segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

De mãe para filha

Inês, vou-te contar a minha história de amor. A única na minha vida.
Amei profundamente um homem, o Afonso, teu pai. Conheci alguns homens antes do Afonso
Amei profundamente
um homem, o teu pai
entrar na minha vida, mas nunca havia conhecido alguém como ele, capaz de me mudar para sempre. É que com o Afonso tudo parecia fazer sentido e o meu instinto dizia-me para não recuar, não recuar e não recuei.
Conheci o teu pai em Novembro de 2003, estava num bar habitual com o meu grupo de amigos, e vi-o no balcão, sozinho, a fixar-me sedutoramente, um homem lindo, maduro – eu tinha vinte e cinco anos. Lembro-me que ao enfrentar aquele olhar fiquei nervosa, suei por inteiro, entrelacei as mãos, cruzei as pernas, tentei usar em mim a minha própria força, tudo para combater o desejo de me levantar e tocar naquele homem que não parava de me olhar. Eu nunca senti algo tão intenso na minha vida.
Não falamos nessa noite, nem nas noites que se seguiram, eu na mesa, ele no balcão, muita gente, mas só os dois, como num filme. Assim, com esta intensidade, durante um mês.
Em Dezembro de 2003 fui convidada para estagiar numa grande multinacional nos Estados Unidos, uma oportunidade única e para a qual trabalhei imenso. Sentia-me estasiada, realizada e apenas uma imagem esmorecia este encantamento, aquele homem do bar. Retirei-o da minha mente, havia programado outro rumo para a minha vida: liberdade, independência financeira. Enfim, filha, ser dona da minha vida e depois quem sabe, mais tarde, o amor viesse ao meu encontro.
Festança até cair
Para festejar o grande acontecimento combinamos, os mesmos do costume, uma festança naquele bar; beberíamos até cair, brindaríamos ao futuro brilhante que todos teríamos, e eu, no fundo, esperançava vê-lo uma última vez. Não apareceu. No final da noite decidi que iria para casa enquanto o resto do grupo brindaria pela noite fora. E, Inês, é aqui que a história de amor da tua mãe começa e sem que eu imaginasse, a tua vida também.

Já estava à beira do meu carro a abrir a porta quando ouço uma voz atrás de mim
- Então, vais partir?
Aquela voz secara-me a saliva, gelara-me os movimentos e apenas o meu coração vibrava dentro de mim lembrando-me que eu estava viva e que deveria responder
- Vou.
- Fica.
- Porquê?
E sem pronunciar uma única palavra aproximou-se de mim, encostou-me ao carro enquanto os seus olhos cravados nos meus me impediam de objectivar, discernir, e beijou-me: fundimos as nossas bocas no beijo das nossas vidas. Acordei a seu lado e quando observei a imagem daquele homem encostado ao meu ombro percebi que jamais partiria para qualquer outro lugar. Estava apaixonada.
Ele passou a ser a fonte da minha vida
O Afonso passou a ser a fonte da minha vida, o motivo pelo qual existia, e de nada serviam os sinais de descontentamento dos meus pais, dos meus amigos, da minha vida passada cada vez mais distante; nada conseguia sobrepor a presença do Afonso na minha vida e eu nunca percebi os sinais que me indicavam o meu isolamento. Era só eu e ele, juntos. Nunca precisei de mais. Amei muito o teu pai. E ele a mim. Foram três anos maravilhosos. Mas bastou um dia para desmoronar um sonho.
Um final de tarde a tua avó liga-me, pede-me ajuda que está doente e o teu avô está ausente. Eu não trabalhava porque o Afonso preferiu que eu ficasse em casa a tomar conta das nossas coisas e por isso tinha disponibilidade, antes de sair tentei ligar-lhe para o trabalho, depois para o telemóvel, sempre sem sucesso. Na altura fiquei estranhamente aflita por sair sem pedir autorização, na altura eu chamava-lhe aviso, deixei um bilhete e parti em socorro à minha mãe: voltei na manhã seguinte.
E esta foi a primeira vez que o teu pai me bateu: esbofeteou-me violentamente no momento que entrei em nossa casa, eu fiquei sem reacção, chamou-me nomes horrendos e expulsou-me naquele momento. Fugi como pude para casa dos meus pais, teus avós, a minha mãe aceitou-me em casa como se eu nunca tivesse saído e deixou-me chorar no quarto, sozinha, durante horas. E não me julgues se eu te disser que chorava de saudades dele, de medo de o perder, de carência do seu corpo no meu. Amava-o, e contra tudo e contra todos perdoei-lhe no dia seguinte quando me pediu, de joelhos, perdão. Sem ele eu era um vazio, ele sabia, pegou em mim e levou-me para casa.
- És o meu grande amor.
Eu sabia que era, ele também era o meu grande amor. Havíamos de ser a destruição um do outro, só não queríamos ver.
- Não me batas nunca mais, por favor.
- Nunca mais, Leonor. Dói-me, só de pensar no que te fiz.
Foi a sua última mentira. E eu já não me pertencia.
Depois deste episódio a violência física e psicológica passou a ser constante na minha vida
Perdi a minha voz...
e se foi o amor que me impediu de fugir nos primeiros tempos, depois foi apenas a vergonha que me mantinha atada aquele sofrimento. Ele também sofria, o teu pai, mas nunca aceitou ajuda. Nunca se amou, como eu nunca me amei.
Por altura do natal de 2009 eu já me tornara um fantoche de mim mesma, não tinha identidade própria, perdi a minha voz e há muito morrera para o amor e a esperança. Sentia que destruíra todos os meus sonhos. Até o teu pai se perdera algures e já não era capaz de se reencontrar. Eramos uma fachada.
Foi quando apareceste. Fizemos amor na altura do nosso aniversário. Se fechássemos os olhos à realidade ainda nos desejávamos ardentemente e foi o que aconteceu uma última vez: amamo-nos e tu começaste a crescer dentro de mim. Nunca lhe contei, algo em mim mudara: tu.
Decidi que só havia uma coisa a fazer para te proteger da vida que eu levava: fugir. Deixei o teu pai num momento de distracção. Os teus avós deram-me todo o dinheiro que tinham e fugi para uma aldeia no interior, escondida de tudo e todos - devo aos teus avós a nossa vida -, nem eles conhecem o nosso paradeiro, apenas falamos uma vez por mês, quando eu lhes ligo. Abandonei a minha identidade e passei a chamar-me Rute Soares, fui recebida pelos residentes sem perguntas, deram-me trabalho, consegui uma casa, uma vida e paz para te ter e criar. Uma paz que nunca havia sentido, Inês – deixara de sentir medo.
Chamei-te Inês...
Nasceste saudável e amada. Chamei-te Inês Soares. Crescemos juntas e o teu pai morreu dois meses antes do teu nascimento – foi esta mentira que decidi contar-te e todos na aldeia me apoiam, devo muito, Inês, a todas estas pessoas que se tornaram na nossa.
A verdade é que o teu pai existe, Inês, bem longe de nós e tenho a certeza, a cada dia que passa, que fugir foi o melhor que fiz por nós: ainda hoje, passados três anos, o teu pai passa horas infinitas em frente à casa dos teus avós, a olhar a janela do meu quarto à espera de um movimento meu. Sei que implora aos teus avós por uma informação, diz que me ama, que morre todos os dias sem mim, que mudou mas logo depois da negativa dos teus avós diz que me encontrará e me matará porque não valho nada. O teu pai nunca mudará. Ainda hoje espero o dia em que ele baterá a esta porta e matará o pouco que tenho cá dentro e que deixei unicamente para ti. Por isso escondi-te dele e dei-te um caminho sem sofrimento para que possas viver sem as sombras do passado dos teus pais. Menti-te porque o teu pai não tem cura e não sabe amar.
E escrevo esta carta, filha, enquanto dormes na doçura dos teus três anos, para quando fores
Nunca deixes de te respeitar
maior, e caso eu não esteja ao teu lado para ta contar, a leres, conheceres a verdade das tuas raízes, e decidires o que fazer com a tua vida, quem sabe, por essa altura, já terás aprendido a amar-te, a valorizar-te, antes de amares alguém, como eu fiz. Mas talvez tenhamos tempo, Inês, e quem sabe se a receberás pelas minhas mãos. No entanto fica a certeza que foste muito amada, a certeza de que amei muito o teu pai, que ele me amou muito antes de tudo acontecer e que, se algum dia o quiseres conhecer, a escolha será sempre tua, filha.
Ele, eu, os dois erramos - não duvides nunca de ti e nunca deixes de te respeitar. Não queiras, nunca o permitas, Inês, um amor igual ao dos teus pais para ti.
Ainda o amo. Escrevo-o sem vergonha. Para que vejas em mim o exemplo que não deves seguir: ainda amo o homem que me batia e que me quer matar. E vou amar até ao meu último suspiro.
Foste tu, Inês, que me salvaste.
Obrigada, filha.

Rute, tua mãe.


Albertina Silva Monteiro ©2013,Aveiro,Portugal

8 comentários:

  1. Os sinais são sempre os mesmos: a violência inscrita no ADN de alguém, mas que esconde meticulosamente, vestindo roupagens de isolamento ou outro disfarce. Depois a vitima é ofuscada e nunca mais se liberta do monstro. Mesmo que se esconda e mude de nome.
    Esta carta de um humanismo tão profundo é um exemplo dessas ciladas.

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  2. Silêncios que se acumulam, se silenciam, são silêncios que vão doendo devagarinho e corroendo uma relação que se adivinha não suportável. E mesmo assim a vitima continua a amar o agressor. Sei que tudo isto é real e sei também que o medo paralisa quem vive o pavor duma relação que deixou de o ser. Incrível é pensarmos que no mundo dos nossos dias estes casos em vez de retrocederem estão a aumentar.
    Esta mãe escreve à filha - não fala, escreve! O medo é tão grande que até a caneta pode ser capaz de revelar o pavor.
    Gostei muito, Albertina!

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  3. E a cena repete-se... E volta-se a repetir... Quando não há mortes chega a ser motivo de alívio... Note-se o regozijo nacional expresso em todos os canais de TV quando noticiaram que houve menos 7 (?) mulheres assassinadas, de um ano para o outro, em cenas de violência doméstica. Só falta fazer uma festa porque os monstros estão matando menos... Para além de revoltante é uma enorme vergonha, conforme, muito bem revela este texto.

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  4. Este texto e outros que virão apenes reflecte uma gota no oceano. Poderíamos dizer muito mais, a violência doméstica é, infelizmente, muito mais abrangente...
    "...a violência inscrita no ADN de alguém...", está aqui uma frase digna de discussão.
    O poder de um agressor, é, com excepção das crianças, permitido pelo agredido nem que seja apenas uma vez. Muitos jovens ainda não perceberam isso, mesmo com toda a informação disponível, e depois tornam-se adultos...
    Um assunto muito delicado. Obrigada pelos vossos comentários.

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  5. As grandes contradições do amor: o que agride/mata a pessoa amada; o que apesar das agressões, continua a amar o seu carrasco, de forma doentia (diríamos nós). Abundam as explicações, mas como mudar isto? Que terapias poderão aplicar-se para mudar estes comportamentos desviantes? Albertina, obrigada por este texto tão profundo.

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  6. Exemplo de rara coragem. depois de combatido o medo e o silêncio; uma história tantas vezes repetida mas nem sempre com um fim tão nobre como este. Texto muito bonito e com uma profundidade terrível!

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  7. Lindo texto. Há por esse mundo, tantos exemplos de mulheres que sofrem horrores, mas a maior parte não tem a coragem desta mãe, que resolveu presentear a filha com outro futuro.

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  8. D.Teresa Cardoso, D.Julia Sardo: Agradeço as vossas palavras.
    D. Maria Conceição: tanto por fazer...Obrigada.

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