segunda-feira, 30 de novembro de 2015

NOTA FINAL


Recordamos hoje o dia em que, sete autores lançaram o livro MEMÓRIAS A MIL VOZES, dando início a um processo de divulgação dos seus trabalhos que se corporizaram no blogue EVOLUIR. Este será sempre uma janela aberta a todos os que se revêem, em poesia ou em prosa, na arte de juntar as palavras e legá-las ao leitor.

Hoje iniciamos um novo ciclo e queremos contar com todos os que pretendem divulgar o que escrevem. Seremos sempre um espaço aberto, onde todos os autores podem livremente expressar-se e deixar as palavras que não querem ficar esquecidas, em folhas amarrotadas de gavetas sem história.

Publicamos de seguida um pequeno texto do livro que juntou um grupo de autores que teve um sonho e o concretizou.


NOTA FINAL

Esta sensação de termos chegado ao fim acarreta um sabor meio doce meio amargo. Mas chegámos: acalentámos esperanças, derrotas, alegrias, sucessos, desilusões, êxitos e fracassos.

Por mais estranho que pareça, carregámo-los juntos – umas vezes com um ar feliz, outras com um certo desalento, quase uma vontade de desistir. Mas demo-nos os braços e seguimos em frente, tendo em conta que em todos nós cabiam vivências únicas e singulares que só cada um saberia relatar. Pouco a pouco fomos crescendo – tal como a paixão pela escrita – e desenvolvemos ligações, elos que se entrecruzaram e nos foram completando.

Este grupo nasceu de uma reunião fortuita, num local onde nos encontrámos, por acaso, e aonde tínhamos chegado apenas para descobrir formas novas de continuar a EVOLUIR. Estávamos longe de prever que este encontro daria lugar a uma união e que desta união resultaria uma colectânea de memórias.

Recusamos o imobilismo, a inacção, o ócio, a indolência ou a preguiça. Continuamos a gostar de um café saboreado ao pôr-do-sol numa esplanada, de uma conversa gostosa em que nada se diz e de uma caminhada pelas areias douradas da nossa ria. Mas não nos permitimos passar os dias sem viver cada segundo, intensamente, com a sua especificidade própria de um tempo que é único porque nunca se repete.

Este livro não faz dos autores escritores. Mas leva os leitores a participar nas mudanças, nos caminhos, nas alterações da vida de todos ao longo de quase um século. E, queiramos ou não, envolve-nos num percurso conjunto repleto de curiosidades, recantos, privacidades e alegorias. É por isso que não necessitamos de convidar ninguém a participar desta leitura: todos nós fazemos parte integrante dum percurso da história em que vivemos e nos revivemos.

Hoje acabámos as nossas Memorias a Mil Vozes. Amanhã estaremos de certeza noutro projeto. É que não queremos assistir a um pôr-do-sol que não volte a repetir-se no dia seguinte.


in "Memórias a Mil Vozes",Albertina Vaz, et all,©Chiado Editora,2013

domingo, 22 de novembro de 2015

O teu poema

Palmira Alvor Figueiredo 
... um poema por escrever ...

As palavras já não bastam!
Perderam o perfume
nesse exercício vão,
de descrição,
que o poeta
tentou fazer, do amor.
Restam letras estilizadas,
imagens belas,
frases caladas (ocas),
vazadas de sentimento,
des(emocionadas),
roubadas à aliteração
sem comoção, foragidas,
odiadas, rasgadas, perdidas!

Quero escrever-te o mais belo poema (de amor),
mas a fuga das palavras (que fenecem),
apaga a cor,
restando, apenas
esta folha imaculada,
abandonada,
de um poema por escrever.

domingo, 15 de novembro de 2015

A JUSTIFICAÇÃO

José Carreto Lages

Depois da vã procura de estacionamento, isento de taxa, conduziu o carro até ao parque. Entrou num lugar disponível entre duas viaturas. Não viu ninguém em redor. Suspirou ao tempo que atirava o saco na bagageira. Afastou-se para ir dar a aula na Escola onde ouviu o toque da campainha quando, em passo estugado, estava a atravessar o átrio. No parque, dobrado atrás de um carro, saiu um embuçado que, servindo-se dum afeiçoado gancho, abriu a porta e entrou na bagageira do carro. Lá encontrou o triângulo exigido pela norma rodoviária e o saco. No saco só estava um telemóvel e uma carteira de pele com os cartões bancários. Não havia dinheiro, o que ele procurava para a cocaína.
O embuçado
Em menos de uma hora ela reentrou no carro e saindo do parque, tomou a estrada habitual da sua residência.
A circular fora da cidade, o embuçado dobrou o assento traseiro e saiu da bagageira com a navalha espanhola empunhada para o corte.
- Dá-me duzentos euros. Duzentos euros ou corto-te – foi a ordem recomendada pelo fio da navalha encostada ao pescoço.
- Eh…
- Duzentos euros ou corto-te.
- Não tenho esse dinheiro – conseguiu ela dizer.
- Vais direitinha à Caixa Multibanco, invertes a marcha e é como eu mandar, okay? Como eu mandar. Nada de sinais de luzes ou corto-te o “garganil”…
 Sob a pressão de uma mão na cabeça e o fio da navalha acatou a ordem.
- Viras à esquerda, que aí, à frente, há um Multibanco. Vais devagar e paras ao lado do Banco ou vais magoar-te. Aí, aí, para… Vais ao Multibanco e trazes o dinheiro.
Ela sai do carro, como um robot. Não vê ninguém a quem se socorrer. No Multibanco faz o código devagar, e retira 100 euros. Ouve um carro a aproximar-se. Corre, colocando-se na trajectória do carro, sujeita a ser atropelada. Os travões cedem à pressão do pé, e com grande ruído o carro agacha-se e evita o embate. Dele saem, ar aziago, dois homens robustos.
- Mas o que é isto? - a senhora quer matar-se?
Ela agarra-se a um dos homens.
- Ajudem-me… ele mata-me. Ali…- apontando

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

"OS VENTOS DE NOVEMBRO ANTECIPAM O CALOR DO NATAL"

 Palmira Alvor Figueiredo 

Deu a centésima escovadela à pelagem. Mirou, com um trejeito altaneiro e prazenteiro, a imagem que o espelho das águas calmas e cristalinas lhe devolvia. Sorriu, plenamente satisfeita de si mesma. Um toque discreto de batom e um nico de pó de arroz completavam as sombras das invejas que lhe rasgavam os olhos. Era belíssima: curvas acentuadas no perfeito limiar de uma figura esbelta e estilizada e um pescoço longo com ausência dos papos que a gravidade baixava à idade. O padrão axadrezado da esplendorosa roupagem que a vestia acentuava-lhe o andar bamboleante que, a par com a sua juventude pressurosa, enlouquecia os machos deixando-os de água no bico.

Avançou, confiante, rumo ao terreiro onde a população se ia reunir nessa noite. Sim, a sua presença iria, muito seguramente, ser notada. Provocaria ainda mais falatórios e invejas, bem o sabia, mas esse incidir de toda a atenção sobre a sua pessoa servia-lhe de lenitivo – uma vingança que se saboreia devagar, degustando-lhe bem o sabor saltitante sobre as papilas, acendendo-lhe o fogo no olhar – acalmava-lhe as chagas que as ressabiadas da aldeia lhe deixavam no seu peito farto e firme. Até a sua própria mãe se lhes juntava nas críticas:

- Não te emboneques tanto que vais acabar mal!

Já nem a ouvia. Pensava ela que queria viver a sua vida pacata, cheia de narizes ranhosos sempre a puxar-lhe a bainha da saia, sem nada mais a que aspirar que não a comezinha vida familiar, aquele vegetar de existência sem aventura nem expectativa? Não! Ela estava guardada para voos mais altos. E bem exercitava as asas, diariamente, tentando ganhar força para dar vida a essa fuga. Queria o céu cintilante de um luar estrelado de um voo livre, não esse esgravatar de terra, esse castrante catar de segurança e amparo. Não! O seu corpinho bem cuidado não seria destruído nessa social maternidade de apatias, nessa feitoria de sossegos. Bastaria quando morresse. Até lá tinha todo um mundo para descobrir para além dos limites que o populacho conhecia. Por isso se cuidava, por isso apenas debicava de uma alimentação saudável que lhe brilhava e amaciava a pele.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Cumplicidades

Albertina Vaz 


Uma poça de água no chão espelha as pontas esguias das árvores onde as folhas começam a rebentar. Há flores por toda a planície e sabe bem pressentir o renascimento que se aproxima. Quem dera que o sol apareça! Faz-nos falta sorrir ou fazer sorrir uma criança…
Vamos chapinhar num
charco de água
Anda, vem comigo, anda daí: vamos chapinhar num charco de água e rir quando nos molharmos e os pingos da lama nos sujarem o vestido que já não vestíamos desde o ano passado. Está frio, eu sei! Mas vamos lá, saborear a água, como quando eu era menina e saía de casa a correr – porque eu podia correr na rua, sabes – e vamos sujar os sapatos e pegar na lama e pintar a cara e fazer asneiras… Só hoje que a mãe não vê!
Anda, vem daí: vamos correr pela praia e atirar areia ao ar e sentir o cheiro a maresia e os pingos das ondas que rodopiam no mar. Vamos senti-las e lamber os braços que sabem a sal e correr, correr – espera por mim, que me dói… eu vou já! Espera aí! Que bom sentir a tua mão na minha e a outra a limpar-me o sal da água e os salpicos das ondas.
Vamos construir um castelo de areia
Vamos construir um castelo de areia: vamos fazer um grande monte e depois dar forma às ameias e fazer um fosso a toda a volta – eu sei, eu sei – uma ponte para a princesa sair ou para o príncipe entrar. Sim, vamos pôr uma bandeira lá na torre mais alta: isso, traz esse pauzito da duna e vamos fazer um desenho neste lenço. Que lindo: esvoaça com o vento. Vamos apanhar conchinhas e fazer uma muralha de rendas à volta das janelas. Olha a bandeira, parece uma nuvem branquinha a descer, a descer e a desfalecer-se lá longe no horizonte, perto do mar…
Deitarmo-nos na areia húmida? Mas depois ficamos todas ensopadas… Vamos lá, tens razão: vamos fazer tudo o que é proibido, hoje! Que lindo o céu – está cheio de nuvens! A correrem dum lado para o outro: aquela parece que sopra nas outras todas. O quê? Achas que sim? Estarão mesmo a brincar às escondidas? És capaz de ter razão…Aquela é um urso? Será? Dizes que vai a correr atrás da menina? Mas eu não vejo menina nenhuma… pois é, já não vejo muito bem! Gosto que vejas por mim: ensinas-me o que eu já não consigo ver.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Sonho de criança

Maria Jorge 

Estávamos em meados da década dos anos cinquenta.
Apesar de a aldeia estar situada no litoral do nosso país, o seu desenvolvimento era muito lento. Com uma grande área de areia roubada ao mar, as pessoas tinham de transformar os terrenos áridos em campos férteis já que daí vinha a sua subsistência. Os recursos eram poucos e lutava-se pela sobrevivência. A exemplo do restante país, havia uma elevada percentagem de analfabetismo nos adultos (principalmente as mulheres, não era obrigatório frequentarem a escola). 
Os homens, os mais corajosos, iam
em grandes barcos...
Os homens, os mais corajosos, iam em grandes barcos, por tempo indeterminado, para os mares de águas gélidas da Gronelândia e Terra Nova para a pesca do bacalhau donde regressavam quando o barco tivesse o peixe necessário; outros emigravam, na sua maioria para Terras de Vera Cruz, donde alguns nunca mais voltaram nem davam notícias; os talvez menos aventureiros dedicavam-se à agricultura e pouco mais.
Para todos, para os que iam e para os que ficavam, a vida era muito dura. 
– Bom dia Sra. Augusta. A Leninha está?
– Bom dia menina. Está sim, mas hoje está muito cansada. Sabes como é, dia que vai ao médico… e hoje foi fazer mais uma radioscopia… mas vai lá, vai lá ter com ela.
– Trago um recado da Professora Julieta.
– Entra, entra, já sabes o caminho. Se estiver a dormir… deixa-a ficar. Depois vens cá mais tarde.
Leninha, uma adolescente com tantos sonhos a povoarem a sua mente, não podia ser igual a tantas outras jovens da sua idade já que um grave problema de saúde a retinha quase sempre no seu quarto. Aquela tosse maldita não a deixava em paz e com tanta falta de forças não podia fazer o que mais gostava.
Um dia os pais levaram-na ao médico e o diagnóstico foi terrível. A tuberculose entrou na
Porque?Porquê eu?
vida daquela família de tão parcos recursos…
– Porquê? Porquê eu? – Perguntava-se a si própria.
Tinha apenas 15 anos…e os seus sonhos? Embora gostasse de poder continuar a estudar teve de ficar apenas com a instrução primária, porque os pais, que viviam exclusivamente da lavoura, não tinham possibilidades económicas; gostava de andar de bicicleta, jogar à macaca, conviver com as jovens da sua idade; bordar; fazer o seu enxoval e sonhava… sonhava com o seu príncipe encantado. Enfim, queria ser igual a tantas jovens da sua idade…mas não podia. Porque haveria de ser diferente?

domingo, 27 de setembro de 2015

Uma tela em branco

Albertina Vaz 


Peguei numa folha – em branco. Dolorosamente branca. Sem um risco, um traço, uma letra.

Era uma folha como outra qualquer. Nem grande, nem pequena. Nem lisa, nem machucada. Uma folha em branco à espera de palavras, ou de traços, ou de cores. E nela falava o silêncio e o silêncio não tinha cor.

Então pintalguei-a de azul e inundei-a de mar. E o mar era uma paz sem limites e uma mancha azul que se alastrava no horizonte. Depois colori-a de verde e fiz nascer um campo de erva fresca, onde duas crianças saltitavam correndo em direção ao infinito.

E fiquei feliz com a minha folha. Já não era uma folha em branco.

Depois procurei os sons e enchia-a de cantos e de poesia, Dois bancos de jardim. Um casal de mãos dadas e as promessas de amor acarinhadas pela esperança duma vida diferente.

A seguir fui procurar os cheiros e soube-me a erva cidreira e a rosmaninho e fiz uma canção de roda com as crianças que me ajudavam a caminhar e soltavam gargalhadas estilhaçando o silêncio e quebrando as barreiras.

E nela falava o silêncio.
Era naquele momento uma folha perfeita – havia o mar, um campo verdinho, duas crianças a brincar, um casal a sonhar e uma avó a reviver. Não faltava lá nada. Era uma folha cheia de vida que se soltara do branco e se enchera de cor.

Um dia porém vieram uns senhores que sabiam de tudo e ditavam as leis. Foram eles que escreveram as palavras e foram apagando as cores. O campo deixou de ser verde porque eles não queriam que fosse cultivado. Os jovens disseram-se adeus, num abraço profundo, e partiram cada um em direções diferentes. E as lágrimas que se soltaram foram inundando os campos e salgando os rios e secando as fontes. As canções já não falavam de esperança e as crianças deixaram de cantar.

Fiquei a olhar a minha folha e quis pintar os pés da avó mas só consegui seguir-lhe os passos, quis descobrir o seu olhar mas só descortinava a sua mente, só e envelhecida, quis pentear-lhe os cabelos mas apenas consegui ler-lhe o  pensamento, quis abrir a sua boca mas só calei as suas palavras, quis pegar nas suas mãos e apenas encontrei o seu destino, quis beijar o seu olhar mas já não ouvia as palavras.

Lavei meu rosto numa gota de orvalho – voltei ao início. Tenho de começar tudo outra vez. 

Albertina Vaz ©2015,Aveiro,Portugal

terça-feira, 8 de setembro de 2015

A necessidade obriga…

José Luís Vaz 


Numa aldeia, lá perdida no meio da serra, habitada por algumas, muito poucas, famílias, as pessoas viviam do sustento que a terra lhes proporcionava. Era normal criarem animais que, ou vendiam ou abatiam para a sua alimentação. Não havia casa que não tivesse um
...bicavam do chão
bom galinheiro, que, como tal, só funcionava durante a noite, pois durante o dia, galinhas, galos e frangos bicavam do chão tudo aquilo que encontravam. Ao escurecer, era certo e sabido, todos os galináceos recolhiam ao seu poleiro acocorando-se até à madrugada do dia seguinte.
De vez em quando, havia grande alarido no povoado com o alvoroço num ou outro galinheiro, altas horas da manhã. Claro, alguém a tinha pregado: ou raposa ladina perita na arte, ou algum amigo do alheio aproveitando o sossego nocturno, subtraía um ou mais bicos ao galinheiro visitado.
No dia seguinte, não se falava noutra coisa. Para uns, só podia ser raposa matreira, de tão rápido o assalto, para outros, “sabe-se lá…”, isto e aquilo, e ficava a pairar no ar uma desconfiança nunca revelada.
O sacristão da terra, o mais letrado, a seguir ao padre da freguesia, andava desconfiado e montou a sua própria investigação, sem dar parte de fraco, nem dizer nada a ninguém.
Começou a aperceber-se que um jovem rapaz, volta e meia, ia à igreja e pregava-se de joelhos à frente de uma imagem de Santo António com o Menino Jesus ao colo. Ali permanecia um bocado e vinha-se embora sempre muito bem-disposto.

sábado, 29 de agosto de 2015

Filhos de pais sem filhos

Albertina Vaz 


Encontrei-o num estado deplorável: triste, acabrunhado, deprimido. Mal me olhou, as lágrimas soltaram-se numa torrente infinita. Nem sabia o que lhe havia de dizer. Aquelas palavras de circunstância, aquelas frases que não dizem nada desprenderam-se-me, sem grande convicção. Afinal o que se passara? Seria tão grave assim? Não haveria nenhuma solução?
...do primeiro sorriso, do primeiro
dentinho, dos primeiros passos
Sentei-me a seu lado tentando consolar-lhe uma dor que não sabia donde provinha mas que pressentia ser de uma dimensão sem medida.
Lentamente, soluçando, foi-me falando das suas recordações, do primeiro sorriso, do primeiro dentinho, dos primeiros passos. Dos passeios intermináveis que davam juntos, das conversas que mantinham ao nascer do sol quando se levantavam cedinho e caminhavam à beira mar escutando o barulho das ondas e o silvo das sereias. Das mágoas que desabafavam e das alegrias que partilhavam.
Dos dias em que o ia buscar à cama e o destapava para o acordar, das vezes que rebolavam misturando-se na areia da praia, das gargalhadas que trocavam juntos, das corridas que o obrigava a fazer e até daquela queda quando um dia o atirara – sem querer, claro – contra um carro à beira do passeio. Dessa vez quase ia partindo a cabeça mas até isso se tornara uma diversão. Atiravam-se um por cima do outro, faziam-se intermináveis cócegas e riam – riam muito.
De quem falava afinal?
Estava eu própria a ficar perturbada – falava-me de certeza de alguém muito próximo com quem convivia todos os dias e partilhava muitos segredos. Mas eu sabia que ele nunca tivera uma companheira, namorada ou amiga. Sabia que uma infância difícil e uma juventude perturbada o afastaram da família e quebrara as pontes que o haviam ligado ao outro lado. Sabia-o muito introspetivo, senhor de si mesmo, metido no seu canto, com grandes dificuldades de comunicação, sem grandes amigos e poucos conhecidos.
De quem falava afinal?

domingo, 16 de agosto de 2015

Uma vida!

José Luís Vaz

 Estou aqui, há tantos anos, que já nem me lembro da quantidade de nomes que já tive. Desde Carlota Joaquina a Raul Rego passando por rua da Esperança e outras, tudo me têm chamado. Conforme a onda, assim me tratam: não há dinheiro, fico cheiinha de buracos, vem graveto, escondem-me logo as misérias. É a minha sorte, comer e calar e, ainda por cima, ser pisada por toda a gente.
Quando nasci, tenho uma vaga ideia de que era mais curta, havia menos gente e precisariam menos de mim… levava o tempo incomodada com a poeira que era quase permanente, porque, por aqui, eram burros, cavalos, bicicletas, motas, eu sei lá, tudo o que mexia por aqui tinha que passar.
...eu é que sou o centro das atenções.
Mais tarde, lavraram-me, como quem prepara a terra para uma sementeira, e toca de me encherem de pedrinhas. Ainda pensei: querem fazer de mim uma pedreira...mas não, a seguir, taparam-me todinha com alcatrão a abrasar e eu a aguentar… A partir daí ladearam-me de prédios, uns altos, outros baixos, bonitos uns, aberrantes outros, mas a rainha sou eu, eu é que sou o centro das atenções.
Se eu fosse a contar tudo o que ouço, nunca mais me calava. Ainda outro dia fiquei aparvalhadinha de todo com uma conversa entre mãe e filha. Dizia a mãe: não entendo, o teu emprego é das nove às dezoito horas, e tu, tornou-se num hábito, chegas sempre tarde e a más horas a casa.
- Ó mãe, estou farta de te dizer que não posso virar costas ao Sr. Dr. Ele, lá no escritório, tem sempre muito que fazer, e, para além de ter que o ajudar, não estamos em tempos de facilitar. Sabes muito bem o que me custou arranjar este emprego!

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Vestida de andorinha

Elsa Borges 

Naquela noite nem dormira. Nunca a escuridão me incomodara tanto. Como desejara viver em liberdade, correndo pelos pastos floridos atrás das ovelhas e das cabras, acompanhada do Fiel que, de orelhas no ar, mal eu assobiava, parecia uma flecha a correr ao meu encontro. Viver assim para sempre. Sem pressas e sem ambições de vida de cidade.
Como ia sentir a falta de chapinhar no ribeiro, sacudindo a terra dos tamancos, quando ao cair da tarde regressava com o rebanho.
Havia também aquele amor escondido, no fundo do meu peito, calado e só meu, pelo filho do vizinho, que todas as manhãs, bem cedo, partia apascentando os seus animais. Os jogos que fazíamos, as corridas com os cães, em que o meu Fiel batia sempre o Malhado. E, sobretudo, havia aqueles doces momentos em que ele me oferecia ramos de flores apanhadas no monte e atados com nagalhos.
Não havia dúvida, estava mesmo de partida. Quando me levantei, topei logo na cesta de palha em que a minha mãe tinha metido meia dúzia de trapos, uns tamancos novos, um xaile e uma capa de burel, que havia de usar lá, para onde me mandavam, na companhia da minha tia.
Sabia que ia servir para a mesma casa em que, a irmã mais nova da minha mãe, tinha servido desde os doze anos.
...o lenço atado no queixo, a cesta
na mão...
– Ainda tens sorte – dizia-me minha mãe – A tua tia quando foi servir tinha menos dois anos do que tu. Não tinha lá ninguém conhecido. Comeu o pão que o diabo amassou, para chegar onde chegou. Tu também podes vir a ser uma senhora.
A minha mãe devia querer consolar-me. Mas esta era uma forma assustadora de o fazer. O que quereria dizer com “o pão que o diabo amassou”? Devia ser algo terrível!
Estava sentada no canto da mesa, com a malga das sopas, pensando que esta era a última vez que ali engolia o almoço. A minha garganta tapou, o que tinha na boca veio fora, quando a minha tia, já com o lenço atado no queixo, a sua cesta na mão, apareceu para me buscar.
– Anda rapariga, despacha-te – balbuciou ela numa voz tremida que revelava comoção e pena – Olha que a carreira está achegar. Nós não somos nenhumas fidalgas, ela não espera.
Levantei-me, tentei pegar nos meus trapos. As minhas pernas tremiam e foi quase ao empurrão que a minha mãe me pôs para fora de casa:
– Vai, cachopa, faz-te à vida, ou queres viver nesta miséria para sempre?

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Vermelha, esguia, fora de uso

Albertina Vaz

Queira ou não queira, caí em desuso. Já tive nas minhas mãos os segredos de tantos e de todos. Era vê-los, em fila indiana, aguardando a sua vez, desesperados com o tempo de espera, ali, à minha volta, como se eu pudesse resolver todos os problemas do mundo.

E eu escutava-os com muita atenção, permanecendo em silêncio porque me era exigido o silêncio, guardando segredos, escutando anseios – grandes e pequenos, palavras sem nexo, angústias urgentes.

Vermelha, esguia, fora de uso
Podia contar-vos mil e uma histórias de gente que me procurava para comunicar. A do jovem a quem faltara a mesada que os pais não tinham podido enviar, a da mãe que tinha saudades da filha que já não via há muito, a da filha que só queria ouvir a voz dum amigo, a do amigo que pretendia partilhar sentimentos.

Eram tantos que precisavam de mim para encontrarem quem queriam e ouvir quem não estava ali e de quem sentiam falta. Sentia-me útil e desejada, sentia que tinha uma função importante e necessária. Até que um dia fui ultrapassada por esse instrumento indesejável que passou a fazer parte da vida deles. Deram-me até outro formato mais moderno, mais apelativo – deixei de ser fechada, de ter porta e janelas pequeninas. Passei a ser arejada, apenas com o indispensável para um recado rápido, sem sentimentos nem anseios.

E fomos sendo afastadas dos espaços públicos. Dos milhares que se espalhavam pela cidade restam meia dúzia de outras iguais a mim, sem préstimo e sem jeito. Brevemente virão retirar-me daqui e passarei a ser mais um lixo, no monte de lixo das coisas inúteis. Eu, que já fui a cabine telefónica mais frequentada desta cidade.

                                                                                          Albertina Vaz ©2015,Aveiro,Portugal

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Objetos com vida

Maria Jorge 

A vida tramou Joana por diversas vezes. Seu filho único, e o grande amor da sua vida, morreu brutalmente num desastre de automóvel já há um bom par de anos e o seu companheiro deixou-a recentemente. Depois de ter uma vida muito ativa, agora já quase não saía de casa, porque as suas pernas não a deixavam ter a mesma agilidade de outrora. Os dias iam passando lentamente e o seu objetivo era, ao final de cada dia, falar telefonicamente com o neto e os dois bisnetos.
...não é todos os dias que se faz 85 anos.
O dia do seu aniversário estava a aproximar-se e, como este ano coincidia com um fim-de-semana, era a altura ideal para todos se reunirem, até porque não é todos os dias que se faz 85 anos... e quem estaria cá para o ano?
Com o sol a raiar por entre as persianas, adivinhava-se um dia primaveril de domingo. Mas, apesar disso, resolveram comer dentro de casa, até porque o tempo ainda estava muito incerto e não se fossem levantar aquelas nortadas habituais para o meio da tarde o que tornaria tudo desagradável.
Era o dia ideal para Joana tirar da gaveta aquela toalha branca bordada que lhe tinha sido oferecida pela sua avó como prenda de casamento e o serviço de faiança inglesa que só era usado em ocasiões muito especiais.

sábado, 4 de julho de 2015

A minha cidade

       José Luís Vaz 


Como é bela a minha cidade! Vou a qualquer lado e quando digo que vivo em Aveiro, as pessoas fazem logo desfilar uma série de adjectivos elogiosos. É verdade, Aveiro e os seus canais, onde a Ria exuberante ondeia de vaidosa com o movimento dos moliceiros repletos de visitantes extasiados com a paisagem, fazem dela uma cidade ímpar.
As palmeiras do Rossio.
As palmeiras do Rossio dão-lhe um ar exótico como se fossem nobres castiçais a embelezar faustosas entradas de monumentos.
A velha Avenida Dr. Lourenço Peixinho, agora despida do refrescante arvoredo intenso e denso, permite à Ria espreitar pelas “Pontes”, lá para o fundo, a sempre linda Estação da CP forrada com azulejos doutras épocas.
Cidade da Arte Nova exibida por muitos edifícios da cidade, alguns deles bem necessitados de cuidadosa atenção, antes que a ignorância e a ambição ocupem os seus espaços.
Os Museus de Arte Nova e da cidade de Aveiro, também conhecido por Museu de Santa Joana, conservam e eternizam muita da cultura da região através das peças de arte que neles abrigam.
A Sé, majestosa e imponente catedral, está ligada a uma obra não menos importante, As
A Sé
Florinhas do Vouga, que se preocupa com os excluídos e sem abrigo, ajudando-os com um pouco do muito que eles não têm.
Logo ao sair da cidade, no percurso para as praias, as marcas de uma paisagem apaixonante formada pelas marinhas, permanentemente vigiadas pelas gaivotas que com os seus voos desenham no ar o que a água espelha para delícia de quem passa. Marinhas que outrora produziram muito sal suado pela labuta de marnotos que para ganharem o pão ali deixavam muita da sua saúde.
Também Aveiro teve belas muralhas que acabou por perder no século IXX, quando demolidas para que as suas pedras fossem utilizadas em obras da Barra e na construção do liceu.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

AVEIRO de ontem e hoje…

Maria Pedro 


Ó Aveiro de emoções,
De belas recordações
Em tempos bem remotos,
Logo pela manhãzinha
Passavam para a marinha,
Apressados marnotos.

Gente assim laboriosa,
Alimentavam a prosa
Com as belas tricaninhas,
Que parecendo toutinegras
Vestiam como mandam as regras
Até pareciam princesinhas!

O mercado do peixe
Aveiro de antigamente,
Como te recorda a gente
Dessa beira-mar ribeirinha,
Onde no mercado do peixe
Mesmo que a gente se queixe
Se vai vendendo a sardinha...




sábado, 13 de junho de 2015

A minha “Cidade” de sonho

Elsa Borges

Junho de 1966 chegava ao fim. Outra fase da minha vida se desenhava no futuro que, apesar de desconhecido ou talvez por isso, eu desejava que acontecesse rapidamente. Queria ir estudar para a cidade, experimentar vivências de alguma independência, carregar livros nos braços, apenas numa capa e abandonar a mala que usei, desde a primeira classe que, para além de gasta era já objeto fora de moda.   
A nossa professora preparava-nos com empenho para o desafio de nos apresentar ao exame da quarta classe na Escola da Glória. Dizia-nos com frequência:
– Quero os nomes das minhas alunas inscritos no quadro dos “Aprovados com
"Aprovados com distinção"
distinção”. Lá, na cidade, pensam que por estarmos para cá da 109, não somos capazes de ser tão bons ou melhores que eles!
Havia um grupo de alunas que assumia como missão este objetivo da professora e, então, cada uma com o seu melhor, criava à sua volta pequenos grupos de companheiras e, para além dos horários das aulas, procurava transmitir às suas “aprendizes” de forma simples, de igual para igual, como conseguiam resolver problemas de matemática, memorizar sem hesitar as tabuadas, jogar com as palavras na redação, papaguear o Portugal dos mapas, com os seu rios, montanhas, linhas férreas e culturas de cada região, contar a História de Portugal desde Viriato a Salazar, como se fosse um verdadeiro conto. Falar de tudo isto como sendo essencial para o nosso futuro, sabermos de onde viemos e para onde queremos ir. Era assim que conseguíamos aprender umas com as outras.
Foi assim que um grupo, a pé, em fila indiana, escoltado pelos professores, saiu de S. Bernardo em direção ao centro da cidade. Brilhou, para orgulho dos mestres de quem foi muito elogiado o trabalho. A prestação das escolas para além da 109 foi considerado excelente.
Eu por mim senti um choque ao presenciar aqueles bandos de alunos palradores,
"para além ou para cá da 109"
em contrastes connosco, os tímidos, vindos das áreas rurais como eu e percebi o que a nossa professora queria dizer com a expressão “para além ou para cá da 109”.
Olhei os campos de milho que existiam junto à linha de caminho-de-ferro, olhei as ruas largas com os seus edifícios mais ricos e embelezados por azulejos de flores e cores exuberantes, com guardas de varandas e janelas em renda de ferro forjado. Outros edifícios, mais recentes, despontavam já, numa corrente mais cubista, contestada pelos aveirenses pela sua inadequação ao espaço. Depois a famosa ria de Aveiro que, vinda dos lados do mar, atravessava a cidade por baixo da 109 e se encontrava com pequenos riachos vindos de S. Bernardo, passando por Vilar, engrossando o caudal de águas lodosas.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Um objeto

Maria Helena Linhares 

Não sou moldável, mas ocupo um espaço razoável. Sou feliz porque me considero imprescindível para o meu dono, até ando muito próxima ao seu coração. Aliás muitas vezes até penso que o coração que bate tão perto de mim, faz parte de mim, porque o meu dono, ou está afanosamente a trabalhar, num stress horrível, ou em horríveis correrias, dum lado para o outro, ou pára, esgotado, e aí perde-se a afagar-me, vezes sem conta, a cabeça sempre a pensar...
Limpa-me inúmeras vezes, amorosamente, como se outra coisa não soubesse fazer na vida. Sim, ignorada nunca sou.
Ele fala comigo, até a dormir, porque eu também necessito de descansar, e faço-o a uma distância de um braço dele.
...somos um só!
Como se o descansar só fosse possível comigo tão perto.
O restante tempo é gasto sempre a girarmos, em correrias loucas, no meio das maiores barafundas possíveis.
Este homem, mesmo quando foi premiado – ouvi dizer - e subiu a um palco e falou no meio do maior silêncio e depois se ouviram muitas palmas, mesmo ali, teve que me exibir, a mim, como um troféu! Tive um medo horrível, será que me iria leiloar?
Mas não! Todos me olharam com muita admiração, o meu dono recebeu uma taça e eu voltei para o meu lugar habitual, perto do seu coração…
Perguntaram-nos (a mim e a ele, pois somos um só) – para onde corremos mais frequentemente:

domingo, 31 de maio de 2015

ILUSÃO

Maria Celeste Salgueiro
Na alma uma ânsia de tudo aprender!

Eu já fui criança de bibe e calção,
Com outras crianças alegre a correr;
No pátio da escola jogando o pião,
Na alma uma ânsia de tudo aprender!

Recordo o meu mestre de vara na mão
Impondo respeito, voz alta a dizer
“Isto é como um jogo, ouçam a lição,
Vão ver como é fácil a arte de ler”.

Dizia a verdade, foi quase a brincar,
Podia as palavras enfim decifrar!
Que grande alegria, que orgulho  profundo!

Naquele momento eu era o melhor,
A vida era bela e o sol com mais cor,
Julguei que podia ser dono do mundo!

Maria Celeste Salgueiro ©2015,Aveiro,Portugal
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