sábado, 23 de março de 2013

Eu tenho uma caneta


Albertina Vaz

Tinha uma caneta na mão: olhei dum lado, do outro, de trás e de frente. Era igual a tantas outras – canetas grandes, pequenas, azuis, simples, de tantas e tão variadas cores. Tantos tamanhos, tantas formas, tantos cheiros: há até canetas que falam, que dizem… coisas. Umas sem nexo como olá, tudo bem? Outras são canetas que não falam mas transmitem: gosto de ti, amo-te muito, não vou esquecer-me, tenho tantas … saudades!
Umas falam de campos em flor
São sempre canetas, é claro. Só que umas são canetas com cor e outras não passam de sombras; umas são canetas que falam de dias de sol e de campos em flor; outras são canetas que só vêm dias de nuvens cinzentas num céu sombrio a ameaçar tempestade. Umas são canetas dançarinas que falam de modas e que gostam de gostos de quem toda a gente gosta: são canetas vazias, sem conteúdo ou sem interior. Outras são canetas cinzentas, quase que relatam os factos e choram sobre um passado ou sobre um presente que, de tão negro, se faz negro profundo e termina quase, quase num fim de mundo.
Há canetas... que fazem da vida uma roda de mil cores
Há canetas vermelhas, azuis, amarelas… há canetas que brilham, que sorriem, que soltam gargalhadas e que fazem da vida uma roda de mil cores. Como um arco-íris, ou um círculo que vai e volta, num voltejar duma narceja que atravessa a ria refrescando o vento num agitar de asas remanseado pela brisa que se esgota num dia de Verão.
Há ainda aquelas canetas que sorriem de sarcasmo, que tudo criticam e que sabem – ah! sim elas sabem – que tudo está mal e que elas nada fizeram, nem contribuíram para esse erro que faz parte da história de todos nós e enche o céu onde proliferam as estrelas e onde tudo é perfeito.
Depois há as canetas dos doutores, dos que sabem a verdade e que a detêm como absoluta, a verdade que é a sua e que, de uma forma ou de outra, tem de ser imposta, sub-repticiamente, sem que alguém dê por isso ou sem que alguém se aperceba de que ela está a chegar, a entrar, a introduzir-se devagarinho, a instalar-se, a tomar o seu lugar.


...falam de "igualdade"
E estas são as canetas que falam de “igualdade” sem serem iguais, que falam de “direitos” sem gostarem deles, que apregoam “liberdades” mas que agrilhoam os homens a correntes que se não vêem mas se sentem e vão penetrando fria e dolorosamente na carne dos que sofrem a iniquidade, a injustiça, a maldade, a perversão.
E há também aquelas canetas que falam de coisas “boazinhas” que devem ser feitas – pelos outros -, que devem dar de comer a quem tem fome – mas não repartem o que lhes sobeja com os outros a quem tudo falta –, que fala de “caridade” mas coarcta a dignidade de poder suprir o seu sustento pelo direito ao emprego.
E aquelas que ameaçam, que apavoram, que atemorizam, que intimidam? – ou nós ou o caos – ou isto ou a desordem – ou o tormento de não terdes pão para dar de comer aos vossos filhos ou a confusão sem regra nem destino certo…
Não sabemos o que pensam, o que sentem
Mas nem todas as canetas escrevem: há canetas que não sabem e outras que não querem escrever! São canetas com uma cor especial – não sabemos o que pensam, o que sentem. São canetas que se fecham sobre si mesmas e, estando atentas aos outros, não conseguem ou não pretendem expor-se.
São canetas silenciosas que não murcham, não mirram mas também não florescem ou se o fazem caminham com passos de um silêncio profundo e ausente no espaço. Não sei muito bem o que se pode esperar destas canetas mas sei que as receio, como receio o que não conheço
Há canetas que semeiam tempestades
Eu conheço canetas ricas e pobres, translúcidas e transparentes, canetas que se dão e outras que se roubam numa banca qualquer, canetas que falam ou outras que emudecem perante um grito ou um som demasiado agudo que assusta e paralisa, que imobiliza quem anda e que agarra quem se apressa, quem foge, quem grita, quem se assusta ou quem emudece.
Há canetas que plantam flores e outras que semeiam tempestades – e há tempestades que têm de ser semeadas para que a bonança seja saboreada –, há canetas que constroem cabanas e outras que desfazem sonhos –, porque há sonhos que são sonhos e outros que não passam de sonhos –, há canetas que falam de liberdade e há canetas que fabricam a liberdade.
Eu gosto da minha caneta
A minha caneta é atroz, leva-me a escrever palavras que a minha voz não é capaz, não quer ou não ousa revelar. Mas eu gosto da minha caneta: através dela consigo transmitir o que a minha voz não ousa nem sequer apetecer, porque – tem dias – em que ela se transforma numa vida e dá vida aos pensamentos que a minha mente corre o risco de não querer revelar. A minha caneta não tem arabescos nem grafologias - é uma caneta que puseram nas minhas mãos e me obriga –  porque eu quero – a falar do que vamos fazendo nesta vida que é nossa e queremos seja futuro, seja destino por cumprir e por acabar.

7 comentários:

  1. Tantas canetas! E para quê, se tu só escreves com a tua? Com a tua caneta - porque tu queres - porque gostas dela - falas,escreves,fotografas,pintas,conforme te apetece!
    Será dom, será arte? Não sei. Gosto sempre de te ler.

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  2. O problema deste mundo é esse mesmo! O raio das canetas têm dono e a maior parte dos donos ou não as utiliza, ou as utiliza para escrever o que as canetas dos outos gostam de rabiscar ou ouvir... e no fundo o que precisamos é de canetas que escrevam! O que lhes vai na tinta, vá...
    Adorei!

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  3. Albertina como é que um corpo tão pequenino alberga tanto talento e inspiração?
    É uma delicia ler tudo que escreves. E há por aí tanta gente que escreve tão pouco e tão mal... São as tais canetas...
    Que a tua caneta nunca mais se acabe.
    Numa manhã de domingo mais ou menos desagradável, ler mais um texto teu... torna o nosso dia mais saboroso e porque não dizê-lo?... mais romantico.
    Obrigada por mais este bocadinho.

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  4. Perante um texto tão forte na expressão e tão abrangente no conteúdo, fica-nos uma certeza: a caneta com que a Albertina escreveu foi produzida na fábrica da sensibilidade e vendida na loja dos escritores.
    Belo texto!

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  5. Depois do comentário da professora, quem sou eu para dizer mais coisas. Sei que gostei muito, muito. Mas textos escritos pelas canetas da Albertina,são sempre bonitos, bem escritos. Essas é são canetas especiais.

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  6. A minha humilde caneta mal se atreve a comentar este texto da Albertina. Ela tem, de facto, uma caneta muito dotada, capaz de análises profundas da realidade e de lhes dar expressão com muita clareza e arte.

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  7. Obrigado a todos pelas vossas palavras tão bonitas. Fico sempre sem geito porque acho que me mimam demais.
    Estava á espera que todos comentassem para vos fazer um desafio. Falta-nos a Dores, e a caneta dela. Mas ela há-de regressar... O desafio era o seguinte: que tal falarmos da caneta de cada um de nós e do poder que ela tem para fazer "coisas"?

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