terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Medo: e a dúvida abre em ferida

Tinham na face o olhar assustado de quem viu muito e não quis assistir a nada: eram meninos amedrontados que se escondiam para não serem notados. Partilhavam o mesmo quarto numa instituição que os acolhera como quem recebe uma encomenda: muitos abraços, muitos beijos e depois o silêncio. Um silêncio que faz doer em cada linha do corpo e que cala as esperanças e se esvai por entre as voltas das mãos e se espalha por entre os fios que sobram das meadas e se esgota numa gota de água que fluidifica a chuva miudinha que persiste em cair.
Trazem consigo uma história de vida que parece não ter princípio nem fim. Simplesmente está ali, aconteceu, como se não houvesse nada tão inevitável nem tão tangente.
Rosto sem expressão
A Joana era uma criança de apenas seis anitos: cara macilenta, olhos desmedidamente grandes quase a saltarem para o chão, rosto sem expressão – nem um esgar de dor nem de prazer. Impassível como se à sua volta nada estivesse a acontecer. Braços alongados ao lado do corpo, parados, numa imobilidade que não se adequa a uma criança nem se sentem nos intervalos do bem-querer. A Joana tinha sido a vítima de uma relação mal sucedida entre dois seres humanos – um homem, uma mulher – que, sem o quererem, deixaram de se gostar e não quiseram reinventar o amor. Um dia assistiu a uma discussão, no dia seguinte a zanga recomeçou, os berros, os gritos pareciam querer quebrar-lhe a cabeça e deu por si a fechar-se sozinha no quarto que já não era seu e onde se sentia refém de um amor desavindo entre aqueles que sempre tinham sido o seu suporte emocional.
Da primeira vez nem queria acreditar: afinal tinha sido até então uma criança feliz – nem percebia o que estava a acontecer. Só ouvia os gritos do pai, a zanga da mãe, as cadeiras que voavam, um livro que quase lhe acertou na cabeça… 
Os gritos continuavam lá...
Escondeu-se debaixo da mesa e tapou os ouvidos, fazendo força para não ouvir nada. Mas continuava a ouvir, por mais que não quisesse, continuava a ouvir. Então resolveu fugir, sair do seu refúgio e procurar outro – galgou as escadas para o andar de cima da casa, fechou a porta do quarto e atirou-se para cima da cama. Procurou uma almofada e escondeu a cabeça por debaixo.
Os gritos continuavam lá, cada vez mais fortes, cada vez mais assustadores. Teve medo e não sabia que aquilo se chamava medo. Quis voltar a fugir mas sentia-se imobilizada, as pernas pesavam toneladas, os braços imobilizados pressionando a almofada em cima da sua cabeça. Só queria, só queria que aquilo acabasse depressa. Como havia começado – depressa, sem sequer se dar por isso.
Tinham começado a discutir – era o jantar que estava frio! E estava frio porquê? Porque o pai se atrasara na garagem, a andar à volta do carro. Tão simples quanto isto. Nem sequer percebia como aquilo acabara numa discussão tão grande com objectos a voarem pelo ar e a partirem outros objectos que se espalhavam pelo chão.
Gostar é a única palavra que conhecia
relacionada com pai, com mãe...
Joana tremia num espasmo de dor que não se esvai nem desaparece: gostar é a única palavra que conhecia relacionada com pai, com mãe, com família. Gostar não se podia pôr em causa – e aquilo o que era? Como ia ser daí em diante?
E de repente o silêncio voltou como um sopro de vento que se vai desvanecendo a pouco a pouco e se aquieta num recanto bom dum sítio qualquer. Não teria sido apenas um pesadelo? Teria estado a sonhar com uma cena de terror? Ou seria apenas mais um filme daqueles que passam na televisão e que assustam de tanta violência, de tanto ruído, de tanta guerra?
O silêncio, lá em baixo, mantinha-se! A medo, Joana foi destapando a cabeça, saindo de mansinho debaixo da almofada: ainda não era noite mas uma nuvem muito cinzenta olhava-a através da janela semicerrada. Ficou ali parada muito tempo, quietinha com receio de se mexer e voltar tudo ao princípio e ouvir aquilo tudo de novo. Enroscou-se sobre si mesma quase tocando os pés com a cara e começou a soluçar cadenciadamente, baixinho, para não ser ouvida, baixinho, para que ninguém desse por ela, baixinho, só para descarregar o pavor que se havia misturado com a sua pele e a arrepiava até aos dentes.
Joana já não ouvia...
De repente a porta abriu-se e deu por si a saltar da cama: era o pai! Um esgar de terror estampado no rosto daquele homem que sempre julgara meigo e amigo – estava diferente, muito diferente, como nunca o vira até então. Soprava, gritava, esbracejava e vociferava mil e mais uns pretextos para aquela situação. Ele não tinha culpa – a mãe é que o provocava, a mãe dela era uma infindável lista de impropérios e de falta de qualidades. A mãe era uma mulher intratável, a mãe era…

Joana já não ouvia – tapara os ouvidos e começou a sentir grossas bátegas de lágrimas a escorrerem-lhe pela face. Num instante sentia uma mão forte arremessar-se contra a sua face e uma dor aguda provocou um grito que não conseguiu reprimir. Naquele instante Joana percebeu que nada daquilo tinha sido um sonho e sentiu-se crescer em segundos mais do que lhe tinha acontecido nos seus seis anitos de brincadeiras despreocupadas e felizes.

Albertina Vaz ©2014,Aveiro,Portugal

9 comentários:

  1. A pior da violência sobre um ser humano - uma criança. Tantas Joanas que há por aí remetidas a uma ajuda de "muitos abraços, muitos beijos e depois o silêncio" que o sistema protege em instituições que muito querem dar a quem não quer receber e não tem que entender a pior das solidões - perda de pais e lar. As imagens sucessivas retratadas no texto fazem dele um verdadeiro filme de terror onde a "palavra" é a soberba personagem.

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  2. Infelizmente - "Naquele instante Joana percebeu que nada daquilo tinha sido um sonho e sentiu-se crescer em segundos mais do que lhe tinha acontecido nos seus seis anitos de brincadeiras despreocupadas e felizes..." - e cada criança cresce à sua maneira. Mais uma vez o egoísmo do adulto a reinar, as suas frustrações, o seu desencanto que o desumanamente cega pelo que está à sua frente - o filho, a filha, a criança. Muita da violência que vemos e sabemos (tantas vezes por sussurro) poderia ser evitada se o adulto fosse menos egoísta e mais amor (o pleno). Excelente texto, Albertina.

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  3. "Um esgar de terror estampadono rosto daquele homem que sempre julgara meigo e amigo"
    Quais serão as causas de mudanças tão drásticas no comportamento de tantos homens e mulheres? Frustração? Egoísmo? ... É mais que urgente repensar a educação das crianças e jovens para que não se transformem em adultos incapazes de procurar o caminho para a felicidade, multiplicando à sua volta o mal-estar que os corrói.

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  4. As guerras mais desumanas,- mesmo as domésticas- começam muitas vezes, quase sempre, por um motivo fútil que abrange terceiros e arrasta terceiros inocentes, violentando-os depois a optar por uma das partes sob pena de sofrerem retaliações.O diálogo e a serenidade pensante seriam suficientes para evitar o conflito familiar que a reiterar-se destrói o sonho que gerou a criança, que nunca compreenderá a futilidade do conflito familiar. História descrita com ritmo e realismo objectivo bem marcante e actual.

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  5. Crianças depositadas em instituições, depois da violência exercida sobre elas. A violência continua, mas arranjámos uma solução e já podemos dormir descansados... Somos todos culpados pelo sofrimento atroz dessas crianças. Todos!

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  6. Cenas destas, infelizmente há em muitas casas. Claro que as vítimas são as crianças. Porquê? porque hão-de ser elas a sofrer horrores? Este texto demonstra bem o que existe por esse mundo.

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  7. Excelente trabalho, Albertina. Parabéns! Gostei bastante! Não só porque os alertas se revelam, muitas vezes, inibidores destes comportamentos, mas também pela escrita, empenhada, onde descobrimos um contributo cívico da maior importância e cada vez mais urgente!

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