Vitor Sousa
Quatro da manhã.
O mordiscar da chuva nas telhas de barro
criam uma sonoridade surda e embaladora que condiciona “o levantar” do Manel.
A farinha reclama a carícia das mãos e o
forno já se impacienta com a chegada do pão na ânsia de o tornar dourado e
estaladiço.
- Toca
a levantar, Manel, dizia ele, de si para si.
Alem disso, constou-se que o doutor
trazia um escrito novo, que prometeu ler em voz alta em primeira estância na
padaria.
O sol esboçava já os primeiros ensaios
de luz entre as decrepitas chaminés da velha fábrica de cerâmica que destronava
o horizonte.
É um circo de vaidades... |
Uma leve brisa varria as folhas
dormentes do chão e o doutor, depois de uma leve pausa, meteu mão ao punho da
porta e entrou.
Olhar discreto, franzino, semblante
camiliano, bigode farto e tinto de fumo.
Após um tímido bom dia, inspira, rebusca
um eco nas entranhas da alma e sem demora pega no papel que lê enfático de mão
tremula:
- Ora,
lá vai…
A política, na sua prática actual, é um
manifesto de comportamento primário e mesquinho, para privilegiar o ego e o grupo.
Uma versão simplista de comportamento
tribal, alheada das carências e necessidades urgentes de uma nação inteira.
É um circo de vaidades e veleidades
obscuras.
Alegam-se laivos de importância
desmedida na glorificação do ego.
Nada os detêm ao abrigo de uma qualquer legitimidade,
de devassar e espezinhar a dignidade de um povo.
Duzentos e trinta indivíduos,
adicionados de assessores, secretários, motoristas e da multiplicação da inutilidade,
expõem a banalidade como assunto sério, perene e reabilitador.
Usam os patamares para transacções e negócios
de contorno duvidoso. Estão todos bem na fausta mesquinhez da sua existência!
Por norma, conseguem provar a
honestidade e a valência honrada de seu propósito, ou então assumem o glorioso
gesto da demissão como acto extremo e elevado de excelsa remissão.
O espectáculo degradante dos sucessivos
governos, sugere um desafio à inteligência do povo para apreciar a idoneidade
dos políticos, ou então um ensaio geral sobre uma cegueira compulsiva.
Assumimos tudo como factos inquestionáveis
e estabelecidos, como um castigo redentor de excessos, ou como uma cruz de
ferro gravada a fogo no âmago da existência.
O politico (...) é a antítese do homem livre. |
Dificilmente, um político é deposto, ou
responsabilizado com isenção.
A regra é demitir-se e reconduzir-se
para funções de privilégio, sempre bem remuneradas.
O político na sua essência, por
deficiência formativa e conjuntural, é a antítese do homem livre.
- Tem
obsessão compulsiva do poder.
- Subjuga-se
a parâmetros e directrizes.
- Inibe-se
de flexibilidade e isenção.
- Bloqueia
a evolução progressiva do pensamento.
- Prostitui-se
com parceiros e compromissos.
No despertar faunístico de figuras
remotas, carregadas de passado recente, afloram-me imagens de raposas velhas e
ratazanas felpudas a chafurdar o nojo…
De voz emotiva e mão trémula, dobrou o
papel, guardou-o no bolso e sem palavras saiu sorrateiro como entrou.
O Manel, de esgar boquiaberto e olhar
vidrado de pasmo, até se esqueceu do pão!
Vitor Sousa ©2015,Aveiro,Portugal
O Evoluir congratula-se com a adesão de mais um novo autor. Seja bem vindo Vitor Sousa. Cá ficaremos à espera dos seus trabalhos, que vão deixar de ficar guardados em gavetas de portas trancadas.
ResponderEliminarDe Idalinda Pereira recebemos o seguinte comentário:
ResponderEliminar"Um relato bem expressivo do nosso mundo que nos suscita uma certa revolta, por não podermos mudar este estado de coisas nocivas e horripilantes que entram pelas nossas casas a dentro. E nós, impotentes e quase sempre transformados em formiguinhas ordeiras, lá vamos levar mais um pedacinho de queijo à ratazana que gulosamente fica mais forte."
Um texto muito bem elaborado com a mão firme de quem sabe o que dizer e diz o que lhe vai na alma. Permito-me apenas duvidar de que, um qualquer “doutor” se disponibilize a fazer esclarecimento politico a todos os Manéis das padarias da nossa terra. Ratos efectivamente há muitos. E alguns são bem perigosos. Mas a convivência com os ratos não faz de nós ratos. Só a liberdade gera uma sociedade mais justa e só as pessoas sabem fazer a diferença. Eu ainda acredito nas pessoas. Parabéns Vitor, gostei muito deste seu trabalho e vou gostar de o ler mais vezes.
ResponderEliminarRatos, ratazanas, ratazanas e ratos. Mas... precisam de ter alimento, certo? E quem lhes dá esse alimento?
ResponderEliminarTal e qual a mesma formiguinha que alimenta a ratazana, também nós precisamos de alimentar o nosso espaço. E como Albertina Vaz bem o diz, também tenho a certeza que vou ver muitos mais trabalhos do Vitor.
Obrigada