Júlia
Sardo
Maria era uma criança
gorduchinha de cabelo comprido sempre penteado em trancinhas e presas em feitio
de mala. Vestia pobremente, umas sainhas de chita e umas blusinhas com flores,
de manga comprida e franzido na cinta, feito com elástico. Era a filha do meio,
de um grupo de cinco irmãos. Os pais eram pessoas muito humildes, viviam com
muitas dificuldades, por isso não podiam dar uma boa refeição aos filhos.
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Trabalhavam de sol a sol |
Dos cinco irmãos, as duas
mais velhitas eram as mais sacrificadas, porque não foram aprender as letras,
para a escola. Não era obrigatório ir aprender a ler e escrever; isso era um
luxo, só para os filhos dos ricos.Ficavam em casa, tratando
dos irmãos; faziam alguma coisa para comerem, enquanto os pais trabalhavam até
ser noite.
Além da Maria, havia a
Custódia, que era a mais velha, a Joana, a Glória e o Manuel, também chamado
Manatum, não sei porquê; talvez por ter nascido muito depois das irmãs e ser
novito, em relação a elas.
Pois, continuando a falar de Maria; ela foi crescendo e trabalhando para ajudar na lida da casa que, apesar de ser pobre, tinha de ser limpa. O chão da pequena casa era de terra, coberto de junco, que iam buscar aos juncais perto da ria, a borda, como vulgarmente chamavam, e este tinha de ser mexido ou substituído com regularidade. Lavava a roupa, no tripé de madeira, com a água que tirava do poço, com um balde amarrado a uma corda. Punha a roupa lavada numa celha de madeira, para ir secar ou, então, alguma mais suja, tinha de ser posta a corar.
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Lavava a roupa |
Pois, continuando a falar de Maria; ela foi crescendo e trabalhando para ajudar na lida da casa que, apesar de ser pobre, tinha de ser limpa. O chão da pequena casa era de terra, coberto de junco, que iam buscar aos juncais perto da ria, a borda, como vulgarmente chamavam, e este tinha de ser mexido ou substituído com regularidade. Lavava a roupa, no tripé de madeira, com a água que tirava do poço, com um balde amarrado a uma corda. Punha a roupa lavada numa celha de madeira, para ir secar ou, então, alguma mais suja, tinha de ser posta a corar.
Os irmãos davam-lhe muita
canseira. Eram traquinas e podiam-lhe fugir, para a borda da ria, para brincar.
Entretanto, os anos foram
passando; ela fez-se uma adulta em ponto pequeno, apressadamente, começando a
querer fazer como a mãe; fazer-se peixeira.
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Maria - menina |
Começou a namorar, novita,
com o seu Manel, também ele pobre; passados meses resolveram casar para formar
a sua família.Conseguiram construir uma
casinha pequena, só com o essencial, para poderem viver. Ele fez-se pescador dos
barcos de pesca longínqua e lá foram organizando a vida deles. Tiveram cinco filhos e foram
vivendo, com o auxílio do dinheiro que Maria ganhava na venda do peixe.
Todos os dias ela lavava os
utensílios que utilizava no transporte do peixe: a canastra, o oleado que punha
por cima da canastra, para que a água não escorresse e a molhasse, a
serapilheira que era para tapar o peixe, depois de molhada, para que o peixe
estivesse sempre fresquinho.
Coitada, ela tinha alguma
dificuldade em organizar as suas vendas; como não frequentou a escola, não
sabia ler nem contar; então como podia fixar quem lhe ficava a dever dinheiro?
Sim, porque como as pessoas
viviam com muita dificuldade, havia muitos fiados e só pagavam quando os homens
vinham do mar ou mesmo quando acabava a faina da marinha.
Tanto pensou, que lá conseguiu
arranjar uma maneira, simples, de saber os débitos;
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Maria fez-se peixeira |
Quando recebia o dinheiro da primeira venda, benzia-se, dizendo que era para ter sorte.
Cada freguesa era sinalizada com um símbolo, que só ela conhecia, e o débito era feito com risquinhos, no tal livrinho preto.Assim, foi orientando a sua vida, os filhos foram crescendo e formando as suas famílias.Tornou-se uma mãe e uma avó maravilhosa, compreensiva e muito amiga, boa conselheira.
Era uma delícia pedir-lhe
conselhos. Tinha sempre uma opinião para dar, mesmo com uma forma simples de
linguagem, que a todos agradava.
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Avós do meu país |
Era tão reta na sua maneira
de ser, que se tornou a fiadora e garante, das colegas de profissão, que não
tinham dinheiro para pagar, na lota, o peixe que compravam para depois vender.
Foi sempre uma pessoa muito
simples, mas muito amiga.
A palavra pobre é, muitas vezes, utilizada, talvez, duma forma demasiado fácil,banal,simplista, retirando à palavra o seu mais profundo significado.Este texto, retrata minuciosa e pormenorizadamente o verdadeiro significado da pobreza e não só. Ser pobre, não é, não ser, trabalhador!
ResponderEliminarJulinha como foi bom ler o teu texto. A tua memória é de elefante. Lendo-o é como a passagem de um filme a preto e branco de imagens bens reais.Para os mais novos que nem lhes passa pela cabeça o viver de antigamente, está tudo pormenorizado.
ResponderEliminarNa sua maioria, as pessoas eram pobres de bens materiais, mas de uma riqueza interior impar. Talvez por isso e como já passámos por algumas gerações, podemos fazer tão bem a análise de valores do antigamente e dos de agora.
Foi mesmo isso que tentei tetratar. Foi a realidade. Agradeço-vos o comentário e à querida Albertina a delicadeza com que escolhe as fotos. Gostei tanto...
EliminarQuando me dá o prazer de partilhar as suas publicações quase que fico parada no espaço e no tempo: os cenários de que nos fala são tão reais que quase me sinto transportada a uma realidade que não vivi mas que as suas palavras me retratam duma forma tão minuciosa quase como se tivesse a olhar uma tela numa paleta de pintor. Nesta caso pintora,Julinha... e percebo então que as nossas vivências se refletem sempre em tudo o que fazemos: na tela, no papel, na vida.
ResponderEliminarBom retrato, Júlia!Esta Maria faz-me lembrar as Marias da minha terra: começavam a trabalhar muito pequeninas, sem direito a frequentar a escola. Cuidavam dos filhos, da casa e acompanhavam os maridos nas fainas agrícolas. Gente que lutava corajosamente contra a pobreza e que tudo o que conseguia era sobreviver. Quem nos dera que todo o nosso povo ainda mantivesse as qualidades desta Maria e, sobretudo, que os nossos governantes fossem verdadeiros líderes!
ResponderEliminarA felicidade é uma intermitência de pontos de luz projetados na escuridão.
ResponderEliminarUm ponto de luz assumiu-se no espaço e logo outros acorreram a dialogar.
Isto já é a FELICIDADE.