sábado, 30 de janeiro de 2016

O Boby

José Luís Vaz 


Havia um caçador que, durante a sua vida, teve vários cães. Um, o Boby, era muito especial para o dono, nem tanto para as outras pessoas. Era astuto, ladino e muito leal, só com o dono e traiçoeiro e manhoso com qualquer outra pessoa. Aquele homem tinha um orgulho enorme naquele animal, que descrevia como um verdadeiro cão de caça, tal a sua eficiência e astúcia em pleno mato. Ele corria, farejava tudo, entregava, com raro despacho, coelho ou perdiz ao caçador que o mimava com festas no focinho. Boby respondia com exuberante ladrar e saltos de satisfação.
 
Normalmente, pregava-a pela calada
        No dia a dia, passava o tempo junto à habitação do dono, num pequeno quintal que não lhe chegava, transpondo muros ou portões para policiar a rua. Aqui, o caso tornava-se muito sério, quando, por ventura, não lhe agradasse quem fosse a passar. Pessoas mal vestidas ou fardadas corriam sério risco ao tentarem passar e, muitas vezes, perante o ladrar típico de pretensa agressão, dono ou algum familiar vinham à porta para o chamar e ralhar com ele.
      Se bem que era perigoso para qualquer pessoa da casa aproximar-se da mesma durante a noite, porque ele só era leal ao dono, apesar de tudo, com uns raspanços, lá continuava, contra a vontade da esposa do caçador, que temia por algo de grave que pudesse acontecer.
        Normalmente, pregava-a pela calada, e desde ter rasgado as calças a um polícia, a batina a um padre, ter urinado nas pernas de uma senhora que, calmamente, conversava com a dona, a ter, repetidamente, feito correr um mendigo a sete pés, ele fez de tudo um pouco. O pouco tornou-se muito no dia em que rasgou a saíta de uma netinha da casa com apenas quatro anitos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

UM SORRISO

Maria Celeste Salgueiro

E tenho ainda o sol na minha mão

Qual principe de sonho tu surgiste
E eu fiquei suspensa e encantada;
A minha solidão tu invadiste
E logo a minha vida foi mudada!

Tive o sol na mão quando me sorriste,
Mudou-se a noite escura em alvorada;
Com uma seta de ouro me atingiste,
Depois seguimos ambos na jornada!

O tempo foi passando e nos marcou.
Há rugas no teu rosto que mudou
Mas que eu vejo através do coração.

E quando volto atrás em pensamento,
Eu sinto aida o mesmo encantamento,
Eu tenho ainda o sol na minha mão!...


Maria Celeste Salgueiro ©2016,Aveiro,Portugal

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Se eu fosse deus

Vitor Sousa 
Se eu fosse deus
Barjavel, se fosse deus, faria cantar as árvores e florir os pássaros.
Eu… Faria cantar a assembleia da república em etílicos cacarejos e florir com abundância a testa dos políticos.
Hastes desgarradas, brotadas de rebentos viçosos de tonalidades ímpares passando do vermelho vivo da romã à subtileza romântica do pessegueiro.
O aroma intenso lembraria nevões de amendoeira nas encostas de Foz-Côa, crepitado de cor no bordar florido das cadeiras.
O dinheiro seria trajecto de impressora e memória museológica criado em função da carência da vaidade.
Haveria honorários milionários e gratificações chorudas para os eleitos do momento.
Os políticos honrariam finalmente o propósito hilariante da sua existência.
Divertir o povo!                                                                  
Enfim…Alegações absurdas, de um absurdo incontornável!
Na verdade, se eu fosse deus, honraria o dinheiro como fruto do trabalho e torná-lo-ia obrigatório na partilha com modéstia.
Faria com que os homens nascessem livres e dar-lhes-ia asas para voarem por cima das diferenças.                  
Se eu fosse deus, libertava o homem desta forma de olhar o agora com desdém e deificar o além desconhecido.

domingo, 10 de janeiro de 2016

No rescaldo do Natal

Lena Marília Faria Castanhas


O Natal, na sua essência, faz parte de mim desde que me conheço. A tradição veio do meu pai que a recebeu dos seus antepassados de Amarante. Era indispensável fazer o Presépio, com as figuras guardadas no ano anterior e todas as outras que se iam adquirindo. Ficava dignamente instalado na sala e todos colaborávamos na sua montagem, com entusiasmo, alegria e muita imaginação. Com papel grosso e acastanhado, previamente amarrotado e carregado de musgo, representava-se a paisagem natural com rios e lagos (a água era simulada por um espelho) e colinas. Em local privilegiado, ficava a gruta que alojava o Menino, seus pais, o burro e a vaca e as restantes figuras eram espalhadas pelo espaço sobrante de acordo com a lógica de cada um de nós.
Ao lado, fazia-se a árvore de Natal com um pinheirinho, encimado por uma estrela prateada e enfeitado com fitas e bolas de cores variadas e pequenas velas vermelhas que só os pais podiam acender.
O momento principal do Natal era a ceia, a Consoada. À mesa, posta com requinte, sentava-se a família, vestida para aquela ocasião especial, e algum Amigo que não pudesse, naquela noite, estar com os seus. Nesse dia era permitido conversar, rir, contar histórias e quebrar mais algumas regras de “bem estar à mesa”.
A ementa era sempre a tradicional: sopa de lagareiro, bacalhau cozido com batatas, grelos e ovos, um prato confeccionado com couve troncha e bacalhau, ao qual o meu pai chamava “couvanças” (receita de família) arroz de bacalhau com bolos de bacalhau e arroz de polvo. Não se comia carne e a sobremesa era muito variada: rabanadas. Sonhos, coscorões de forma, torta de laranja, torta de noz, leite creme e pudim.
Na mesa de apoio havia pão de ló com queijo da serra amanteigado, passas, nozes, figos secos e pinhões, bombons e outras guloseimas.
Um pouco antes da meia noite, cada um de nós colocava um dos seus sapatos junto da lareira e ia para a cama porque, quando estivesse a dormir, o Menino Jesus descia pela chaminé e deixava lá um presente.

domingo, 3 de janeiro de 2016

O Cachim só sabe responder assim

José Cachim


    
O Cachim só sabe responder assim


Que obra tão meritória
Para gente assisada
O EVOLUIR é uma vitória
Que deve ser realçada


A mensagem recebida
Dá saúde e alegria
É o evoluir da vida
P´ra nascer em cada dia

Dá trabalho e canseira
É cultura e amor
Literatura de primeira
P'ra sossego interior

Saúde e alegria
Sempre sempre a EVOLUIR
E que toda a ACADEMIA
Encare a vida a sorrir


José Cachim ©2016,Aveiro,Portugal

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

UM CONTO DE NATAL

Idalinda Pereira

Sofia, nascida num palacete, rodeada de criados e de todas as mordomias, sem irmãos para partilhar, sentia-se triste por não ter amigos com quem brincar.

Quando um dia estava no seu jardim, desfolhando um malmequer, vê passar na rua um miúdo mal vestido e de sapatilhas rotas, mas, nos seus olhos, havia um brilho que pareciam duas estrelinhas… E Sofia, a quem nada era negado, convidou-o para entrar no seu jardim. O garoto aceitou e os dois deliciaram-se com as brincadeiras inventadas e impregnadas de travessuras.

- Como te chamas? - perguntou Sofia.
- Chamo-me João - respondeu o miúdo.
- Onde moras?
- Não tenho casa.
- Então onde dormes?
- O dono da quinta tem uma cabana onde dorme uma vaca, um burro e algumas ovelhas. Durmo no meio delas, que vigiam o meu sono e me aquecem.

Sofia ficou triste por o seu amigo ser tão pobre.
- O Natal está a chegar, vais ter prendas? - perguntou Sofia.
- Nunca tenho prendas - respondeu João.
Ouvem-se as três pancadas do sino da torre. João despede-se da sua amiga e vai caminhando por entre as árvores nascidas e plantadas ao acaso, em direcção ao seu aconchego.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Reencontro com a Esperança

Teresa Morais e Albertina Vaz ©2015,Portugal


Os olhos fitavam os olhos, sem reação. Gostava de ter o poder de ver através deles. Em que estaria a pensar? Oxalá o verbalizasse, que raio. Alegre por o rever? A odiá-lo? A porta continuava entreaberta, mas o braço em riste impedia a passagem.
O frio doía nos ossos. A noite acabara de se instalar. Era véspera de Natal. Um Natal que ansiava celebrar em paz, sem um permanente estado de alerta, sem o medo a roer-lhe as entranhas, sem ouvir tiros e detonações constantes, sem se defrontar, constantemente, com torturas, mortes e destruição, e a poder assumir, abertamente, a sua fé cristã sem receio de represálias.
O braço em riste continuava a barrar-lhe a passagem. Amal sorriu, tristemente. Tornara-se um estranho para o seu amigo Samir, porventura um intruso ou um ladrão, a seus olhos. E não teriam sido os meses, longos como o arrastar daquela absurda guerra, sem notícias um do outro e vividos em dois países diferentes e distantes, que seguravam o braço de Samir – Amal percebeu que estava irreconhecível: a extrema magreza, a longa barba a cobrir-lhe o rosto emaciado, os olhos cansados e tristes, os ombros descaídos, vergados ao peso da sua história recente e dolorosa, na sua amada e distante Síria. O frio doía-lhe nos ossos, a frieza do olhar de Samir doía-lhe no coração.
Correram-lhe lágrimas pelo rosto – a dor do reencontro, que sonhara diferente, misturava-se com a exaustão que atingira pela longa e penosa viagem até àquele país de uma Europa quase insuspeitada, o seu destino de recomeço, de esperança, de fraternidade, de paz.
Pela mente, passavam-lhe, numa sucessão vertiginosa de imagens, as distâncias que percorrera até os pés lhe sangrarem, a fome e o cansaço que sentira, a desconfiança, e até ódio, que lera em muitos olhares, finalmente a ajuda humanitária a assegurar-lhe o essencial.
Saíra da sua outrora bela, mas agora destruída cidade natal de Alepo, em Agosto, pela calada da noite, com o temor por bagagem, e transpusera as montanhas até à Turquia. Atravessara o Egeu, sem lhe ver o azul das águas, num frágil bote, apinhado de vontades e de esperança, e chegara à Grécia. De comboio, autocarro e a pé passara por países com nomes estranhos e impronunciáveis – Macedónia, Sérvia, Croácia, Hungria, Áustria, e em Paris se cruzara, por mero acaso, com um conterrâneo que lhe dera a morada de Samir.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

QUANDO EU PARTIR

Maria Celeste Salgueiro 

Se recorde de mim

Quando eu partir
Eu sei que vou deixar
Janelas por abrir,
Coisas inacabadas
Que para meu pesar
Não tiveram um fim,
Ficando mergulhadas
Em denso esquecimento.
Porém no meu jardim
Tudo continuará
Como era antigamente:
A velha cameleira
De novo vai florir
Em cada primavera;
As flores de buganvilia
Vão abraçar o muro
Todo em branco caiado,
Lançando o seu perfume em todo o lado;
As pombas a arrulhar
Vão fazer o seu ninho no beiral.
Tudo será igual.
Só eu lá não estarei
Sentada no meu banco.
Tantas recordações
Voando pelo ar!
Talvez meu pensamento
Lá fique a vaguear
Pelas áleas do jardim.
Talvez por mero acaso
Alguém que por lá passe
Se recorde de mim!...

Maria Celeste Salgueiro ©2015,Aveiro,Portugal

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

FÁBULA DA RATAZANA

Vitor Sousa 


Quatro da manhã.
O mordiscar da chuva nas telhas de barro criam uma sonoridade surda e embaladora que condiciona “o levantar” do Manel.
A farinha reclama a carícia das mãos e o forno já se impacienta com a chegada do pão na ânsia de o tornar dourado e estaladiço.
- Toca a levantar, Manel, dizia ele, de si para si.
Alem disso, constou-se que o doutor trazia um escrito novo, que prometeu ler em voz alta em primeira estância na padaria.
O sol esboçava já os primeiros ensaios de luz entre as decrepitas chaminés da velha fábrica de cerâmica que destronava o horizonte.
É um circo de vaidades...
Uma leve brisa varria as folhas dormentes do chão e o doutor, depois de uma leve pausa, meteu mão ao punho da porta e entrou.
Olhar discreto, franzino, semblante camiliano, bigode farto e tinto de fumo.
Após um tímido bom dia, inspira, rebusca um eco nas entranhas da alma e sem demora pega no papel que lê enfático de mão tremula:
- Ora, lá vai…
A política, na sua prática actual, é um manifesto de comportamento primário e mesquinho, para privilegiar o ego e o grupo.
Uma versão simplista de comportamento tribal, alheada das carências e necessidades urgentes de uma nação inteira.
É um circo de vaidades e veleidades obscuras.
Alegam-se laivos de importância desmedida na glorificação do ego.
Nada os detêm ao abrigo de uma qualquer legitimidade, de devassar e espezinhar a dignidade de um povo.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Lamento muito, mas soubeste-me a pouco

Albertina Vaz 

Encontrei-a num tempo frágil, quando a vida parecia ter quebrado todas as cordas e amarras que a prendiam a um ciclo que quis terminar. Falava-me de penas, de sonhos perdidos, de aves sem asas e de imagens sem cor. Falava-me de um espaço em que se sentira presa e de asas que batiam sem voar. Contava-me, minuto a minuto, a caminhada que não fizera no dia em que se prendera – sem o desejar – a uma estrada que não andava e a imobilizara entre o novo e o sol nascente.

Queria ser escutada – e falava como se eu não estivesse ali. Ouvia-a sofregamente como se o deserto – ali tão perto – paralisasse uma nuvem de sombras que não sabia ou não queria tornar reais. Sentíamos o esvoaçar da passarada à nossa volta. Quis apoiar aquela mulher que sentia a chuva a molhar-lhe o rosto e o sol a tisnar-lhe a pele. Outra vez.
Quis vê-la a voar e amei o silêncio da minha voz.

Pediu-me uma mão, um ombro para chorar, uma canção para recordar. E fizemos longas caminhadas ao nascer do sol, quando a brisa chegava e as confidências se enredavam num mar de luz e cor, quando tudo parecia ter parado e o mar se desmanchava em ondas de areia. Fui uma voz que escutava, um livro que se abria, um som que se irmanava. E percebia-a a renascer. Dei-lhe tempo e respeitei o seu desassossego. Quis vê-la a voar e amei o silêncio da minha voz.

O tempo, que tudo sara e tudo esquece, fez com que, um dia, me sentisse a mais e dei-lhe espaço para se revelar – aos outros e a mim.

Foi então que desvendei uma face escondida e alguém que realmente desconhecia – senti que uma flor se desfolhava e as pétalas caiam, como lágrimas colhidas em pingos de sal. Vi uma imagem encoberta, feita de raiva e ambição, espezinhando quem, ao seu lado, lhe estendia a mão. Deixou de sorrir – ria-se dos outros. Já não amava – fechava-se, num turbilhão de corridas e amores. Já não se ouvia, nem ouvia ninguém. Usava os sentimentos como quem amarrota uma folha de papel.

Voltei a encontrá-la, num redopio de fama, procurando auditório e público. Ouviam-na sem a escutarem, lisonjeavam-na sem a apreciar. Tinha olvidado o passado e sabia-se bem.  

Eu é que nunca percebi quanta falsidade lhe cabia no olhar e quanta desilusão semeara por entre as pétalas que espalhei pelo mar.

Albertina Vaz ©2015,Aveiro,Portugal

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

NOTA FINAL


Recordamos hoje o dia em que, sete autores lançaram o livro MEMÓRIAS A MIL VOZES, dando início a um processo de divulgação dos seus trabalhos que se corporizaram no blogue EVOLUIR. Este será sempre uma janela aberta a todos os que se revêem, em poesia ou em prosa, na arte de juntar as palavras e legá-las ao leitor.

Hoje iniciamos um novo ciclo e queremos contar com todos os que pretendem divulgar o que escrevem. Seremos sempre um espaço aberto, onde todos os autores podem livremente expressar-se e deixar as palavras que não querem ficar esquecidas, em folhas amarrotadas de gavetas sem história.

Publicamos de seguida um pequeno texto do livro que juntou um grupo de autores que teve um sonho e o concretizou.


NOTA FINAL

Esta sensação de termos chegado ao fim acarreta um sabor meio doce meio amargo. Mas chegámos: acalentámos esperanças, derrotas, alegrias, sucessos, desilusões, êxitos e fracassos.

Por mais estranho que pareça, carregámo-los juntos – umas vezes com um ar feliz, outras com um certo desalento, quase uma vontade de desistir. Mas demo-nos os braços e seguimos em frente, tendo em conta que em todos nós cabiam vivências únicas e singulares que só cada um saberia relatar. Pouco a pouco fomos crescendo – tal como a paixão pela escrita – e desenvolvemos ligações, elos que se entrecruzaram e nos foram completando.

Este grupo nasceu de uma reunião fortuita, num local onde nos encontrámos, por acaso, e aonde tínhamos chegado apenas para descobrir formas novas de continuar a EVOLUIR. Estávamos longe de prever que este encontro daria lugar a uma união e que desta união resultaria uma colectânea de memórias.

Recusamos o imobilismo, a inacção, o ócio, a indolência ou a preguiça. Continuamos a gostar de um café saboreado ao pôr-do-sol numa esplanada, de uma conversa gostosa em que nada se diz e de uma caminhada pelas areias douradas da nossa ria. Mas não nos permitimos passar os dias sem viver cada segundo, intensamente, com a sua especificidade própria de um tempo que é único porque nunca se repete.

Este livro não faz dos autores escritores. Mas leva os leitores a participar nas mudanças, nos caminhos, nas alterações da vida de todos ao longo de quase um século. E, queiramos ou não, envolve-nos num percurso conjunto repleto de curiosidades, recantos, privacidades e alegorias. É por isso que não necessitamos de convidar ninguém a participar desta leitura: todos nós fazemos parte integrante dum percurso da história em que vivemos e nos revivemos.

Hoje acabámos as nossas Memorias a Mil Vozes. Amanhã estaremos de certeza noutro projeto. É que não queremos assistir a um pôr-do-sol que não volte a repetir-se no dia seguinte.


in "Memórias a Mil Vozes",Albertina Vaz, et all,©Chiado Editora,2013

domingo, 22 de novembro de 2015

O teu poema

Palmira Alvor Figueiredo 
... um poema por escrever ...

As palavras já não bastam!
Perderam o perfume
nesse exercício vão,
de descrição,
que o poeta
tentou fazer, do amor.
Restam letras estilizadas,
imagens belas,
frases caladas (ocas),
vazadas de sentimento,
des(emocionadas),
roubadas à aliteração
sem comoção, foragidas,
odiadas, rasgadas, perdidas!

Quero escrever-te o mais belo poema (de amor),
mas a fuga das palavras (que fenecem),
apaga a cor,
restando, apenas
esta folha imaculada,
abandonada,
de um poema por escrever.

domingo, 15 de novembro de 2015

A JUSTIFICAÇÃO

José Carreto Lages

Depois da vã procura de estacionamento, isento de taxa, conduziu o carro até ao parque. Entrou num lugar disponível entre duas viaturas. Não viu ninguém em redor. Suspirou ao tempo que atirava o saco na bagageira. Afastou-se para ir dar a aula na Escola onde ouviu o toque da campainha quando, em passo estugado, estava a atravessar o átrio. No parque, dobrado atrás de um carro, saiu um embuçado que, servindo-se dum afeiçoado gancho, abriu a porta e entrou na bagageira do carro. Lá encontrou o triângulo exigido pela norma rodoviária e o saco. No saco só estava um telemóvel e uma carteira de pele com os cartões bancários. Não havia dinheiro, o que ele procurava para a cocaína.
O embuçado
Em menos de uma hora ela reentrou no carro e saindo do parque, tomou a estrada habitual da sua residência.
A circular fora da cidade, o embuçado dobrou o assento traseiro e saiu da bagageira com a navalha espanhola empunhada para o corte.
- Dá-me duzentos euros. Duzentos euros ou corto-te – foi a ordem recomendada pelo fio da navalha encostada ao pescoço.
- Eh…
- Duzentos euros ou corto-te.
- Não tenho esse dinheiro – conseguiu ela dizer.
- Vais direitinha à Caixa Multibanco, invertes a marcha e é como eu mandar, okay? Como eu mandar. Nada de sinais de luzes ou corto-te o “garganil”…
 Sob a pressão de uma mão na cabeça e o fio da navalha acatou a ordem.
- Viras à esquerda, que aí, à frente, há um Multibanco. Vais devagar e paras ao lado do Banco ou vais magoar-te. Aí, aí, para… Vais ao Multibanco e trazes o dinheiro.
Ela sai do carro, como um robot. Não vê ninguém a quem se socorrer. No Multibanco faz o código devagar, e retira 100 euros. Ouve um carro a aproximar-se. Corre, colocando-se na trajectória do carro, sujeita a ser atropelada. Os travões cedem à pressão do pé, e com grande ruído o carro agacha-se e evita o embate. Dele saem, ar aziago, dois homens robustos.
- Mas o que é isto? - a senhora quer matar-se?
Ela agarra-se a um dos homens.
- Ajudem-me… ele mata-me. Ali…- apontando

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

"OS VENTOS DE NOVEMBRO ANTECIPAM O CALOR DO NATAL"

 Palmira Alvor Figueiredo 

Deu a centésima escovadela à pelagem. Mirou, com um trejeito altaneiro e prazenteiro, a imagem que o espelho das águas calmas e cristalinas lhe devolvia. Sorriu, plenamente satisfeita de si mesma. Um toque discreto de batom e um nico de pó de arroz completavam as sombras das invejas que lhe rasgavam os olhos. Era belíssima: curvas acentuadas no perfeito limiar de uma figura esbelta e estilizada e um pescoço longo com ausência dos papos que a gravidade baixava à idade. O padrão axadrezado da esplendorosa roupagem que a vestia acentuava-lhe o andar bamboleante que, a par com a sua juventude pressurosa, enlouquecia os machos deixando-os de água no bico.

Avançou, confiante, rumo ao terreiro onde a população se ia reunir nessa noite. Sim, a sua presença iria, muito seguramente, ser notada. Provocaria ainda mais falatórios e invejas, bem o sabia, mas esse incidir de toda a atenção sobre a sua pessoa servia-lhe de lenitivo – uma vingança que se saboreia devagar, degustando-lhe bem o sabor saltitante sobre as papilas, acendendo-lhe o fogo no olhar – acalmava-lhe as chagas que as ressabiadas da aldeia lhe deixavam no seu peito farto e firme. Até a sua própria mãe se lhes juntava nas críticas:

- Não te emboneques tanto que vais acabar mal!

Já nem a ouvia. Pensava ela que queria viver a sua vida pacata, cheia de narizes ranhosos sempre a puxar-lhe a bainha da saia, sem nada mais a que aspirar que não a comezinha vida familiar, aquele vegetar de existência sem aventura nem expectativa? Não! Ela estava guardada para voos mais altos. E bem exercitava as asas, diariamente, tentando ganhar força para dar vida a essa fuga. Queria o céu cintilante de um luar estrelado de um voo livre, não esse esgravatar de terra, esse castrante catar de segurança e amparo. Não! O seu corpinho bem cuidado não seria destruído nessa social maternidade de apatias, nessa feitoria de sossegos. Bastaria quando morresse. Até lá tinha todo um mundo para descobrir para além dos limites que o populacho conhecia. Por isso se cuidava, por isso apenas debicava de uma alimentação saudável que lhe brilhava e amaciava a pele.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Cumplicidades

Albertina Vaz 


Uma poça de água no chão espelha as pontas esguias das árvores onde as folhas começam a rebentar. Há flores por toda a planície e sabe bem pressentir o renascimento que se aproxima. Quem dera que o sol apareça! Faz-nos falta sorrir ou fazer sorrir uma criança…
Vamos chapinhar num
charco de água
Anda, vem comigo, anda daí: vamos chapinhar num charco de água e rir quando nos molharmos e os pingos da lama nos sujarem o vestido que já não vestíamos desde o ano passado. Está frio, eu sei! Mas vamos lá, saborear a água, como quando eu era menina e saía de casa a correr – porque eu podia correr na rua, sabes – e vamos sujar os sapatos e pegar na lama e pintar a cara e fazer asneiras… Só hoje que a mãe não vê!
Anda, vem daí: vamos correr pela praia e atirar areia ao ar e sentir o cheiro a maresia e os pingos das ondas que rodopiam no mar. Vamos senti-las e lamber os braços que sabem a sal e correr, correr – espera por mim, que me dói… eu vou já! Espera aí! Que bom sentir a tua mão na minha e a outra a limpar-me o sal da água e os salpicos das ondas.
Vamos construir um castelo de areia
Vamos construir um castelo de areia: vamos fazer um grande monte e depois dar forma às ameias e fazer um fosso a toda a volta – eu sei, eu sei – uma ponte para a princesa sair ou para o príncipe entrar. Sim, vamos pôr uma bandeira lá na torre mais alta: isso, traz esse pauzito da duna e vamos fazer um desenho neste lenço. Que lindo: esvoaça com o vento. Vamos apanhar conchinhas e fazer uma muralha de rendas à volta das janelas. Olha a bandeira, parece uma nuvem branquinha a descer, a descer e a desfalecer-se lá longe no horizonte, perto do mar…
Deitarmo-nos na areia húmida? Mas depois ficamos todas ensopadas… Vamos lá, tens razão: vamos fazer tudo o que é proibido, hoje! Que lindo o céu – está cheio de nuvens! A correrem dum lado para o outro: aquela parece que sopra nas outras todas. O quê? Achas que sim? Estarão mesmo a brincar às escondidas? És capaz de ter razão…Aquela é um urso? Será? Dizes que vai a correr atrás da menina? Mas eu não vejo menina nenhuma… pois é, já não vejo muito bem! Gosto que vejas por mim: ensinas-me o que eu já não consigo ver.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Sonho de criança

Maria Jorge 

Estávamos em meados da década dos anos cinquenta.
Apesar de a aldeia estar situada no litoral do nosso país, o seu desenvolvimento era muito lento. Com uma grande área de areia roubada ao mar, as pessoas tinham de transformar os terrenos áridos em campos férteis já que daí vinha a sua subsistência. Os recursos eram poucos e lutava-se pela sobrevivência. A exemplo do restante país, havia uma elevada percentagem de analfabetismo nos adultos (principalmente as mulheres, não era obrigatório frequentarem a escola). 
Os homens, os mais corajosos, iam
em grandes barcos...
Os homens, os mais corajosos, iam em grandes barcos, por tempo indeterminado, para os mares de águas gélidas da Gronelândia e Terra Nova para a pesca do bacalhau donde regressavam quando o barco tivesse o peixe necessário; outros emigravam, na sua maioria para Terras de Vera Cruz, donde alguns nunca mais voltaram nem davam notícias; os talvez menos aventureiros dedicavam-se à agricultura e pouco mais.
Para todos, para os que iam e para os que ficavam, a vida era muito dura. 
– Bom dia Sra. Augusta. A Leninha está?
– Bom dia menina. Está sim, mas hoje está muito cansada. Sabes como é, dia que vai ao médico… e hoje foi fazer mais uma radioscopia… mas vai lá, vai lá ter com ela.
– Trago um recado da Professora Julieta.
– Entra, entra, já sabes o caminho. Se estiver a dormir… deixa-a ficar. Depois vens cá mais tarde.
Leninha, uma adolescente com tantos sonhos a povoarem a sua mente, não podia ser igual a tantas outras jovens da sua idade já que um grave problema de saúde a retinha quase sempre no seu quarto. Aquela tosse maldita não a deixava em paz e com tanta falta de forças não podia fazer o que mais gostava.
Um dia os pais levaram-na ao médico e o diagnóstico foi terrível. A tuberculose entrou na
Porque?Porquê eu?
vida daquela família de tão parcos recursos…
– Porquê? Porquê eu? – Perguntava-se a si própria.
Tinha apenas 15 anos…e os seus sonhos? Embora gostasse de poder continuar a estudar teve de ficar apenas com a instrução primária, porque os pais, que viviam exclusivamente da lavoura, não tinham possibilidades económicas; gostava de andar de bicicleta, jogar à macaca, conviver com as jovens da sua idade; bordar; fazer o seu enxoval e sonhava… sonhava com o seu príncipe encantado. Enfim, queria ser igual a tantas jovens da sua idade…mas não podia. Porque haveria de ser diferente?

domingo, 27 de setembro de 2015

Uma tela em branco

Albertina Vaz 


Peguei numa folha – em branco. Dolorosamente branca. Sem um risco, um traço, uma letra.

Era uma folha como outra qualquer. Nem grande, nem pequena. Nem lisa, nem machucada. Uma folha em branco à espera de palavras, ou de traços, ou de cores. E nela falava o silêncio e o silêncio não tinha cor.

Então pintalguei-a de azul e inundei-a de mar. E o mar era uma paz sem limites e uma mancha azul que se alastrava no horizonte. Depois colori-a de verde e fiz nascer um campo de erva fresca, onde duas crianças saltitavam correndo em direção ao infinito.

E fiquei feliz com a minha folha. Já não era uma folha em branco.

Depois procurei os sons e enchia-a de cantos e de poesia, Dois bancos de jardim. Um casal de mãos dadas e as promessas de amor acarinhadas pela esperança duma vida diferente.

A seguir fui procurar os cheiros e soube-me a erva cidreira e a rosmaninho e fiz uma canção de roda com as crianças que me ajudavam a caminhar e soltavam gargalhadas estilhaçando o silêncio e quebrando as barreiras.

E nela falava o silêncio.
Era naquele momento uma folha perfeita – havia o mar, um campo verdinho, duas crianças a brincar, um casal a sonhar e uma avó a reviver. Não faltava lá nada. Era uma folha cheia de vida que se soltara do branco e se enchera de cor.

Um dia porém vieram uns senhores que sabiam de tudo e ditavam as leis. Foram eles que escreveram as palavras e foram apagando as cores. O campo deixou de ser verde porque eles não queriam que fosse cultivado. Os jovens disseram-se adeus, num abraço profundo, e partiram cada um em direções diferentes. E as lágrimas que se soltaram foram inundando os campos e salgando os rios e secando as fontes. As canções já não falavam de esperança e as crianças deixaram de cantar.

Fiquei a olhar a minha folha e quis pintar os pés da avó mas só consegui seguir-lhe os passos, quis descobrir o seu olhar mas só descortinava a sua mente, só e envelhecida, quis pentear-lhe os cabelos mas apenas consegui ler-lhe o  pensamento, quis abrir a sua boca mas só calei as suas palavras, quis pegar nas suas mãos e apenas encontrei o seu destino, quis beijar o seu olhar mas já não ouvia as palavras.

Lavei meu rosto numa gota de orvalho – voltei ao início. Tenho de começar tudo outra vez. 

Albertina Vaz ©2015,Aveiro,Portugal
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