, que as deve haver lindas, - fruto das últimas explosões dos
buracos negros! – ou, quiçá, por se propor assustar o seu sistema solar,
nomeadamente a Terra ou qualquer outro planeta mais reguila ou mais distraído.
Mas a razão respondia à minha apreensão imaginária, afirmando-me com o
argumento da ostensiva tradição, que, sem GPS, o astro rei, embora já com
alguns truques, no seu “curriculum vitae”,- a fazer acreditar milagres, por
determinismo ou ordem superior,- sempre foi fiel na sua rota, e, por isso,
aceitava que a sua constância na pontualidade virá a ser por muitos milhões de
séculos até se tornar insolvente de combustível, e obrigado a desaparecer por
inacção ou esgotamento ou a fundir-se em ritos de magia e de esplendorosa luz.
Na minha natural limitação cheguei ao cimo da enrugada e velha encosta em menos
de meia hora, com passo bem meditado, e por ali fiquei, entre o contemplativo e
o ansioso, a aguardar qualquer sinal anunciador da primeira réstia de luz, que
testemunhasse a aproximação da força, do poder, e do fausto, do grande astro
solar.
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| ...odor de plantas bravas |
A expectativa envolveu-me, em afagos de um perfumado odor de plantas
bravas, adoçando-me a derme com anunciados elementos que me pareceram de
messiânica novidade de que algo ia acontecer. Ouvi com apreensão, o quebrar do
silêncio ainda meio adormecido, o contínuo e manso ressonar do rio, a afirmar e
a lembrar, no fundo do vale, a sua presença, com a água, que se adivinhava, a
esgueirar-se do açude pela garganta das grandes pedras ali expostas pelas
razões da natureza, seguindo o caminho rasgado e ajustado, nos tempos idos,
pela tenaz força do caudal. A lua sorrateira já se havia recolhido no seu
quarto minguante, vestida de mistérios de penumbra, cumprido o percurso, sem
ter deixado qualquer mensagem meteorológica digna de apontamento. Algumas casas
da aldeia com fumos enrolados a sair das chaminés, davam sinais de que alguém
havia abandonado o aconchego do leito para se fazer ao dia, rente a chegar. A
penumbra atenuou a sua densidade em jeito



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