sábado, 19 de março de 2016

Não sei que te diga, nem sei se te diga

Albertina Vaz 


Não sei que te diga, nem sei se te diga.
Não sei se sou capaz de falar das palavras, dos dias que corremos juntos, que passeámos de mão dada junto ao rio, que te ouvi e me ouvi, em que te confessei segredos, em que partilhámos sonhos, em que seguraste a minha mão e me levaste a transpor um degrau difícil, um obstáculo penoso.
aquela mão que me segurava
Não sei se sou capaz de recordar aquele sorriso dos teus olhos, aquela mão que me segurava, ou a tua voz grave que me prevenia dos caminhos tortuosos e serenava as minhas dúvidas quando o desconhecido me assustava ou o ignoto me atraía. 
Não sei se vou conseguir esquecer aquelas manhãs de sol, as gaivotas a circularem à nossa volta e os patos em fila a fugirem perseguidos pelo gato e tu e eu a rirmos até cairmos numa alegria feita esperança e sol nascente.
Não sei se ainda me lembro daqueles dias em que as nossas vozes se cruzavam e se digladiavam discordando e discutindo como se o mundo fosse acabar no dia seguinte, ou mesmo naquele dia. Não sei se me recordo dos dias em que nos deitámos de costas voltadas e de testa enrugada como se nunca mais houvesse possibilidade de voltarmos a apertar as nossas mãos.
Não sei se vou esquecer aquele circo repleto de animais e palhaços e acrobatas a que assistíamos juntos saboreando a magia de que tanto gostávamos e o feitiço duma noite diferente em que a tua mão prendia a minha e eu vivia o sonho de estar contigo e estarmos juntos.
Não sei se ainda me lembro da primeira vez que me levaste a ver um filme com uma história de fantasia em que a quimera se transformava em devaneio e a utopia se instalava sem receio, como se a vida de cada um de nós se esgotasse ali, naquele segundo, naquele instante.
Não sei se vou recordar a foto que me tiraste, o dia em que me foste buscar à escola, aquele em que não apareceste e o outro em que deverias ter estado e não estiveste. Nem sequer sei se me vou lembrar do olhar de censura, de desaprovação, quando te contei daqueles projectos que idealizava e das dúvidas e dos medos.
Não sei se vou sentir aquele abraço em que nos envolvíamos e aqueles momentos, só nossos, em que até as lágrimas pareciam sorrisos e os sorrisos deflagravam em soluços
Só sei que aquele momento em que me olhaste e não me viste e já não sabias quem eu era foi o voltar atrás no tempo e no espaço e deixei de ser mulher e deixei de ser pessoa e deixei de ser gente. O mundo desmoronou-se à nossa volta e só a ternura nos continuou a ligar
Ficaram para trás as palavras que não te disse
Ficaram para trás as palavras que não te disse, os abraços que te não dei, os livros que não lemos e as viagens que nunca imaginámos. Ficaram para trás as flores que não colhemos, a árvore que não plantámos, os versos que não escrevemos. Ficaram para trás aqueles dias em que nos olhávamos e não nos víamos e as noites em que te esperei para espreitarmos juntos a lua e contar as estrelas e descobrir constelações.
E agora, pai? Como vamos cumprir o que não acabámos, como vamos acabar o que nem sequer começámos? Como vamos chegar juntos ao fim da estrada que quero atravessar contigo e que não sei onde acaba?
Há palavras que não cabem num livro e há livros que não enchem o universo: hoje guardo ainda nos meus olhos as tuas mãos enrugadas a segurar o meu braço como que a agarrar-me à história que era nossa e que fizemos ao longo de um percurso tantas vezes cheio de garças e flamingos que continuam, por lá, a vaguear.
Quando a saudade aperta mais...
É verdade, pai: hoje, quando a saudade aperta mais, caminho ao longo do rio e vou falando como se continuasses aqui e nada se tivesse alterado desde o dia em que, a sorrir, te afastaste devagarinho e nunca mais te voltei a ver. E dou por mim a pensar que não partiste porque te sinto aqui em cada passo de dança, em cada flor que desabrocha, em cada dia que começa e em cada noite que acaba.
Obrigado, meu pai!

Albertina Vaz ©2013,Aveiro,Portugal

8 comentários:

  1. Linda homenagem poética ao que resta do que foi ou podia ter sido...

    ResponderEliminar
  2. De Aldina Duarte recebemos o seguinte comentário:
    "Que maravilha ter tido acesso a este texto tão cheio de amor ...
    Obrigada !...vou partilhar!"

    ResponderEliminar
  3. De Cacilda Marado recebemos o seguinte comentário:
    "Muito bonito o teu texto!"

    ResponderEliminar
  4. De Bernardete Reis recebemos o seguinte comentário:
    "Gostei muito do texto!"

    ResponderEliminar
  5. De Teresa Cardoso recebemos o seguinte comentário:
    "Linda homenagem!"

    ResponderEliminar
  6. De Orquidea Miranda recebemos o seguinte comentário:
    " Lindo!"

    ResponderEliminar
  7. Li e reli e emocionei-me a cada leitura destas memórias que foram ou poderiam ter sido. Tuas ou minhas, porque é o texto que eu gostaria de ter escrito para o meu pai, se tivesse a tua arte. Obrigada, Albertina, por me encheres o coração e me pores este aperto na garganta que não passa. Adorei!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Teresa. As tuas palavras são sempre um incentivo para continuar. De ti, que sabes como ninguém fazer da escrita um manancial de sentimentos. De ti que tocas nas palavras como quem saboreia um prato raro. Fico feliz por ter sido capaz de despertar em alguém o "aperto"de que falas.

      Eliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...